Teses da UJC e do MEP para 46º CONUBES
A escola é nossa:
Ousar lutar por uma educação popular!
Conjuntura
Frente ao recrudescimento da crise capitalista e ao declínio da hegemonia norte-americana, o avanço da extrema-direita em escala global não pode ser compreendido apenas como um fenômeno isolado ou meramente cultural. Ele é expressão política da crise estrutural do capitalismo em sua fase imperialista e financeirizada. Desde Marx, sabemos que o sistema capitalista carrega contradições internas que periodicamente explodem em crises de superprodução, inflação, desemprego e dilapidação das forças produtivas. Assim, a instabilidade que dá origem às crises cíclicas do capital não é um desvio, mas parte constitutiva da lógica da acumulação — assim como o fascismo não é um mero monstro do passado, mas uma ameaça sempre presente.
Nesse cenário, a extrema-direita emerge como alternativa autoritária para a gestão da crise, fornecendo à burguesia ferramentas específicas de violência para a manutenção do capital e repressão da classe trabalhadora. Em contextos de ameaça à hegemonia burguesa, as classes dominantes, especialmente nos países dependentes, tendem a recorrer a formas de “autocracia burguesa” para preservar suas taxas de lucro e interesses estruturais. Quando os mecanismos formalmente democráticos deixam de assegurar a estabilidade e ordem social sob o controle da burguesia, intensificam-se estratégias de repressão política, violência e reorganização autoritária do Estado. A ascensão de movimentos reacionários, portanto, não representa ruptura com o sistema vigente, mas uma de suas formas de recomposição diante do agravamento de suas próprias contradições.
A crise não produz automaticamente, porém, uma consciência emancipatória. Sem auto-organização da classe e um projeto alternativo de futuro, o medo e descontentamento causados pelas crises do capital podem ser capturados pelas forças reacionárias, que oferecem respostas simplistas para mediar as contradições estruturais entre a retórica capitalista e sua prática. O crescimento da extrema-direita é, assim, sintoma de uma ordem em esgotamento e, ao mesmo tempo, tentativa de preservação dessa mesma ordem por meios autoritários. A ofensiva imperialista dos Estados Unidos (EUA) contra a América Latina e o mundo é uma expressão brutal da reorganização da burguesia estadunidense diante da crise de sua hegemonia: quando já não basta disciplinar povos por meio de sanções imposições mercadológicas, recorre-se à violência militar aberta para subordinar economias, povos e recursos estratégicos.
Cuba, símbolo histórico da resistência anti-imperialista e da luta latinoamericana por independência e autodeterminação, enfrenta hoje uma das mais brutais escaladas em mais de sete décadas de cerco norte-americano. O bloqueio criminoso e unilateral dos EUA foi intensificado em 2026 com a proibição total das importações de petróleo venezuelano que abasteciam a ilha, provocando apagões, escassez e deterioração das condições de vida do povo cubano, num ataque direto à sua autodeterminação e ao seu projeto socialista de soberania energética.
Na Venezuela, a escalada ofensiva foi tão brutal quanto: em 3 de janeiro de 2026, após meses de cerco às exportações petroleiras venezuelanas, tropas dos EUA lançaram um ataque militar contra Caracas e outras regiões do país, atingindo alvos civis e militares, e sequestrando o presidente Nicolás Maduro e a Primeira-Dama Cília Flores, levando-os para os Estados Unidos, onde enfrentam acusações forjadas por narcotráfico. O Império impôs ainda controle direto ao petróleo venezuelano, numa demonstração aberta de que a autodeterminação dos povos não tem lugar nos interesses do capital norte-americano.
O imperialismo é guerra, cerco, bloqueio e pilhagem de recursos; é ataque direto à soberania e à possibilidade de projetos de desenvolvimento autônomos. Defender a América Latina contra essa ofensiva é defender a soberania dos povos, repudiar a ingerência estrangeira e afirmar de maneira combativa que nenhum governo, nenhum país e nenhuma juventude se curva diante do capital transnacional ou de fuzis imperialistas.
Durante o período de ano eleitoral, no Brasil, fica claro que a perda do bolsonarismo em 2022 não representou, de maneira nenhuma, sua derrota no escopo político. Nesse sentido, mesmo que haja um rompimento prático com o que Bolsonaro representa, perante a prisão do golpista e de seus generais articuladores, o simbolismo e a força da extrema-direita mantém-se pungente principalmente na hegemonia criada no Legislativo nacional e estadual. Cabe citar que o Governo Lula III retroalimenta às bases reacionárias e fascistas, pois, mesmo que não apoie diretamente o núcleo da extrema-direita, o esgotamento da social democracia e da política de conciliação de classes nutre a radicalização da classe trabalhadora que, por sua vez, é cooptada por núcleos fascistas e reacionarismo aos quais servem diretamente à continuidade do sistema que provoca a opressão simbolizada por Bolsonaro.
Nesse viés, o fascismo não pode ser analisado como apenas um evento ou um fenômeno sem base material, ou simplesmente associado ao carisma de uma liderança. Bolsonaro não é o causador, mas sim um sintoma da ascensão da extrema-direita em todo o mundo e, sobretudo, da percepção geral que o Estado burguês não supre as demandas da classe trabalhadora. Não podemos normalizar o desbalanceamento político que Bolsonaro representa e muito menos nos iludir com aliados ocasionais da burguesia. Ademais, 2016 marca o início de perdas históricas como o “Novo Arcabouço Fiscal” e o “Novo Ensino Médio”, que de inovador não apresenta nada, mas aborda novos horizontes da exploração e alienação já conhecida e, indiscriminadamente, deve ser revertida pela classe trabalhadora.
Com a continuidade e o agravamento das contrarreformas após 2016 e consolidação do Novo Arcabouço Fiscal, o Governo golpista de Michel Temer e seus lacaios orquestrou o significou um grande golpe à classe trabalhadora e o desmonte das Leis Trabalhistas, da Previdência e acentuamento da terceirização bem como o corte de gastos dos setores sociais como saúde e educação impactando a estrutura, qualidade e oferta de serviços estatais. Desse modo, é evidente que a construção do neoliberalismo iniciada nos anos 90 ganha hoje sua formatação mais perversa. O ajuste fiscal intensificou-se durante a administração golpista de Michel Temer, com a aprovação da EC 95/2016 (Teto de Gastos), que impôs um congelamento dos investimentos em áreas como saúde e educação por duas décadas. Com a chegada do governo Bolsonaro, essa abordagem de cortes se intensificou, impactando principalmente a formulação de concursos, salários de professores e técnicos, políticas de assistência estudantil e manutenção estrutural das universidades.
Por sua vez, o governo atual, ao manter essa política de austeridade fiscal, atua como um administrador dos interesses da burguesia em detrimento da qualidade da educação pública. Essa diretriz foi concretizada já em 2023, no primeiro ano do governo Lula-Alckmin, quando o ministro Fernando Haddad não apenas preservou, mas intensificou a restrição dos investimentos em educação por meio da PLP 93/2023 (Novo Arcabouço Fiscal). Como resultado, iniciativas básicas como o apoio estudantil, a realização de concursos públicos e a ampliação da rede de educação pública retrocederam a níveis semelhantes aos de 2013. Ademais, os fundos destinados à educação não acompanharam a inflação, o que deteriorou ainda mais um sistema já sobrecarregado por mais de dez anos de reformas estruturais. Nesse sentido, a política de reajuste tornou-se algo naturalizado e propagado pelos setores burgueses interessados no lucro proveniente da precarização total do sistema público. Tal realidade é um dos pontos incabíveis em uma educação popular de qualidade, é necessário, portanto, promover um projeto de educação para a classe trabalhadora contra o avanço burguês.
Deve-se citar que, perante os desastres do governo golpista de Michel Temer seguido do genocida Jair Bolsonaro, o Brasil vive dos desmandos dos governos passados ao de Lula. Nesse sentido, o congelamento de investimentos públicos dos governos de Temer e Bolsonaro reverbera na política neoliberal do governo Lula que, por sua vez, por meio da política do arcabouço fiscal, limita o poder de investimento do Estado em hospitais, escolas e universidades. Paralelamente, essa medida nutre o lucro de bancos e bilionários perante o pagamento da dívida pública.
Na educação, o Novo Ensino Médio promove a precarização de disciplinas primordiais para a construção do pensamento crítico e científico, afastando a classe trabalhadora da produção de conhecimento e de uma vaga na universidade. O Brasil vive hoje um projeto da política neoliberal mundial que não foi e nem será revogado pelo governo social-democrata de Lula. A marca deixada apenas servirá para promover a conciliação de classes, como é a marca de Lula. Cabe a nós, portanto, promovermos um lado oposto ao neoliberalismo. A educação, como setor histórico de combate à extrema-direita, deve ser preservada e defendida por todos os setores da classe trabalhadora, por uma educação de qualidade e popular.
Nesse sentido, a educação é um ponto chave do campo de disputa política. As escolas se enquadram como parte do corpo do Estado controlado pelas classes dominantes, contudo, é um ambiente de produção de conhecimento e intensa vida social, onde a burguesia tem aprofundado seu ataque, com o avanço do neoliberalismo e a onda reacionária que assola o mundo. Onda essa característica recorrente em processos históricos de crise do sistema capitalista. É do interesse das classes dominantes, uma escola que mine o pensamento crítico, o contato com as ciências e as artes, uma experiência política rica e forme mão de obra barata, impedindo ou dificultando, inclusive, o acesso de estudantes das classes subalternas às universidades. As formas de fazer isso são as mais variadas possíveis, como a falta de investimento na educação pública, as mudanças de currículo focados em lógicas neoliberais, a abertura ao capital privado e o ataque à classe docente, em especial os professores das áreas de humanas.
Por outro lado, a privatização é uma face do avanço desse processo de sucateamento de educação pública que muitas vezes passa despercebido, pois se por um lado temos “parcerias” público-privadas efetivadas, como é o caso terceirizações e até gestões privadas em escola públicas, temos por outro lado a privatização do currículo, não menos nociva que os casos anteriores e servindo ao mesmo propósito, exemplos disso são as apostilas e plataformas digitais de grandes grupos empresariais que engessam o currículo e destroem a autonomia dos professores. Temos ainda nos formativos itinerários, com a reforma do Novo Ensino Médio, uma abertura maior para grupos privados injetarem seus interesse na educação da classe trabalhadora.
As escolas cívico-militares são a outra face desse projeto de sucateamento à medida que essas escolas, mais do que as escolas públicas comuns, operam na lógica da eficiência e padronização, atrapalhando o estímulo ao pensamento crítico. Além disso há uma transferência de recursos de gestão, recursos esses que passam para as mãos dos militares que por sua vez terceirizam serviços de apoio. É um modelo que vem sendo estimulado e ganhado mais verbas. Tudo em prol de um sistema de ensino construído a partir de um discurso de obediência, ordem e disciplina. Além disso, nunca foram uma política pedagógica neutra, longe disso: sempre foram um instrumento de controle ideológico a serviço de um projeto autoritário de sociedade. Inclusive, muito impulsionadas no governo de Jair Bolsonaro e ainda mantidas, elas expressam a naturalização da militarização como resposta à crise social produzida pelo próprio capitalismo dependente brasileiro.
Sob o discurso da “ordem”, transfere-se para a escola a lógica do quartel: hierarquia rígida, padronização comportamental e repressão à organização estudantil. Não se enfrentam os verdadeiros problemas: subfinanciamento, precarização docente, desigualdade social, mas se impõe controle sobre a juventude, sobretudo negra e periférica. A escola, no geral, hoje, já oferece pouca abertura ao desenvolvimento do pensamento crítico. Nas instituições militarizadas essa limitação se abrange imensamente. Desta forma evidencia-se que nada mais são que aparelhos de contenção social, que priorizam a falsa disciplina e sobretudo a conformidade em vez de consciência e emancipação.
A militarização cumpre função estratégica em uma lógica fascista e violenta: formar sujeitos obedientes, adaptados à precarização e avessos ao conflito político. Em vez de emancipação, controle; em vez de consciência, submissão. Combater as escolas cívico-militares é defender a educação pública como trincheira de organização popular e formação de consciência de classe. A juventude não precisa de farda, precisa de direitos, investimento e liberdade para lutar.
Paralelo a isso, o modelo de currículo do Novo Ensino Médio traz, disfarçado de flexibilização, liberdade de escolha e uma visão empreendedora, na verdade um aprofundamento da visão neoliberal dentro das escolas. Os itinerários formativos são colocados como uma escolha de caminho, mas na prática retira do estudante a formação básica integral, para que ele se constitua enquanto cidadão crítico e com acessos às oportunidades de vida, dentre elas a universidade pública. Há ainda, um foco na construção de uma mentalidade “resiliente” ao sofrimento, disfarçado em competências socioemocionais, que na verdade, nesse caso e da maneira como vem sendo feita, não passa de um adestramento de trabalhadores que aguentam calados os abusos da classe dominante.
Educação
A educação é um campo estratégico de disputa política e ideológica – a escola não é e nunca foi neutra. Assim como a arte, a ciência, a filosofia, historiografia, e a mídia, a educação reflete a correlação de forças entre a classe dominante e oprimida da sociedade. No caso da sociedade capitalista brasileira, entre a classe burguesa – dos banqueiros, rentistas, magnatas, fazendeiros, empresários religiosos — e a classe proletária; aquela dos estivadores, ferroviários, petroleiros, siderúrgicos, lavradores, e também dos arquitetos, químicos, físicos, biólogos, professores, operários da cultura, etc. A escola burguesa sempre, em primeira instância, serve para atender as necessidades da produção capitalista, virtuando seus modelos de apropriação da riqueza social, ao mesmo tempo que suprime e deslegitima os conhecimentos da classe trabalhadora, além das tecnologias ancestrais dos povos originários. Dessa forma, disputar o modelo educacional da nação é imprescindível na construção do Poder Popular; o governo da classe proletária e dos trabalhadores.
A educação ocupa um lugar central na disputa entre as classes, pois é por meio dela que se formam valores, visões de mundo e capacidades críticas ou sua negação. Nesse sentido, a escola, longe de ser neutra, torna-se um espaço de instrumentalização política, especialmente em períodos eleitorais, quando governos e setores dominantes buscam utilizá-la como meio de legitimação de seus projetos. Isso pode se expressar tanto na imposição de determinadas narrativas e conteúdos quanto no uso indireto da estrutura escolar para reforçar consensos, despolitizar a juventude ou direcionar sua participação de forma controlada.
Na perspectiva da Escola Popular, reconhecer esse caráter político da educação é fundamental para disputar ativamente esse espaço. Não se trata de negar a política na escola, mas de afirmar uma prática pedagógica comprometida com a formação crítica, com a autonomia dos estudantes e com a capacidade da juventude de compreender e intervir na realidade. A escola deve ser um espaço de politização consciente e emancipadora, e não de manipulação ou reprodução passiva dos interesses dominantes.
O modelo ora militarizado, ora neoliberal que ganhou força após a vitória da extrema-direita no pleito presidencial de 2018, perpetuou-se e saiu fortalecido mesmo após as eleições de 2022. Apesar do revanched o PT no tocante a corrida presidencial, em dezenas de estados e outras circunscrições eleitorais, foram eleitos governadores, senadores, deputados e vereadores — tanto de direita quando de centro-esquerda – favoráveis a privatização da vida escolar, a implantação de currículos neoliberais, e a militarização das escolas.
Ao falarmos da continuidade do assalto da burguesia contra a educação brasileira, reluz a manutenção do Novo Ensino Médio (NEM) mesmo após a vitória eleitoral do lulismo na presidência. A permanência dessa política estatal é parte central dos ataques à juventude trabalhadora, impedindo esses jovens de possuírem uma boa base para presentar o vestibular e dificultando o acesso à universidade. Consequentemente, esses jovens são relegados ao desemprego, à informalidade, e à precarização da vida.
Nesse sentido, enxergamos como principal marcador do caráter tecnicista e neoliberal do NEM o esvaziamento curricular e de carga horária das disciplinas científicas e artísticas. O estudo aprofundado e politécnico da química, física, e biologia, substituídos por aulas de empreendedorismo com pouco valor qualitativo, ou pior, como espaços de difusão de ideologia neoliberal. A criação de arte ou a prática esportiva é quase completamente interdita, obrigando os alunos a procurarem cursos particulares fora da escola. Quando são ofertadas disciplinas profissionalizantes/técnicas, essas buscam transmitir apenas a repetição mecânica da técnica, sem apresentar as partes constituintes do objeto de estudo como um todo, possibilitando a inovação. Em suma, a produção científica e criação artística pela e para a classe trabalhadora são impossibilitados.
A partir do momento que os alunos não são fornecidos o conhecimento de todas as técnicas pelo qual o homem exerce sua maestria sobre a natureza, são incapazes de intervir criticamente no mundo, e de transformar sua realidade social, tornando-se mais uma vez engrenagens voltadas para a sustentação do sistema capitalista. A formação proposta pelo neoliberalismo destina-se unicamente ao trabalho precarizado, seja através do empreendedorismo nas escolas, ou do tecnicismo, educação essa que não possui outro objetivo do que criar uma geração de autônomos “microempreendedores”, trabalhadores de aplicativo, ou operários manuais que mal sabem explicar sobre as técnicas que estão utilizando. Não precisamos de uma educação voltada à manutenção do capitalismo, precisamos de uma educação voltada à sua derrocada!
Dessa forma, nossa bandeira mais imediata deve ser a REVOGAÇÃO TOTAL E IMEDIATA do Novo Ensino Médio, enquanto modelo de educação neoliberal, tecnicista, que reforça a mercantilização da vida e a privatização da vida escolar. Nós, estudantes e trabalhadores, precisamos lutar desde já para avançarmos na conquista da educação que queremos, que só será alcançada numa sociedade completamente radical: construindo o socialismo para alcançar o projeto da Escola Popular!
O esvaziamento curricular e a privatização da educação são processos articulados que expressam a ofensiva do capital sobre a escola pública. Ao reduzir o acesso ao conhecimento científico, filosófico e artístico e substituí-lo por conteúdos fragmentados e utilitaristas, cria-se o terreno para a entrada de fundações empresariais, plataformas digitais e modelos terceirizados de gestão. Esses agentes não apenas capturam recursos públicos, mas também passam a orientar o conteúdo e a forma da educação, adequando-a às necessidades do mercado de trabalho precarizado. A escola deixa de cumprir uma função formativa ampla e passa a operar como espaço de adaptação da juventude às exigências do capital.
Na perspectiva da Escola Popular, enfrentar esse processo exige a defesa do caráter público e estatal da educação em todos os seus níveis, assim como a centralidade do conhecimento crítico e universal no currículo. Não se trata apenas de barrar privatizações formais, mas de disputar o projeto pedagógico, recolocando a formação integral da classe trabalhadora como eixo estruturante.
As condições materiais de estudo são parte constitutiva do próprio processo educativo. Para a juventude da classe trabalhadora, a ausência de alimentação adequada, transporte gratuito, climatização e infraestrutura digna não é exceção, mas regra. Essas condições impactam diretamente a capacidade de aprendizagem, permanência e desenvolvimento dos estudantes, funcionando como mecanismos silenciosos de exclusão escolar. A precariedade material não é um desvio, mas um elemento funcional à reprodução das desigualdades sociais.
Por isso, a luta pela Escola Popular deve incorporar de forma central a defesa de políticas de permanência estudantil. Garantir alimentação de qualidade, transporte, acesso a materiais e estrutura adequada não é apenas melhorar a escola existente, mas criar as bases concretas para que o direito à educação seja efetivamente universalizado e apropriado pela classe trabalhadora.
A militarização das escolas e a expansão do modelo cívico-militar expressam uma estratégia de controle ideológico e social sobre a juventude. Ao impor disciplina rígida, hierarquia e obediência, esse modelo busca suprimir a autonomia estudantil e neutralizar qualquer potencial crítico no interior da escola. A presença de agentes militares e a imposição de normas autoritárias transformam o ambiente escolar em um espaço de repressão, onde o conflito e a organização política são tratados como desvios.
Esse modelo reproduz, no interior da escola, as mesmas formas de controle que incidem sobre os territórios da classe trabalhadora, especialmente nas periferias. Em oposição, a Escola Popular defende a radicalização da democracia escolar, com participação ativa de estudantes e trabalhadores, organização livre e construção coletiva do processo educativo, entendendo que não há formação emancipadora sem liberdade e participação.
A expansão dos Institutos Federais representa uma conquista importante ao ampliar o acesso à educação técnica e científica para a classe trabalhadora, especialmente em regiões historicamente marginalizadas. No entanto, quando essa expansão ocorre sem a devida ampliação de orçamento, infraestrutura e assistência estudantil, ela se dá de forma contraditória e limitada. A abertura de novos campi sem condições adequadas implica precarização do trabalho docente, insuficiência de recursos e dificuldades de permanência para os estudantes.
Isso revela os limites estruturais da política educacional dentro da ordem vigente. A ampliação do acesso não vem acompanhada da garantia plena das condições necessárias para sua efetivação, o que exige que a luta pela expansão dos IFs esteja necessariamente articulada à defesa de financiamento adequado e políticas robustas de permanência estudantil.
Os limites dessa expansão estão diretamente relacionados às restrições impostas pelo orçamento público, especialmente no contexto da LOA 2026. A política fiscal vigente impõe contenções ao investimento social, fazendo com que a educação dispute recursos dentro de um cenário de escassez programada. Mesmo quando há previsão de expansão, ela ocorre frequentemente sem a garantia de financiamento suficiente para sustentar a qualidade e a permanência.
Além disso, o condicionamento de investimentos educacionais a programas como o PAC subordina a educação a uma lógica de desenvolvimento econômico que prioriza resultados imediatos e interesses do capital. Nesse cenário, a luta pela Escola Popular exige não apenas reivindicações pontuais, mas a disputa do fundo público e o enfrentamento das amarras fiscais, afirmando a educação como direito central da classe trabalhadora e condição para a transformação social.
Basta de criminalização das greves e desvalorização dos docentes! O direito à greve é uma conquista histórica da classe trabalhadora, tendo sido garantida na Constituição Federal de 1988. Sendo um importante instrumento político na luta pela garantia de melhorias à classe organizada. No entanto, na prática, quando os professores decidem se organizar, acabam sofrendo diversas tentativas de deslegitimação e desarticulação desse movimento. Governos tentam acusar as categorias docentes articuladas como “prejudiciais aos alunos”, quando, na verdade, as greves surgem justamente no sentido contrário, reivindicando melhores condições de trabalho, de ensino e de estrutura dentro das instituições de ensino. As práticas de criminalização das greves acontecem através de diferentes formas: com cortes de salários durante as paralisações, decisões judiciais que declaram as greves como abusivas e/ou ameaças administrativas.
Os motes das greves docentes são muitos e não faltam motivos para tal, mas grande parte esbarra na desvalorização docente. Os professores têm que cumprir jornadas de trabalho exaustivas, com acúmulo de funções — que por muitas vezes não os cabem —, baixos salários e falta de infraestrutura adequada para o exercício de seus trabalhos.
Defesa de um verdadeiro projeto de educação do povo: a Escola Popular. O Movimento por uma Escola Popular (MEP) e a União da Juventude Comunista (UJC) defendem um projeto de educação completamente antagônico ao protótipo neoliberal para a educação brasileira. Sua construção é impossível dentro do capitalismo. Num sistema baseada na exploração do homem pelo homem, o acesso à escola e à educação será sempre desigual, onde os filhos dos mais ricos terão uma escola de qualidade, enquanto os filhos dos mais pobres terão acesso à uma escola precarizada, de baixa qualidade com um ensino que os preparem a ser mão de obra barata e pouco qualificada. Compreendemos que para uma nação conseguir avançar em seu desenvolvimento e construir a Soberania Popular, deve-se consolidar uma Educação que seja feita pela e para a classe trabalhadora, longe das margens do capital: a ESCOLA POPULAR!
A Escola Popular — como parte integra da construção da sociedade socialista — será necessariamente pública, estatal, integral, politécnica e radicalmente democrática. Precisamos de uma escola pública de qualidade, plenamente financiada pelo Estado, radicalmente democrática e com ampla participação da comunidade, garantindo, assim, a universalização do conhecimento socialmente produzido e a formação politécnica de seus estudantes. Uma escola de acesso realmente Universal, sem entrada através de vestibulares e processos seletivos elitistas que impedem o acesso dos filhos da classe trabalhadora às escolas e às Universidades.
Em oposição direta à lógica autoritária e hierarquizante das escolas cívico-militares, a autonomia dos grêmios estudantis constitui um princípio fundamental da democracia escolar e um elemento central na construção da Escola Popular. Os grêmios não são apenas instâncias representativas formais, mas espaços de organização política da juventude trabalhadora, onde se desenvolvem experiências concretas de participação e elaboração coletiva. É por meio deles que os estudantes podem intervir nos rumos da escola, disputar o projeto pedagógico e construir lutas que ultrapassam os muros escolares.
Nesse sentido, fortalecer os grêmios é fortalecer o próprio movimento estudantil secundarista como sujeito político. A Escola Popular exige a existência de organizações estudantis livres, independentes e enraizadas na base, capazes de articular as demandas imediatas com um horizonte estratégico mais amplo de transformação social.
As violências dirigidas aos grêmios estudantis fazem parte de uma estratégia de controle e desmobilização da juventude. A intromissão das diretorias escolares, por meio da tutela sobre eleições, pautas e funcionamento, busca esvaziar a autonomia dessas organizações. Ao mesmo tempo, a burocratização excessiva impõe barreiras formais que dificultam a organização estudantil, transformando o direito de organização em um processo restrito e controlado.
Além disso, não são incomuns perseguições políticas a estudantes organizados, que vão desde punições disciplinares até tentativas de deslegitimação e isolamento. Essas práticas revelam o temor diante da capacidade de organização da juventude. Por isso, a luta pela Escola Popular passa necessariamente pela defesa intransigente da autonomia dos grêmios, pela denúncia das violências e pela construção de uma cultura política que reconheça a organização estudantil como parte essencial da vida democrática escolar.
Movimento Estudantil
A UBES é uma entidade que encampou ativa e incisivamente diversas mobilizações e mudanças político-sociais do Brasil. A entidade cumpriu importantíssimo papel na luta por direitos dos estudantes atrelada à luta por soberania nacional, com direcionamento político que fortalecia um movimento estudantil combativo, profundamente conectado às demandas secundaristas nas bases e que andava de mãos dadas com as lutas da classe trabalhadora no país. Foi organizando greves gerais já na década de 1950, impulsionada pela luta contra as taxas escolares, nas diversas mobilizações por acesso ao transporte público e na luta ativa que a UBES foi construindo uma capilaridade a nível nacional, acompanhando a fundação de diversas entidades estudantis no país no começo dos anos 1960; na resistência à ditadura empresarial-militar, na luta contra a perseguição e em campanhas cruciais como “O Petróleo É Nosso” e nas “Diretas já”, para além da conquista da Lei do Grêmio Livre no período da redemocratização. O movimento estudantil secundarista se aglutinou em todo o período da história pela defesa da classe trabalhadora brasileira.
Entretanto, desde os anos 2000, observamos um giro de direção da UBES para os caminhos da conciliação com os setores da burguesia e com os grandes tubarões da educação, que pretendem desmontar o ensino básico público e entregá-lo nas mãos de banqueiros e empresários. O legado revolucionário e combativo da UBES hoje fica apagado devido à condução das forças da social-democracia, que promovem um aparelhamento de cima para baixo, afastando-se da radicalidade histórica do movimento estudantil secundarista e traçando cada vez mais gestões burocráticas, focadas na representação institucional.
Atualmente vemos uma UBES que não promove políticas nem planejamentos concretos para garantir sua presença nas escolas brasileiras, de tal modo que muitos estudantes não sabem o que é essa entidade, qual deveria ser sua linha política e muito menos que ela os representa. Esse afastamento das bases configura na prática uma desmobilização do movimento estudantil secundarista e resulta na crescente despolitização da juventude e no abandono de pautas importantes, como a luta pela revogação total do Novo Ensino Médio, esquecida pela UBES, e a reivindicação das políticas de permanência estudantil.
Sabendo dessas problemáticas, defendemos uma UBES efetivamente presente nas instituições de ensino de todo o Brasil, que dialogue democraticamente com os alunos, promova espaços para formação política no ensino básico e organize a luta secundarista, não apenas cartilhas digitais e congressos nacionais — os quais apenas criam a falsa sensação de participação e mobilização da entidade, com debates rasos e eleições forjadas. Somente através da reaproximação da UBES com as bases podemos reconstruir o movimento estudantil secundarista brasileiro, por meio de um plano nacional para criação e fortalecimento de grêmios livres e independentes, além de outras entidades estudantis estaduais e regionais, pois entendemos que são essas organizações que podem estabelecer o tom de resistência dentro das escolas, representar e defender os interesses de todos os estudantes.
Para além, a UJC e o MEP também reconhecem na entidade sua capacidade organizativa e integradora das lutas estudantis com as pautas da classe trabalhadora, a exemplo do Plebiscito Popular 2025 que teve ampla participação dos estudantes impulsionados pela UBES. Entendendo que a lógica neoliberal implementada nas salas de aula prepara a juventude de hoje para ser os trabalhadores de amanhã nas mesmas linhas contraditórias, é importante que os secundaristas também estejam na linha de frente das mobilizações pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, pelo fim da escala 61 e contra a Reforma Administrativa, construindo um futuro nos moldes dos interesses de toda a classe trabalhadora!
E é justamente visando uma UBES diferente, mais verdadeiramente próxima das pautas estudantis, que a União da Juventude Comunista (UJC) e o Movimento Por Uma Escola Popular (MEP) disputam espaço no congresso, para que as escolas sejam nossas e a entidade de máxima representação secundarista do país esteja lá para participar dessa construção!
A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) precisa urgentemente de uma direção que esteja comprometida em atender as necessidades de luta da juventude dentro das escolas e isso só é possível por meio de uma gestão combativa e independente, uma gestão que defenda o ensino básico sem atender aos caprichos dos tubarões da educação nem abaixar a cabeça para o Governo Federal. Precisamos de uma UBES disposta a reorganizar o Movimento Estudantil Secundarista de forma alinhada às pautas da classe trabalhadora!
E nossa luta não acaba aí, visamos também um horizonte em que a juventude organizada, através da retomada de uma linha revolucionária na direção da UBES, seja agente transformador, atuando com políticas e projetos nacionais que realmente modifiquem nossa sociedade rumo ao socialismo.
Movimento por uma Escola Popular (MEP)
União da Juventude Comunista (UJC)
18 de abril de 2026