Provocações acerca do papel da extensão universitária hoje
A extensão universitária, tal como vem sendo praticada, explicita um descompasso cada vez mais evidente entre o que a universidade afirma ser e aquilo que, de fato, se realiza. Mesmo que ainda o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão permaneça como um referência formal, o cotidiano acadêmico revela uma fragmentação ainda persistente, no qual a extensão ocupa, quase sempre, o lugar mais frágil dentro das instituições de ensino superior (IES). Nesse sentido, a situação não se trata apenas de falta de recursos ou de reconhecimento institucional, embora isso também exista, mas sim de um rebaixamento político do seu papel, que a empurra ora para o assistencialismo, ora para a lógica de mercado.
Esse movimento não ocorre de maneira neutra, pelo contrário. Quando a extensão se reduz em ações pontuais, descoladas de processos mais amplos, ela tende a assumir um caráter paliativo: intervém nos efeitos das desigualdades sem tocar verdadeiramente nas suas causas. Em outras situações, quando subordinada a editais, convênios e demandas externas, passa a operar como prestação de serviços, ajustando-se a interesses que pouco têm a ver com as necessidades reais da população. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: a universidade mantém uma relação distante e vertical com a sociedade, ao mesmo tempo em que preserva intactas as estruturas que produzem essa distância. Assim, é justamente por isso que, ao falar sobre extensãos hoje, não é suficiente defender de forma abstrata. É preciso demarcar qual extensão está em disputa, sobretudo, qual extensão que se faz necessária. Nesse ponto, a extensão popular não aparece como uma alternativa entre outras, mas como a forma concreta de recolocar a universidade em sintonia com as urgências do nosso tempo.
A extensão que precisamos hoje é, antes de tudo, aquela que rompe com o assistencialismo, não se trata de “levar” conhecimento às comunidades, como se estas fossem espaços vazios à espera da intervenção universitária. Essa lógica, ainda muito presente, apenas reproduz relações de dependência e reforça a ideia de que o saber legítimo está concentrado dentro da universidade. A extensão popular, ao contrário, parte do reconhecimento de que o conhecimento também (e principalmente) é produzido fora dela , nas práticas cotidianas, nas formas de organização coletiva, nas experiências de luta. O que se propõe, portanto, é uma relação horizontal, em que universidade e povo constroem juntos respostas para problemas comuns.
Mas não se trata “só” sobre uma mudança de postura; é uma mudança de direção! A extensão popular exige que as demandas concretas das classes trabalhadoras deixem de ser periféricas e passem a orientar o conjunto da atividade universitária. Isso significa que a pesquisa não pode continuar sendo guiada majoritariamente por interesses de mercado ou por agendas distantes da realidade do povo, assim como o ensino não pode se limitar a reprodução de conteúdos descolados da vida concreta. A extensão, nesse sentido, torna-se o elo que reorganiza o tripé, não como complemento, mas como ponto de partida.
É nesse terreno que experiências concretas ganham relevância, quando estudantes se organizam em cursinhos populares, quando núcleos de assessoria jurídica atuam junto a comunidades em luta por moradia, quando projetos de saúde se inserem em territórios periféricos ou quando iniciativas de comunicação popular disputam narrativas com os grandes meios, não estamos diante de ações isoladas, quando na prática fortalecem e constróem o Poder Popular nas suas áreas de atuação. São práticas que materializam uma outra concepção de universidade, na qual o conhecimento não é mercadoria nem privilégio, mas instrumento de intervenção na realidade. Ao mesmo tempo, a extensão popular carrega um potencial formativo que ultrapassa os limites da sala de aula, ao inserir estudantes em processos reais, ela tensiona a formação tecnicista e estimula uma compreensão mais ampla das contradições do capital. Não se trata apenas de “aplicar” conhecimentos, mas de transformá-los a partir do contato com a realidade. Esse movimento, por sua vez, também impacta os próprios sujeitos coletivos envolvidos, ampliando a capacidade de organização e de leitura crítica do mundo.
A experiência da gestão de Horácio Macedo na UFRJ, ainda que situada em outro contexto histórico, ajuda a ilustrar que esse caminho é possível. Justamente ao integrar a extensão de forma orgânica as demais atividades da universidade e ao direcionar pras comunidades populares, a gestão do camarada demonstrou que a universidade pode, sim, assumir um papel ativo nas lutas populares. Mais do que isso, evidenciou que a extensão, quando orientada por um projeto político claro, é capaz de reconfigurar a própria instituição.
Entretanto, afirmar a necessidade da extensão popular hoje implica também reconhecer os obstáculos que se colocam, a pressão por produtividade, os critérios de avaliação acadêmica, a dependência de financiamento e a própria cultura universitária, muitas vezes marcada pelo elitismo, atuam como forças que dificultam essa transformação. Ainda assim, é precisamente nesse cenário que a extensão popular se afirma como necessidade histórica, e não como uma opção marginal. Em última instância, a disputa em torno da extensão é uma disputa sobre o sentido da universidade. A extensão que precisamos hoje é aquela que não se limita a administrar a crise gerada pelo capital, mas que se coloca ao lado daqueles que a enfrentam cotidianamente. É aquela que não transforma a realidade em objeto, mas que se insere nela como parte ativa. É aquela que, ao invés de reproduzir a ordem existente, contribui para tensioná-la.
Assim, falar de extensão popular hoje é falar de um projeto de universidade que se recusa a ser neutra, que assume posição e que se reorganiza a partir das necessidades do povo. Não como um gesto pontual ou uma política setorial, mas como eixo estruturante de uma outra forma de produzir conhecimento, uma forma que, ao invés de servir à acumulação, esteja comprometida com a transformação radical e com a construção de novas possibilidades históricas.
LUTAR, CRIAR
EXTENSÃO POPULAR!
Por Mava, diretor de Extensão Universitária da União Nacional dos Estudantes (UNE), e militante da União da Juventude Comunista (UJC) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Foto: Movimento por uma Universidade Popular (MUP)