Sobre a Comissão Eleitoral do DCE da UFES em 2026
No dia 14 de abril de 2026, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) realizou uma reunião do Conselho de Entidades de Base (CEB) na sala 207 do ED2 – CCJE, local escolhido para nomear a Comissão Eleitoral (COE) para as próximas eleições do DCE da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), marcando o fim da Gestão Pra Fazer Valer, eleita ao final do semestre 2024/2, composta pelas seguintes forças políticas: Enfrente, JSB, Kizomba, Levante Popular da Juventude e ParaTodos. A Comissão Eleitoral é composta agora pelo Enfrente, JSB, Levante, Kizomba – todas do campo da majoritária no movimento estudantil universitário – e Castorzada – grupo político específico do Centro Tecnológico da UFES. A forma como isso foi feito, no entanto, abre uma série de questionamentos, reflexões e indagações que nós, da UJC, não poderíamos deixar de fazer.
Após uma hora de atraso para começo da reunião, uma direção da UNE que também representa a JSB – força política que estava na gestão do DCE – pede adição de ponto de pauta e inversão da agenda para inclusão do Encerramento de Gestão, alegando que, feita a prestação de contas, era impossível que a gestão Pra Fazer Valer se responsabilizasse por quaisquer compromissos financeiros feitos pelo DCE e também que a gestão já tinha passado do prazo de entrega e por isso era necessária a tiragem da Comissão Eleitoral.
Com motivos de sobra, essa decisão absurda foi questionada. A adição súbita desse ponto de pauta prejudicou objetivamente a presença de estudantes alheios àquele espaço específico, uma vez que a formação da Comissão Eleitoral não havia sido divulgada previamente. Diante destes questionamentos, a defesa foi dizer que o movimento estudantil inteiro estava desarticulado e não apenas aquela reunião do CEB, tornando indiferente o aviso prévio.
Boa parte do discurso da majoritária nesse cenário foi raso e mal elaborado. O argumento de que a prestação de contas marcava a finalização da gestão foi ignorante com o próprio papel do CEB, já que o Estatuto afirma bem claramente em um de seus artigos o que deve ser feito quando não se tem uma Diretoria para manejar o patrimônio do DCE1.
O argumento da passagem do tempo de entrega, porém, é algo que podemos nos debruçar melhor, pois traz uma reflexão política que, inclusive, foi debatida na hora da própria reunião do CEB. Segundo o Estatuto, nos artigos 47 e 64, a Diretoria do DCE tem dois semestres letivos, garantindo no mínimo um ano de gestão. A posse da direção do DCE foi no dia 25 de março de 2025. De fato, aconteceu mais de um ano entre a posse e a finalização. Desta forma, cobrar a finalização da gestão não é contra o Estatuto do DCE. No entanto, afirmar que era uma obrigatoriedade isso ser decidido em CEB e não marcar uma reunião especificamente para esse ponto é uma escolha de decisões por parte do campo democrático-popular inteiro que podemos e devemos questionar e analisar politicamente o que essa escolha significa.
É importante destacar que, segundo os artigos 22 e 74 do mesmo Estatuto, a eleição dos membros da Comissão Eleitoral é competência da Assembleia Geral do DCE. Existe sim um artigo2 que permite, a partir de interpretações específicas, a tiragem da COE por meio do Conselho de Entidades de Base. No entanto, esse mesmo artigo afirma, de maneira muito categórica, o prazo para essa tiragem: 30 dias antes do fim da gestão. Foi colocado o argumento de que a gestão precisava encerrar o quanto antes para justificar a tiragem da COE durante aquela reunião do CEB, que nunca teve como ponto de pauta prévio o encerramento da gestão. Considerando todos os elementos pontuados e relembrando que a súbita decisão partiu de uma das forças que fazia parte da direção do DCE, podemos concluir que essa foi uma escolha política deliberada e confirmada por todas as forças do campo democrático-popular presentes na reunião. A justificativa embasada na “desarticulação do movimento estudantil” é mais uma comprovação dessa visão que temos. Ora, sendo uma força base na direção do DCE durante todo o ano de 2025, tal desarticulação estudantil deveria ter sido discutida entre as direções em busca de caminhos para contorná-la. Ao invés disso, preferiram se utilizar desse fenômeno para justificar um atropelamento no processo de finalização de chapa.
Tendo todas essas contradições em vista, faz-se necessário ainda contextualizar mais um pouco, já que não tratamos ainda dos possíveis motivos para essas escolhas. Com a presença da UJC, pudemos constatar os seguintes fatos: se tratava de um CEB com os pontos de pauta nada polêmicos – I) Prestação de Contas, II) 1º de Maio, III) Greve do SINTUFES e IV) Informes Gerais –, marcado com dois dias de antecedência (sendo um deles um feriado no estado do Espírito Santo), com a maioria das de entidades de base presentes possuindo diretorias alinhadas diretamente com a gestão – isso em um espaço relativamente esvaziado de entidades de base como um todo –, e que começou com uma hora de atraso. Todos esses fatores se unem e formam uma pressuposição estranha, porém difícil de não acreditar: estavam motivados a garantir uma Comissão Eleitoral que as forças que já ganharam a última eleição conseguiriam controlar novamente o processo eleitoral com facilidade. Tomaram o espaço de assalto, tendo plena consciência de que, estatutariamente, o que foi feito era algo permitido e que poderiam se justificar com base nisso.
Entendendo o papel legal de um Estatuto e o que significa tudo o que aconteceu, cabe o questionamento, enquanto força política de esquerda: politicamente, nós devemos mesmo fazer algo só por que o Estatuto permite? Uma lei automaticamente se torna o único parâmetro político que devemos usar? Tomar uma discussão de assalto em um espaço que percebe-se ser maioria é uma decisão que fortalece o Movimento Estudantil como um todo de alguma forma? É saudável para o cotidiano do Movimento Estudantil tomar decisões absurdas sob a justificativa de que o Movimento Estudantil é desarticulado? A nominata que foi votada naquele espaço do CEB representa a diversidade ideológica dos estudantes da UFES? Se nos preocupamos com as paridades sociais (o que é muito válido), não deveríamos nos preocupar, sabendo qual papel o DCE tem e qual a correlação das forças do movimento estudantil, em ter alguma paridade de campos políticos construídos dentro da COE?
As respostas para todas essas indagações para nós são muito claras. Entendemos que essa visão política trazida pela Majoritária para discussão apresenta uma série de perigos que nos afetam todos como Esquerda. Sabendo disso e entendendo qual é nosso objetivo político em ter um processo eleitoral justo, não podemos de forma alguma defender a composição da Comissão Eleitoral do jeito que está, já que ela não representa bem a diversidade política e ideológica dentre quem constrói o Movimento Estudantil da UFES. Como entendemos a dificuldade de confiar em acordos políticos com parte da Comissão Eleitoral, após a forma como foi feita a discussão por parte da mesa diretora da antiga direção do DCE, iniciamos então uma ordem de convocação de Assembleia Geral do DCE para uma nova tiragem da Comissão Eleitoral. Na construção de um DCE, os estudantes devem estar presentes em cada uma de suas etapas e a “desmobilização” não deve, jamais, ser utilizada como escudo para manter o corpo estudantil imobilizado. Estudantes interessados em contribuir e que não concordam com esse modo de fazer política, esse chamado é para você.
Núcleo UFES
União da Juventude Comunista (UJC)
22 de abril de 2026
Foto: Leonardo Sá / Século Diário
Notas de rodapé
- Art. 13. No caso de ausência temporária de Diretoria responsável pela gestão da entidade, caberá ao CEB a administração do patrimônio desta, observando-se o disposto neste Estatuto. ↩︎
- Art. 68. Compete a Assembleia Geral ou o CEB aprovar o Regimento e a Comissão Eleitorais, com antecedência mínima de trinta dias antes do término da gestão. ↩︎