c Famílias do RN se alimentam de lagartos e restos de carne: a que se deve o retorno da fome? – União da Juventude Comunista
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Famílias do RN se alimentam de lagartos e restos de carne: a que se deve o retorno da fome?
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Famílias do RN se alimentam de lagartos e restos de carne: a que se deve o retorno da fome?

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“A última vez que comi carne já tem mais de um mês. Foi quando ajudei a tirar o couro de uma vaca”. Este é o relato de Adailton Oliveira, morador do município Senador Elói de Souza, publicado na Folha de São Paulo [1]. A matéria tem como manchete: “Famílias comem lagartos e restos de carne para enganar fome no RN”. Ao redor do país, diversas outras notícias e relatos indicam o crescente cenário de miséria: ossos de boi sendo disputados no Rio de Janeiro e vendidos como mais uma mercadoria em Santa Catarina – a fome que assola o Brasil, portanto, não é de exclusividade da região do semiárido, como se busca representar na mídia burguesa. A que se deve tal fenômeno, portanto?

O comentário do geógrafo José Raimundo Ribeiro, realizado em entrevista, pode nos indicar o caminho para explicação do problema: “As pessoas não produzem os alimentos que elas comem. O acesso aos alimentos é um acesso monetarizado. Mesmo no campo, a maior parte dos alimentos que as pessoas consomem, elas compraram por via monetária. Se a gente pensar a realidade das cidades, que é quase 80% da população brasileira, todos os grupos de alimentos, a aquisição desses grupos de alimentos, mais de 90% é pela via monetária. (…) Chega quase a ser uma obviedade: ganhar mal é comer mal.” [2] Que ganhar mal é comer mal, os trabalhadores de todo o país já sentem na pele: presenciamos, no último período, um “aumento de preços dos alimentos básicos 3 vezes maior do que a inflação, corroendo o poder de compra e colocando em risco a sobrevivência de muitas pessoas atingidas pelo desemprego, que chegou a bater a marca dos 14 milhões de brasileiros” [3]. Com a alta do dólar, o agronegócio tem priorizado a exportação, o que só aumenta o preço dos alimentos.

A mais recente ideologia burguesa busca naturalizar o cenário calamitoso: coloca na pandemia a responsabilidade pela crise econômica e sanitária, reforçando uma falsa unidade nacional onde “todos estão no mesmo barco”. É evidente que este não é o caso. A crise econômica e instabilidade do sistema capitalista (intrínseca ao próprio sistema) se delineia desde 2008, com a pandemia acelerando e agravando o quadro que já se demonstrava preocupante. E como a burguesia têm respondido à crise? Colocando ela na conta da classe trabalhadora. Num processo que teve início ainda no governo Dilma, a burguesia têm operado através do Estado uma série de contrarreformas que têm piorado as condições de vida e trabalho da classe. As políticas de austeridade e flexibilização da legislação trabalhista não parecem ter surtido nenhum efeito para reanimar uma economia estagnada [4]. Entretanto, ao passo que maximizam o lucro dos capitalistas, relegam a grande maioria do povo brasileiro à fome e à miséria. Compreende-se a política genocida do governo Bolsonaro: como atual gestor da burguesia, é até conveniente que se mate milhares de pessoas, desde que se consiga manter o sistema produtivo operando a todo vapor, empregando o mínimo de trabalho necessário para que a burguesia siga lucrando.

E como nós, trabalhadores, responderemos à crise? Não basta aguardar que algum salvador da pátria seja eleito no próximo ano. Se a crise nos revela algo, é que os interesses dos trabalhadores e da burguesia são inconciliáveis – o funcionamento normal do capitalismo pressupõe a luta incansável entre as classes, onde a burguesia tenta manter seu poder político e econômico, sempre buscando maximizar os ganhos. E o que quer a nossa classe? Queremos comer. Mas mais do que isso, queremos viver. E para viver precisamos travar a luta mais consciente e mais aguda contra a classe que nos explora. A nossa arma é a organização.

Nesse momento de enorme sofrimento e luto de toda a classe, nossa tarefa imediata é a revogação de todas as contrarreformas que têm destruído milhares de vidas – processo que só ocorrerá com a devida organização e pressão populares. Mas mais do que isso, nossa tarefa histórica mais ampla é a construção de um poder popular que seja capaz de, nessa conjuntura miserável, pautar ações de solidariedade de classe, rumo a uma organização massiva dos trabalhadores que ponha medo à burguesia, rumo a uma sociedade onde as vidas de todos não sejam decididas pelos lucros de poucos.

Referências:

[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/12/familias-comem-lagartos-e-restos-de-carne-para-enganar-fome-no-rn.shtml

[2] https://pcb.org.br/portal2/20773/inseguranca-alimentar-e-eufemismo-para-fome/

[3] https://pcb.org.br/portal2/27032/a-politica-genocida-da-fome/

[4] https://pcb.org.br/portal2/27326/fome-segue-crescendo-em-todo-o-pais/