A ascensão do velho e o recuo do novo: que faz a juventude?
O cenário internacional
A cada dia, a crise do império estadunidense torna-se mais óbvia, inclusive para seus defensores. Seus primeiros sinais, surgidos ainda na década de 1970, foram abafados pelos booms decorrentes da ascensão hegemônica do neoliberalismo e do fim do Bloco do Leste — eventos que garantiram ao capital o acesso a novos mercados e recursos, conferindo uma sobrevida aos Estados Unidos da América (EUA) como a última superpotência do século XX.
Desde 2008, porém, o declínio da hegemonia ianque tem se acelerado. À semelhança da China Imperial em seus últimos dias, os EUA enfrentam hoje uma crise generalizada, a qual suas elites capitalistas insistem em compartimentar para manter a fachada de normalidade. Para eles, a crise da moradia nada teria a ver com a “crise do custo de vida”, que, por sua vez, não teria relação com a crise do dólar, com a dívida externa, com o declínio demográfico, com a derrota militar no Afeganistão ou com a epidemia de opioides!
Assim, a cada dia, a globalidade do cataclisma torna-se mais aparente. Porém, a obviedade do momento não significa, de forma alguma, o fim imediato dos EUA ou do imperialismo. Desafiados pela ascensão de novas potências mundiais, pelo peso de uma economia especulativa e improdutiva, por uma dívida externa gigantesca e pelo abandono gradual do dólar como moeda franca mundial, o que resta às elites ianques é um recuo tático.
A crise atingiu o centro do império, e suas classes dominantes — que respaldam hoje o governo de Donald Trump — movem-se para garantir um lugar de destaque em uma nova ordem multipolar. Diante de nossos olhos, o mundo está sendo redividido entre as potências, para regozijo de suas elites monopolistas. O que assistimos hoje, com os ataques criminosos contra Cuba, Irã e Venezuela, é um desdobramento direto desse fato.
Por isso mesmo, o ano de 2026 iniciou-se de forma violenta, com diversos ataques dos Estados Unidos a países soberanos nos quais sua influência econômica ainda não havia chegado. Desde 2023, porém, a escalada genocida de Israel em sua colonização da Palestina já preparava o terreno para esse cenário. Dezenas de milhares de vidas foram ceifadas pelo regime sionista — a grande maioria de jovens palestinos na Faixa de Gaza —, além de uma guerra constante contra os países do Oriente Médio ainda não submetidos ao controle completo dos EUA.
A escala e a violência desse genocídio levaram a uma intensa mobilização popular mundial pela intervenção de organismos e alianças internacionais em defesa do povo palestino. Contudo, ao longo de três anos de massacre, Israel e EUA agiram com impunidade, preparando o terreno para uma nova fase de agressões imperialistas, na qual os públicos internos das potências ocidentais já se encontram dessensibilizados diante da morte. Paralelamente, espalharam-se narrativas que visam amenizar a rejeição generalizada aos agressores. Diferente de outros períodos, especialmente quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) representava um contraponto ao colonialismo e ao imperialismo do chamado “Ocidente”, hoje não há um contrapeso semelhante. Mesmo a Rússia e, principalmente, a China — que se desenham como as novas potências de uma “ordem multipolar” — não possuem, até o momento, condições ou vontade política para atuar de forma enfática e definitiva contra as agressões estadunidenses e israelenses.
Se nos anos 1980 a crise capitalista encontrou sua saída em uma forte reestruturação produtiva, conjugada com a rapina do território ex-soviético, hoje a acumulação capitalista aproxima-se cada vez mais de sua fronteira final. As crises nos centros históricos do imperialismo — EUA e Europa — acumulam-se diariamente, incitando as classes dominantes do monopólio financeiro e as gigantes da tecnologia a apoiar novos projetos fascistas de governo. Tais projetos prometem o controle interno por meio da repressão e a manutenção do capital por meio da expansão de mercados, ainda que à força.
O conflito que vivenciamos hoje não é composto por guerras isoladas, mas por uma nova fase da expansão imperialista. Nela, a guerra constante relaciona-se tanto à competição pela redivisão do mundo — seus mercados, recursos e força de trabalho — quanto à necessidade de um império em decadência de responder às exigências de uma economia improdutiva, dependente de seu complexo militar-industrial.
Assim se desenha o atual cenário dos conflitos que testemunhamos hoje. Ao quadro de guerra constante, genocídio e ocupação colonial no Oriente Médio — que abrange desde a Palestina, Líbano e Síria até o Irã, Iraque e Iêmen, e é referendado por elites econômicas árabes beneficiárias de uma aliança fratricida com os EUA —, soma-se a investida colonial contra a América Latina.
É fundamental compreender que, embora o controle sobre o petróleo venezuelano ou as terras groenlandesas seja essencial para os Estados Unidos — afinal, sua dívida externa de 38 trilhões de dólares exige uma expansão produtiva imediata —, essa não é a motivação única ou principal da agressão atual. Está claro, inclusive pela honestidade falastrona dos dirigentes deste novo processo de fascistização acelerada nos EUA, que o objetivo final é o monopólio ianque sobre todos os recursos, o trabalho e o território latino-americano. Trata-se da realização de uma visão histórica do supremacismo estadunidense, que concebe nosso continente como um campo para pilhagem e exploração. Assim como nas eras mais brutais da Doutrina Monroe, as máscaras sequer chegam a cair, pois nunca foram colocadas: a recolonização do continente é um projeto aberto e motivo de orgulho nacionalista para uma parcela significativa das massas socializadas no liberalismo supremacista estadunidense.
O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores, bem como o bloqueio completo e genocida à entrada de recursos energéticos em Cuba, baseiam-se em construções ideológicas do liberalismo estadunidense que precedem o fascismo trumpista. Seu “americanismo” é uma releitura dos velhos “WASPs” — um masculinismo supremacista “Branco, Anglo-Saxão e Protestante” (White, Anglo-Saxon and Protestant) que definiu a sociedade estadunidense desde a sua fundação.
Nem mesmo as justificativas ideológicas para o domínio da América Latina mudaram: a própria insistência no “direito divino” dos EUA ao Novo Mundo ecoa a religião civil do Destino Manifesto, criada originalmente para justificar a conquista e o extermínio dos povos indígenas da América do Norte e, mais tarde, a expansão agressiva contra o México, Flórida, Cuba, Porto Rico e outras colônias.
A “Guerra às Drogas”, criada no âmbito interno dos Estados Unidos para justificar a manutenção velada da segregação e da hierarquia racial nos anos 1970, tornou-se uma ferramenta imperialista no momento em que passou a ser utilizada para validar décadas de agressões e intervenções por todo o nosso continente — com destaque para o cinquentenário conflito nas selvas colombianas.
Junta-se a ela a “Guerra ao Terror”, ferramenta retórica que substituiu a Guerra Fria como o pilar de sustentação do chamado “Complexo Industrial-Militar” estadunidense, além da criminalização e da subsequente deportação em massa de populações latino-americanas. Nasce, assim, a retórica da América Latina como um grande entreposto do “narcoterrorismo”, justificando intervenções e a presença de bases militares em países como Colômbia, Equador, Cuba (Guantánamo), Honduras e El Salvador. Mais recentemente, bases foram instaladas na fronteira brasileira com o Paraguai, onde militares estadunidenses gozam, inclusive, de isenção quanto ao cumprimento das leis do país vizinho.
Nesse cenário, em que a América Latina é mantida como refém dos interesses do império estadunidense, a solidariedade retórica presente nos discursos de nossas lideranças não se traduz em ações concretas. A união de nossos povos é a única forma de blindar o continente contra as agressões constantes vindas do Norte — um caso ainda mais grave quando se trata de Cuba. Por quase setenta anos de sanções e agressões criminosas, incluindo o patrocínio de grupos terroristas baseados na Flórida, os Estados Unidos têm tentado destruir a Revolução Cubana. Com o fim das experiências socialistas no Leste Europeu e, principalmente, da União Soviética, esse cerco econômico foi agravado por um bloqueio assassino, que resultou na dura crise do “Período Especial” nos anos 1990.
Tendo se reinventado para o século XXI, e com apoio vital da Venezuela de Hugo Chávez, o povo cubano e seu sistema socialista voltaram ao centro das agressões imperiais com o primeiro governo de Donald Trump — responsável por mais de 240 novas sanções em plena pandemia de COVID-19, visando ao colapso do sistema de saúde e da rede energética cubana. Desde 2021, a ilha sofre com constantes apagões e desabastecimento de medicamentos, causados por um bloqueio unilateral desaprovado anualmente por quase todos os países-membros da Assembleia Geral das Nações Unidas, com exceção de EUA e Israel.
Agora, com o cerco militar a Cuba e ao Mar do Caribe, imposto pela marinha dos Estados Unidos, combustíveis essenciais para a sobrevivência do povo não mais chegam à ilha. A situação geral é de calamidade pública e evidencia a incapacidade dos governos latino-americanos de se mobilizarem na defesa e no auxílio a um povo que, em quase setenta anos de história revolucionária, nunca nos faltou com solidariedade.
Além disso, torna-se clara a utilização da máquina de guerra como uma cortina de fumaça para as revelações do caso Epstein. Membros da alta elite financeira dos EUA, implicados no tráfico e no abuso de milhares de crianças e adolescentes ao longo de décadas — entre eles, o próprio Donald Trump —, arrastam sem remorso seu país para guerras incessantes. Ao assassinar milhares de pessoas ao redor do globo e enviar sua própria população para o abate no Oriente Médio, buscam desviar, ainda que temporariamente, as atenções dos escândalos em que estão envolvidos.
Por outro lado, as motivações econômicas da guerra não residem apenas no controle de mercados e na queima do excedente produtivo, mas, cada vez mais, no domínio de recursos e pontos estratégicos para a economia global. Com uma simples ordem de Teerã, os preços do petróleo disparam e uma das principais rotas do comércio internacional, o Estreito de Ormuz, é paralisada. É o controle sobre esse tipo de recurso e infraestrutura que interessa aos EUA — a exemplo do petróleo venezuelano, do Canal do Panamá e, em nosso contexto, das terras raras e do petróleo brasileiro.
Em décadas de hegemonia do neoliberalismo, marcadas por privatizações e desmontes estruturais, destaca-se a forma como o Estado brasileiro rompeu com o monopólio estatal de seu petróleo e minérios, tornando a Petrobras e outras estatais estratégicas alvos prioritários de sucateamento. As mineradoras que operam no Brasil são hoje, em sua maioria, controladas pelo capital estrangeiro e encontram-se livres para explorar nosso território e nossa população, sem o devido compromisso com direitos trabalhistas ou sociais.
O cenário nacional
Paralelamente a isso, Trump, em mais uma tentativa de usurpar a soberania nacional alheia, tem buscado enquadrar grupos do crime organizado não apenas no narcotráfico, mas também como terroristas. Essa tentativa de interferir direta ou indiretamente nos países da América Latina tem sido seu modus operandi desde sua primeira eleição, em 2016. No entanto, com seu retorno à presidência dos EUA e diante da crise cíclica do capitalismo, tal postura tornou-se mais ostensiva.
Essas movimentações configuram um aceno do mandatário estadunidense visando ao alinhamento com a direita brasileira. Essas atitudes vêm se desenhando desde a guinada do bolsonarismo ao poder em 2018, culminando na ação direta de 8 de janeiro de 2023 — o ataque ao Palácio do Planalto e às liberdades democráticas no Brasil —, que contou com o apoio escuso de empresários locais e o aval do imperialismo estadunidense. O crescimento do apoio popular a partidos e organizações de extrema-direita é um reflexo direto desse cenário.
Em nosso país, observamos há anos as tentativas da direita golpista de destruir o que resta das liberdades democráticas e das conquistas da classe trabalhadora obtidas desde a Constituição de 1988. Vimos Bolsonaro deslegitimar os resultados do pleito que ele mesmo venceu, alegando fraude nas urnas eletrônicas. Testemunhamos a desastrosa tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e, agora, vemos a recorrente solicitação da extrema-direita para que os EUA classifiquem organizações do narcotráfico como terroristas, o que abriria portas para ações militares diretas em território brasileiro.
Figuras como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira têm ecoado esse chamado há meses. Inclusive, instrumentalizaram a chacina ocorrida sob o governo de Cláudio Castro para tentar fabricar justificativas para uma intervenção estrangeira. Tudo isso é acompanhado por discursos alucinados de que o Brasil viveria uma “ditadura” que “persegue opositores de direita” — uma clara distorção do cenário nacional. Na realidade, vivemos uma democracia restrita que beneficia sistematicamente a burguesia e os ricos, enquanto criminaliza movimentos sociais organizados, como o dos trabalhadores sem-terra, por exemplo.
Paralelamente, observamos uma mudança qualitativa na conjuntura nacional com a fundação do partido Missão. Composto por figuras centrais da extrema-direita egressas do Movimento Brasil Livre (MBL), presenciamos a organização de uma legenda de claro caráter fascista. Até então, tais elementos e seus agitadores aglutinavam-se em partidos mais amplos da direita tradicional, como o Partido Liberal (PL), frequentemente associado a grandes escândalos de corrupção.
Essas organizações ecoam o discurso da extrema-direita global contra as minorias, buscando responsabilizar as conquistas históricas de grupos — especialmente negros, indígenas, pessoas transgênero e imigrantes — pela difícil situação da classe trabalhadora, marcada pela precarização e insegurança. Somado a isso, a falsa solução para a criminalidade no Brasil, baseada no encarceramento em massa e em chacinas policiais, é exaltada como uma postura “corajosa” contra os “direitos humanos” que supostamente defenderiam criminosos. O que se omite é que essa tática bárbara de combate à violência não apenas falha em resolver o problema, como o agrava, fomentando a organização do crime dentro das prisões e aterrorizando a vida de inocentes em operações policiais letais e descontroladas.
Se à direita o cenário é de transformação qualitativa em sua organização, à esquerda observa-se um esgotamento progressivo da política de conciliação de classes. O Partido dos Trabalhadores (PT), apesar de ter favorecido fortemente os setores do agronegócio e do rentismo por meio de seu governo de “União Nacional” — garantindo-lhes lucros recordes via sucessivas altas na taxa de juros e robustos Planos Safra –, já enfrenta a oposição declarada desses mesmos grupos. Em suma, o PT destinou bilhões de reais do orçamento público para fortalecer economicamente o capital financeiro e o agronegócio, mas, às vésperas do período eleitoral, esses setores sinalizam que tais concessões não foram suficientes e articulam-se para impedir uma nova recondução de Lula ao governo.
Além disso, apesar da conjuntura econômica favorável à classe trabalhadora — com salário médio crescente e baixos índices de desemprego —, a popularidade do governo continua em queda, sinalizando que as melhorias nas condições de vida da população têm sido insuficientes. Isso evidencia o agravamento da crise do capital: mesmo tentando “beneficiar a todos” e “conciliar interesses” de classes antagônicas, o Estado consegue alocar recursos limitados para cada lado, não gerando a bonança desejada por nenhum. O resultado é o desgaste com ambos: uma oposição declarada da burguesia e uma insatisfação crescente da classe trabalhadora.
Ademais, a subida exorbitante dos preços dos combustíveis é consequência direta da sequência de privatizações na Petrobrás, processo em que o governo brasileiro extrai o petróleo bruto, enquanto as empresas privadas retêm os lucros para si. Essa situação desemboca no encarecimento de insumos básicos, como alimentação e produtos de consumo cotidiano. Tal cenário soma-se a uma política neoliberal em que não há controle do mercado interno, o qual passa a corresponder estritamente aos interesses da burguesia e do capital — cabendo aos trabalhadores, portanto, o pagamento dessa conta final.
Esse cenário, perante a população em geral e, em especial, a classe trabalhadora, agrava-se ao observarmos que as políticas do Governo Lula têm se afastado paulatinamente do “progressismo” que pautou sua eleição. Destacam-se os retrocessos em relação à população LGBTQIA+, como a manutenção da medida do governo Bolsonaro que insere o “sexo biológico” na nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) e preserva o “nome de registro” em distinção ao “nome social”.
Soma-se a isso o desmonte gradual da educação básica via não revogação integral do Novo Ensino Médio — o que consolida o sistema de “duas escolas” no país (uma voltada às elites e outra aos pobres) e desonera o Estado da obrigação de fornecer uma educação integral. A recuperação orçamentária das universidades federais mostra-se irrisória: com a abertura de dezenas de novos campi, o recurso escasso será ainda mais pulverizado, enquanto se prometem R$ 800 bilhões ao Exército, instituição de histórico reacionário e golpista, sobretudo após a ditadura de 1964.
Observa-se a precarização da educação básica por meio da fragilização e aniquilação dos vínculos trabalhistas de professores e funcionários, o que degrada as condições de vida desses trabalhadores. O cenário é marcado por um corpo docente composto majoritariamente por contratados temporários, sem garantias de vínculo empregatício estável, e por funcionários cada vez mais terceirizados, submetidos a uma alta rotatividade e a demissões em massa.
Além disso, a precariedade das estruturas escolares é reflexo direto do desinvestimento no setor: áreas de lazer são escassas ou inexistentes e as salas de aula não possuem climatização, o que interfere negativamente no processo de ensino-aprendizagem. Somado a isso, a defasagem escolar aumentou na última década, estando diretamente relacionada à reforma trabalhista e à ausência de uma política de pleno emprego. Como consequência, muitos jovens são compelidos a se ausentar do espaço escolar para complementar a renda familiar.
Assim como na educação básica, a educação superior pública também tem sido alvo de diversos ataques, sobretudo no âmbito econômico. A aprovação do Teto de Gastos e, posteriormente, do Novo Arcabouço Fiscal (Lei Complementar n.º 200/2023) configurou um cerceamento ao ensino superior público. Em contrapartida, as universidades privadas concentram hoje mais de 80% das matrículas ativas no ensino superior. Esse quadro não está dissociado das políticas de austeridade e dos cortes orçamentários: trata-se de um aval à expansão dos “tubarões da educação” e dos oligopólios educacionais (como Kroton e Anhanguera), que visam minar o fundo público para lucrar sobre a classe trabalhadora.
Na seara ambiental e indigenista, os ataques manifestam-se na exploração de petróleo na Foz do Amazonas, nas tentativas de privatização de rios em favor de monopólios, no fortalecimento do agronegócio via Plano Safra e na morosidade das demarcações de terras. Na prática, o governo não tem fortalecido o “campo progressista”, mas entregue, peça por peça, conquistas históricas ao campo reacionário. Isso demonstra que o simbolismo de sua posse foi meramente performático, e que os setores mais oprimidos pelo capital — mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência — não são a prioridade, ou, ao menos, são secundários diante dos lucros dos monopólios.
Por fim, que jamais se esqueça que, para uma parte significativa da população brasileira, o “Estado Democrático de Direito” nunca se concretizou. Nas periferias e no campo, a lei que impera é a do capital, da força e da violência armada — executada seja por milícias rurais, seja pelas Polícias Militares. Ambas atuam como o braço armado dos interesses burgueses, mantendo os sem-terra e os pequenos proprietários distantes do latifúndio e a população periférica sob um estado de terror diário. Nesses territórios, negam-se as condições básicas de vida, e qualquer ruptura da legalidade burguesa é punida com brutalidade máxima — o que não ocorre quando os suspeitos são brancos, ricos ou residentes de bairros nobres. Sob o pretexto de preservação da ordem e combate à criminalidade, a burguesia brasileira opera verdadeiras chacinas no campo e na cidade. Os mais atingidos são, invariavelmente, jovens negros, indígenas, membros de comunidades tradicionais ou trabalhadores sem-terra, configurando o que se revela como um verdadeiro Estado de exceção.
Nossas tarefas
Diante desse quadro, a União da Juventude Comunista posiciona-se contra esses retrocessos sociais e políticos. Entre suas frentes de atuação, destaca-se a construção do Movimento por uma Escola Popular (MEP), que reafirma a luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade. Para além do trabalho de base, o MEP impulsiona uma campanha nacional para a criação de grêmios estudantis em todo o Brasil, visando ao avanço da luta em defesa da escola e ao fortalecimento da juventude secundarista. O movimento não aceitará as reformas curriculares impostas pelo Novo Ensino Médio (NEM), nem o modelo de escolas cívico-militares, que submete a juventude à coerção e anula seu potencial crítico e organizativo. Nesse sentido, é urgente o fortalecimento da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), para que retome seu caráter verdadeiramente combativo e lidere as lutas nacionais por alimentação de qualidade, infraestrutura adequada e pela revogação integral do NEM.
No que concerne ao movimento estudantil universitário, a UJC coloca-se no centro de lutas importantes, pautando a autonomia universitária e o investimento no tripé ensino-pesquisa-extensão, bem como a consolidação do Movimento por uma Universidade Popular (MUP), que se propõe a colocar a universidade a serviço da classe trabalhadora. Ademais, reafirma a continuidade da construção da União Nacional dos Estudantes (UNE) como um dos maiores agentes políticos da juventude, visando a recuperar sua relevância, seu legado histórico — como a experiência da campanha “O Petróleo é Nosso”, da UNE Volante e dos Centros Populares de Cultura (CPCs) — e o combate vigoroso ao fascismo e à extrema-direita. Os jovens comunistas compreendem seu papel histórico de disputar os corações e as mentes da juventude brasileira dentro desta conjuntura tão complexa.
No que tange às mobilizações sociais, a UJC estará ombro a ombro com os lutadores sociais, enfrentando a política de morte empregada pelo Estado burguês, que diariamente vitima a juventude negra e periférica e fomenta a pseudoguerra às drogas — que, em última análise, é uma guerra à classe trabalhadora. Nesse processo, é imprescindível salientar que a legalização e a descriminalização de todas as drogas devem estar na ordem do dia. O morticínio da juventude está diretamente ligado a essa criminalização, bem como à legitimidade conferida ao braço armado do Estado para matar a população — reflexo de uma política racista e classista.
Correlacionado a essa disputa ideológica, o aumento do feminicídio tem escalonado, impulsionado por uma cultura de ódio disseminada como fruto do avanço da extrema-direita. Esse enfrentamento deve ser realizado em conjunto com a busca pela emancipação econômica das mulheres. Portanto, a redução da carga horária de trabalho para 30 horas sem redução salarial — campanha impulsionada pelo PCB em 2022 — deve ganhar caráter de massas. Essa pauta não pode mais ficar restrita a debates em gabinetes, pois a luta pelos interesses da classe trabalhadora deve ser encabeçada pelos e para os trabalhadores.
Nesse sentido, como já afirmava Lênin: “O proletariado tem como única arma, na sua luta pelo poder, a organização”. Com isso, a UJC faz um chamado a todos os jovens do Brasil para que se organizem em nossas fileiras e nos ajudem a destruir aquilo que nos destrói: o capitalismo.
Coordenação Nacional da União da Juventude Comunista (UJC Brasil)
3 de maio de 2026
Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil