
Organizar a juventude trabalhadora nos seus locais de moradia!
Ao longo dos nossos 99 anos, organicamente vinculados ao PCB, estivemos presentes em diversas lutas, como a resistência ao integralismo, a campanha pela soberania dos nossos recursos e as mobilizações contra a invasão da Coreia, que ampliam a percepção de qual seria o nosso papel histórico como Juventude. Partindo do pressuposto de que as nossas frentes de atuação não se constroem de forma isolada, mas estão essencialmente interrelacionadas, faz-se necessário elucidar o caráter do nosso trabalho nos locais de moradia, expresso pelo chamado Movimento de Bairros.
Logo, esse texto persegue um esforço de aprofundar o entendimento de que existem ações e propostas realizadas pelos comunistas para além das escolas e universidades, ainda que por vezes também estejam vinculadas a elas. Aprofundando proposições já feitas anteriormente, sem colocar um ponto final na discussão, procuramos aqui definir de forma clara o alcance da organização da juventude nos locais de moradia, as possibilidades de atuação que se apresentam na conjuntura atual, bem como nossos entendimentos acerca da inserção junto às bases e do estabelecimento de um local de atuação.
O que é o Movimento de Bairros e por que ele existe?
Como já foi apontado em outros textos produzidos pela nossa organização, a UJC tem a tarefa de organizar e mobilizar a juventude trabalhadora nos locais de estudo, nos locais de trabalho e nos locais de moradia. Respectivamente, cada uma dessas dimensões está ligada a uma chamada frente de atuação: o Movimento Estudantil (ME), os Jovens Trabalhadores (JT) e o Movimento de Bairros (MB). Dessa maneira, o Movimento de Bairros é uma das três frentes de atuação existentes no trabalho da UJC, ligada ao trabalho nos locais de moradia.
Embora pareça óbvio apontar isso, ainda podem haver confusões acerca da extensão e dos limites deste trabalho. Por exemplo, falar sobre a organização da juventude trabalhadora, como parcela jovem da nossa classe, não é necessariamente a mesma coisa que atuar na frente de Jovens Trabalhadores. Nesse sentido, se estamos mobilizando a juventude trabalhadora a partir de pautas ligadas ao seu local de moradia, estamos na prática tratando do Movimento de Bairros. Portanto, cada uma dessas frentes precisa ter seus objetivos muito bem delimitados para que possam ser apreendidos.
Para auxiliar nessa diferenciação, vale tecer mais algumas observações. Quando tratamos de infraestrutura, por exemplo, no ME, é possível organizar a juventude para garantia de melhorias da infraestrutura nos espaços educacionais, enquanto no MB as lutas por infraestrutura envolvem, por exemplo, questões de drenagem urbana. Por outro lado, na atuação com a cultura, é possível a partir da criação de locais para a manifestação artística popular em escolas e universidades (no ME) ou nos territórios (no MB), mas em JT devemos buscar organizar a categoria de jovens trabalhadores da cultura, a partir de suas demandas particulares.
A partir disso, cabe ao Movimento de Bairros toda atuação que não surja de demandas imediatas do estudo ou do trabalho, mas da área na qual estamos inseridos como moradores. Nesse contexto, podemos pensar em grandes temas que atravessam o nosso cotidiano: saúde e assistência social, transportes e mobilidade, terra e moradia propriamente dita, lutas anti-opressão, segurança, esporte e lazer, alimentação, meio ambiente ou infraestrutura. Vale dizer que, embora faça referência a uma noção exclusivamente urbana, pode se considerar o bairro como um agrupamento humano no geral, com um relativo senso de unidade.
Apesar de nem sempre ter sido entendido como tal ao longo da história do país, o Movimento de Bairros – principalmente através dos movimentos populares – sempre teve sua relevância, e hoje isso se intensifica ainda mais. Isso porque, no contexto atual de aprofundamento da crise capitalista, parte da juventude trabalhadora não está presente nos locais de estudo, a partir de fenômenos como a evasão escolar. Em igual medida, uma parcela também não está nos locais de trabalho, principalmente formais, devido ao desemprego que nos afeta mais diretamente. Esse grupo formado precisa ser acessado por nós nos seus locais de moradia.
Possibilidades de trabalho nos locais de moradia
Realizar a abertura de trabalhos fora do movimento estudantil não é fácil, na medida em que já em princípio esbarramos com dificuldades no mapeamento e inserção em entidades específicas para isso, para além de outros desafios que nem sempre dizem respeito às limitações das organizações políticas da esquerda radical. Por isso, para que sejamos capazes de produzir resultados efetivos nos locais de moradia, é preciso agir de forma consciente e consequente, planejada e centralizada. Há alguns caminhos já formulados para isso, como a construção e condução de um bom planejamento, porém isso pode acompanhar outras ações.
O primeiro se faz através dos chamados mapeamentos territoriais, que permitem um maior conhecimento da área onde vivemos, bem como do nosso potencial como organização de forma geral, a partir da situação concreta atual. Com essa ferramenta, podemos formular propostas que estejam melhor vinculadas às condições materiais da realidade, mas também ações que de forma consequente possibilitem nossa inserção junto às bases. Para isso, inclusive, é importante que nós entendamos os limites de nossa área de atuação – que pode partir de onde nós moramos –, até onde vamos estar presentes, rumo à definição de um ou mais locais de atuação.
Os mapeamentos territoriais devem conter dados nessa área que forem consideradas importantes, o que garante uma relativa flexibilidade de seu conteúdo. Contudo, de uma forma ou de outra, é fundamental que nele contenha aquilo que se apresenta de forma imediata, mas também uma discussão sobre o território naquele momento. Ao mesmo tempo, podem ser definidos pontos de interesse, como locais de atuação possíveis, que no MB incluem as associações de bairro e de moradores, conselhos, frentes e fóruns, coletivos culturais e anti-opressão, brigadas e cursinhos populares, iniciativas de comunicação popular, marchas, ocupações urbanas e rurais, entre outros movimentos populares.
Outro caminho para uma atuação inicial, que não precisa acontecer somente após a proposta anterior, pode partir de ações periódicas de agitação e propaganda a partir de ações criativas, formativas e de intervenção pública. Propostas como o nosso 21 Vermelho, por exemplo, que podem compreender panfletagens, colagens de lambes e realização de consultas públicas, favorecem o nosso conhecimento sobre o território e as demandas imediatas da nossa classe através de um diálogo direto com a juventude trabalhadora, o que igualmente permite uma intervenção mais adequada na realidade.
Ainda, revelando as conexões entre o Movimento Estudantil e o Movimento de Bairros, muitas iniciativas podem surgir da organização dos estudantes secundaristas e universitários. Realizando o programa político do Movimento por uma Escola Popular e do Movimento por uma Universidade Popular, no qual se defende o fim da separação entre os locais de estudo e o território que está em seu entorno, é possível buscar atender às demandas da juventude trabalhadora e da classe trabalhadora como um todo por meio dos projetos de extensão populares, assim como de atividades culturais e formativas para quem está fora desses locais.
Inserção nas bases e construção do local de atuação
Após um momento de observações e intervenções, já é possível estabelecer possíveis locais de atuação. A partir disso, cabe iniciar os primeiros contatos, com o objetivo de trabalhar junto às massas, algo importante, na medida em que – sobretudo no MB – pode haver uma relativa e justificável desconfiança em pessoas que são “de fora”, a não ser que estejamos falando de locais com a presença de outras forças políticas, como frentes e fóruns. Isso significa que devemos “saber chegar e saber sair”, de forma respeitosa, responsável e prestativa.
Ao mesmo tempo, cabe considerar algumas particularidades de ritmo de trabalho no Movimento de Bairros. Diferentemente do ME, por exemplo, que impõe seu ritmo pela regularidade de entrada de estudantes e processos decisórios de entidades, muitas vezes o MB parece ser mais vagaroso, dando a impressão de que pouco ou nada acontece, embora também existam situações de acirramento na conjuntura que se expressam em intensa atividade. Logo, a constância e regularidade do trabalho pode ter que partir de nós mesmos. Isso deve nos ensinar a ter não só a prontidão e a sabedoria necessária nos momentos mais dinâmicos, mas sobretudo a dita paciência revolucionária.
Dito isso, nosso trabalho junto às massas e o estabelecimento de nossos locais de atuação – sejam eles criados ou fruto de inserção – precisa ser planejado, mas acima de tudo orgânico e não de maneira forçada. Neste último caso, nossas chances de êxito serão bem menores, se mostrando até desconectada da realidade, o que pode posteriormente ocasionar frustrações. A partir disso, é preferível a aproximação com locais que possuam pessoas já conhecidas por nós, cuja aproximação e diálogo já foram feitos em um momento anterior, de maneira franca e honesta, mas sem ingenuidade ou espontaneísmo.
Enquanto estivermos atuando nesses locais, sempre em diálogo com as massas, é preciso considerar aspectos que dizem respeito ao contato com outras forças políticas, sejam elas de esquerda ou não, mas também à nossa segurança. Há locais e regiões cujo cotidiano é marcado pela presença do crime organizado (na figura do tráfico ou da milícia) e de representações reacionárias (vinculadas a latifundiários, empresários ou neopentecostais) e isso precisa ser encarado com muito cuidado. Já tivemos algumas experiências em que isso não foi impeditivo de nossa atuação, enquanto outras isso nos impôs um real risco e perigo.
Considerações finais
Enfim, não se pode esquecer o motivo pelo qual estamos presentes nos locais de moradia; em outras palavras, tática e estratégia devem estar sempre conectadas. Nosso objetivo é a construção do Poder Popular, rumo à realização do socialismo e do comunismo. Logo, através do Movimento de Bairros, de uma forma ou de outra, cada local em que atuamos deve ter em seu horizonte a criação de Comitês Territoriais de Juventude, caracterizados pela democracia direta e pela recusa ao modo de produção capitalista.
Portanto, organizar a juventude em seus locais de moradia não é fácil, e temos uma grande tarefa pela frente. Porém, sabemos também a necessidade que há nisso, e o papel que o Movimento de Bairros também possui para que realizemos o desejado giro operário-popular, aumentando nossa presença sobretudo nas periferias. Isso demanda, entre outras coisas, planejamento, disciplina, criatividade, mas é plenamente possível. Então, camaradas, sigamos: disputemos corações e mentes da juventude trabalhadora para que cumpramos nosso dever histórico de fazer surgir um mundo novo, livre de exploração, opressão e devastação.
Victor Hugo Arona
Secretário Nacional de Movimentos Populares e de Bairros
União da Juventude Comunista – UJC Brasil




