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Sobre a planificação do trabalho

Sobre a planificação do trabalho

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De antemão, faz-se necessário apresentar o significado de duas palavras, na medida em que a escolha por determinadas palavras e não por outras carrega uma intencionalidade. Em dicionários comuns, planejamento (ou planificação) é um substantivo que significa o ato de planejar, a organização de uma tarefa com a utilização de métodos apropriados, e a determinação de ações para atingir metas estipuladas. Planejar é um verbo que significa criar ou elaborar um plano, fazer planos para algo, programar, projetar, e ter como intenção. Dado o seu potencial explicativo, em vários momentos serão feitas menções a essas definições.

Por que ainda falar em planejamento?

O planejamento não é uma prática humana qualquer, mas certamente uma das que são capazes de fornecer a diferenciação de nossa espécie em relação às outras. Certamente, há debates sobre isso que não cabem ser apresentados aqui, mas de acordo com Marx1, o trabalho humano está estritamente ligado a um objetivo, formulado prévia e idealmente no pensamento, e não é puramente instintivo, ligado a necessidades básicas imediatas, como é o caso das abelhas ou das formigas. Nossas necessidades também são socialmente determinadas.

Segundo Machel2, o planejamento é uma atividade elementar, fundamental à vida em sociedade, e se manifesta na capacidade de domínio de uma parte de nossa existência em um certo período de tempo. Logo, é possível verificar como ele circunscreve esse controle a “uma parte da nossa existência”, reconhecendo limitações que discutirei posteriormente. Antes disso, vale dizer que há uma relação com alguns aspectos das definições acima, como a “intenção” e da “ação”.

A partir da nossa sedentarização e dos desenvolvimentos das forças produtivas e das relações de produção, foi preciso planejar para distribuir alimentos regularmente durante um ano inteiro, se defender de povos inimigos, realizar espetáculos para o entretenimento da população, buscar recursos necessários em uma dada região, reverenciar ou acalmar os ânimos das divindades, etc. Na medida em que essas sociedades eram acima de tudo sociedades de classe, inclusive, certamente foi importante planejar para manter as estruturas de dominação necessária para a permanência das classes tal como se apresentavam.

No capitalismo, isso não é diferente: há um planejamento orientado às necessidades dos capitalistas e à acumulação exponencialmente progressiva do capital. Em contrapartida, para que isso também fosse enfrentado, o planejamento se fez fundamental, já que organizações revolucionárias sempre tiveram que planejar suas ações. Lenin3 já apontava, inclusive, como a organização é uma importante arma para o proletariado na luta pelo poder, enquanto Fanon4 defendia que a superação da opressão não seria fruto de operações mágicas.

Segundo Cunhal5, há um vínculo essencial entre a também chamada planificação e a concepção de organização, na medida em que esta inclui àquela:

“Os problemas e tarefas de organização, abarcando toda a atividade partidária, traduzem-se em decisões e medidas de planificação, definição de objetivos de ações a empreender, determinação e calendarização dos atos, mobilização e distribuição dos recursos naturais e humanos, fixação de tarefas, sua direção e execução.”

Para o mesmo autor, em um Partido Comunista, a organização é um princípio geral e universal do trabalho e ela é decisiva para o êxito de todas as suas ações. Mais especificamente, para ele, cabe sobretudo às direções – em todos os seus níveis – o ato de planificar e programar as tarefas, acompanhar o andamento delas, assegurar suas execuções, e estimular a criatividade para tal. Isso inclusive já sinaliza alguns aspectos de um método a ser seguido.

Nesse mesmo sentido, Mao6 também trata muito bem de aspectos centrais para a planificação, argumentando sobre a importância de considerar conjuntamente as condições históricas e as circunstâncias de cada região, bem como determinar centros de gravidade e uma ordem de execução do trabalho para um tempo determinado. Ainda, é apontada a necessidade de atuar para que os resultados previstos sejam alcançados. Novamente, tudo isso não se afasta das noções de “intenção” e “ação”.

Possíveis entraves na planificação do trabalho

Como já foi dito, é imprescindível que uma organização revolucionária aja de forma consequente e, por isso, planejada. No caso da realidade brasileira, que abrange particularidades por vezes nada similares entre si, é necessário haver uma coesão entre níveis locais, regionais e nacional. Ao mesmo tempo, não há necessariamente uma imposição para que isso seja feito todo semestre ou todo ano, mas deve-se buscar uma regularidade na construção de planos de ação, em que prazos também precisam ser estipulados, e nos balanços desses planos construídos, em que serão avaliados êxitos e derrotas ou facilidades e dificuldades, além dos seus respectivos motivos e efeitos. Em relação a isso, vale apontar alguns problemas que costumam existir.

Antes de tudo, existem as situações em que não há qualquer tipo de determinação prévia em relação às ações que serão feitas, recaindo no espontaneísmo já discutido por Lenin7 ou no burocratismo em que as reuniões da organização são para cumprir formalidades, uma nona expressão de liberalismo, nas palavras de Mao8. O que acontece aqui é que não há qualquer capacidade de intervir ativamente no movimento do real, mas um posicionamento relativo ou mesmo de retaguarda, à mercê do que acontece ao nosso redor.

Outra situação envolve uma ausência de avaliações preliminares, fazendo surgir planejamentos genéricos e/ou sem qualquer vínculo com a realidade. Nesses casos, são desconsiderados, como uma base para nossa atuação futura, análises de conjuntura local ou regional referente ao último ciclo ou um balanço rigoroso sobre esse período anterior, contendo atividades que foram ou não realizadas e uma reflexão da postura militância envolvida naquele organismo, com erros e acertos, bem como formas de não repetir erros e manter os acertos.

Percepções distorcidas sobre nossa capacidade de ação, durante a construção do planejamento, também podem recair em dois extremos prejudiciais. De um lado, está a covardia, em que há o medo de avançar politicamente, que costumeiramente se disfarça de pragmatismo, responsabilidade ou sensatez. Abandona-se a ousadia e a criatividade, argumentando que todas as propostas feitas são inviáveis ou arriscadas demais para aquele momento, o que oculta uma postura recuada que deseja, na prática, a manutenção de uma zona de conforto.

Do outro lado, a imprudência, quando não existe qualquer traço de paciência revolucionária, como se as condições objetivas e subjetivas para ocorrer uma revolução fossem surgir em uma semana seguinte. Determina-se uma série de tarefas que precisam ser feitas, dizendo que tudo aquilo é da máxima urgência, em um sentimento de onipotência que ignora qualquer obstáculo que possa surgir ou mesmo as limitações inerentes da existência humana. Embora ambos os casos acima possam ser extremos, o risco de eles se realizarem é constante.

Por fim, pode existir uma total desvinculação entre a concepção e a realização do planejamento. Cria-se um documento exemplar com tudo o que pode ser feito em um próximo ciclo, levando em consideração a conjuntura daquele momento e as possibilidades daquele grupo, mas não há aplicação ou controle desse documento. Na medida em que a ideia não se reverte em ação, a planificação do trabalho permanece apenas como uma fraseologia.

Para superar o que chamamos de planejamento

A escolha desse nome de seção foi, obviamente, provocativa. Em uma perspectiva da dialética hegeliano-marxiana, superar (Aufheben) algo é conduzir três ações de forma simultânea: suprimir, manter e elevar a um novo grau. Sendo assim, na medida em que o planejamento do nosso trabalho revolucionário ainda está permeado por vícios que prejudicam sua condução, é importante superar o que tem se chamado assim; para isso, vale descartar aquilo que atrasa, conservar aquilo que garante êxitos e, de uma vez por todas, dar um necessário salto de qualidade.

Nesse sentido, algumas diretrizes precisam ser levadas em consideração. A primeira delas é construir o plano de ação coletiva e presencialmente. Por não serem elaborados a todo momento, precisam ter seu conteúdo profundamente discutido, de preferência por todas as pessoas ali envolvidas. Como isso leva um tempo considerável, o que já impõe pausas para alimentação e descanso, se esses encontros forem feitos de maneira remota ou híbrida acabam se tornando cansativos e desgastantes.

Durante a concepção do plano de ação, é fundamental se orientar por uma análise de conjuntura daquele momento. Como já foi dito acima, o planejamento não surge do nada e, por isso, precisa ter ligação estreita com a realidade concreta. Além disso, deve-se considerar balanços já feitos, sejam eles de planos de ação anteriores, das ações das direções ou de atividades realizadas por aquele grupo. No mais, para os organismos de base, as orientações e os documentos de instâncias superiores são igualmente importantes.

A partir disso, pode-se construir um documento que considere diferentes dimensões do cotidiano militante e suas especificidades, como eixos que reúnem ações de caráter similar. Além de outros, esses eixos podem ser: o político, ligado à atuação nas bases e ao recrutamento; o organizativo, ligado ao funcionamento interno; o financeiro, ligado aos recursos materiais; o agitativo-propagandista, ligado à comunicação política física ou virtual; e o formativo, ligado ao estudo e ao domínio teórico-prático.

No documento, é fundamental que estejam os objetivos daquele plano de ação, expressos com um verbo no infinitivo, que representam aquilo que será levado em consideração em um período específico. Todo objetivo carrega consigo um indicador, expressos por substantivos, que demarcam aquilo que nos possibilita perceber objetivamente se aquele dado objetivo foi realizado, sem abrir brechas para inclinações momentâneas a partir de percepções individuais. Nesse sentido, ambos precisam ser definidos com a maior clareza possível.

Em um plano de ação, é possível que haja objetivos gerais, que guardam em si objetivos específicos, para uma melhor visualização do todo. De qualquer maneira, é fundamental que mesmo os objetivos específicos precisam de uma metodologia, como vimos na relação entre “planejar” e a existência de um “método”. Vinculando dialeticamente “parte” e “todo” ou “imediato” e “mediato”, a metodologia enumera o que deve ser feito, passo a passo e na forma de substantivos, para realizar um objetivo.

Tudo isso precisa incluir prazos, já que um plano de ação está circunscrito em um período determinado, cujo fim induz um balanço e um novo plano. Sendo assim, o prazo de um objetivo indica quando ele será priorizado, o que implica numa reflexão crítica sobre urgência, constância e contingência. Ao longo de um conjunto de meses, por exemplo, existe aquilo que precisa ser feito o quanto antes, aquilo que se pode esperar e aquilo que não estava planejado. É necessário, portanto, distribuir tarefas no decorrer do tempo e saber que algo pode interferir (na maioria das vezes, vai interferir) repentinamente naquilo que se planeja.

Ainda, tudo que se propõe precisa ser feito por alguém ou por um grupo de pessoas. Entra aqui, então, a responsabilidade, que determina quem fará cada coisa presente no plano de ação. Em relação a isso, cabe sempre verificar a distribuição e a concentração de tarefas, entendendo que um documento como esse pode contribuir para enfrentar ausências e sobrecargas, a partir do momento em que coloca ou retira atribuições para aquilo que se constrói coletivamente.

Enfim, deve-se valorizar o esforço que se materializa ao fim da reunião de planejamento. Produzido a partir de importantes acúmulos coletivos, esse tipo de documento não pode ser ignorado depois da sua criação, em hipótese alguma, sendo ele fruto de escolhas que também guardam renúncias, tão necessárias a uma prática política conscientemente sistemática. Aliás, como já foi discutido, planejamento é algo ligado a ações; logo, precisa ser colocado em prática e não ser guardado em uma pasta qualquer.

Considerações finais

Como em muitas outras práticas na militância comunista, o planejamento possui um aspecto dialético, já que se insere num processo que se retroalimenta: não há um início ou um fim, há apenas um devir que envolve a apreensão crítica da realidade, a concepção de planos de ação, a intervenção consciente na realidade, a avaliação crítica das ações e, então, uma nova apreensão crítica da realidade. Talvez isso seja um dos aspectos mais interessantes no debate sobre planificação.

Em síntese, o planejamento não é uma atividade qualquer, algo trivial ou acessório, mas é essencial para qualquer intenção que seja convertida em uma ação com resultados efetivos. Ademais, construir um plano de ação, bem como segui-lo com o devido rigor não é fácil. Porém, se o nosso propósito é intervir qualitativamente na realidade, cuja lógica do capital também se apresenta de forma imperiosa, a disciplina própria de um trabalho planificado é imprescindível. Em última instância, isso contribui diretamente para o êxito de um projeto revolucionário.

Por Victor Hugo Arona, militante da UJC no Rio de Janeiro


Referências

  1. MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Ubu, 2025. 928p. ↩︎
  2. MACHEL, Samora. Estabelecer o poder popular para servir às massas. 1974. ↩︎
  3. LENIN, Vladimir. Um passo à frente, dois passos atrás. São Paulo: LavraPalavra, 2024. 312p. ↩︎
  4. FANON, Frantz. Os condenados da terra. 1ª edição. São Paulo: Ubu, 2022. ↩︎
  5. CUNHAL, Álvaro. O Partido com paredes de vidro. 6ª edição. Lisboa: Avante, 2002. ↩︎
  6. ZEDONG, Mao. A propósito dos métodos de direção. 1943. ↩︎
  7. LENIN, Vladimir. O que fazer?: questões candentes do nosso tempo. 1ª edição. São Paulo: Boitempo, 2020. ↩︎
  8. ZEDONG, Mao. Contra o liberalismo. 1937. ↩︎