Nenhuma opressão a mais, nenhuma luta a menos: unidade de classe contra a LGBTfobia!
Nos últimos dias, tem se feito um debate na internet relativo ao movimento LGBTI+ e à luta revolucionária da classe trabalhadora. Na figura de influenciadores de esquerda na internet, tem se discutido se a classe trabalhadora em si defende ou não a luta da população LGBTI+ e se todo trabalhador de esquerda, alinhado com os ideais revolucionários, “precisa ou não defender o movimento LGBTI+”. O que se vê nesse debate são aspectos e características estruturais que vêm de uma cultura de LGBTfobia, machismo e misoginia enraizados em grande parte da população brasileira.
Esse debate parte de uma falsa separação entre a população LGBTI+ e a classe trabalhadora. A ideia de que as pautas da população LGBTI+ seriam externas ou secundárias, quando comparadas à luta da classe trabalhadora, é tão antiga quanto atrasada e equivocada. Essa divisão artificial ignora que as opressões não são secundárias, mas estruturais na forma como a exploração se organiza e se reproduz. Separar a luta revolucionária do combate à LGBTfobia não é apenas um erro teórico, mas uma posição que, na prática, reproduz as mesmas estruturas que se pretende destruir.
A população LGBTI+ não está fora da classe trabalhadora, ela é parte constitutiva dela. Pessoas LGBTI+ trabalham, produzem riqueza e estão inseridas nas mesmas relações de exploração que qualquer outro trabalhador, muitas vezes em condições ainda mais precarizadas. A LGBTfobia atua como um mecanismo que empurra esses sujeitos para o subemprego, para a informalidade e para a exclusão de direitos básicos, intensificando sua exploração. Por isso não se trata de duas lutas separadas, mas de uma mesma realidade vivida por uma classe diversa, na qual a opressão de gênero e sexualidade se soma à exploração de classe, reforçando que sem a luta contra a opressão sofrida pela população LGBTI+ nunca haverá de fato uma quebra da estrutura patriarcal, LGBTfobica e cisheteronormativa.
Para além de mecanismo de opressão, a LGBTfobia também atua como mecanismo de manutenção da estrutura familiar capitalista, uma estrutura misógina e opressiva que visa à produção de mais-valia e à manipulação sociocultural de como se dão as estruturas familiares tratadas como corretas e “normais”. O objetivo do capital, ao ter a LGBTfobia como elemento de manutenção dessa estrutura, é reforçar a noção opressiva de que os corpos LGBT não se encaixam no ideal familiar proposto pela burguesia capitalista, noção que se estende à estrutura familiar dos trabalhadores por meio da manipulação de classe sobre classe.
Nesse sentido, a imposição de um modelo único de família é uma questão econômica e política. Ao delimitar quais formas de afeto, convivência e reprodução são legítimas, o capitalismo organiza a própria reprodução da força de trabalho, transferindo para o núcleo familiar responsabilidades que deveriam ser socializadas independente dos papéis de gênero. A marginalização de pessoas LGBTI+, portanto, não é acidental, mas funcional a essa lógica, por reforçar normas rígidas de gênero e sexualidade que sustentam a divisão sexual do trabalho e a exploração cotidiana da classe trabalhadora.
Não haverá revolução enquanto houver qualquer tipo de opressão!
É nossa tarefa, enquanto juventude do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que se propõe a ser um partido de vanguarda na organização da nossa classe, apontar que, sem o combate à todo tipo de opressão, não existe revolução. Nossos corpos, enquanto pessoas LGBTI+, já são submetidos a agressões, a expulsões prematuras de nossas casas, a subempregos, à marginalidade e à morte prematura. O Brasil já lidera o ranking dos países que mais matam pessoas LGBTI+, com destaque para pessoas trans e travestis, e debates como esse devem nos apontar um norte organizativo que priorize, cada vez mais, evidenciar a incongruência de argumentos que separem a luta LGBTI+ da luta revolucionária dos trabalhadores.
A população LGBTI+ existe, e um debate firmado em posições LGBTfóbicas e machistas não deve ser pauta no nosso meio, mas um exemplo do que deve-se corrigir.
Pelo fim do patriarcado, da cisheteronormatividade e do capitalismo!
Por Yuri Amizadai, militante da UJC no Mato Grosso do Sul
Foto: Lucas Nogueira / UJC Brasil