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As lutas da juventude no século XXI: devemos ainda ser leninistas?
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As lutas da juventude no século XXI: devemos ainda ser leninistas?

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Por ocasião dos 150 anos do nascimento de Vladimir Lenin, o secretário político da União da Juventude Comunista, Gabriel Lazzari, escreveu um texto formulando as lutas da juventude atualmente e a vigência do leninismo. Segue o texto na íntegra:

Minha formação teórica política começou ainda no Ensino Médio nas aulas de sociologia. Foi ali que conheci, pela primeira vez, alguns pontos fundamentais da obra de Karl Marx. Para mim, em um ambiente complicado como foi o meu Ensino Médio, Marx deu certo sentido aos problemas que eu enfrentava. Mas foi anos mais tarde, em debates sobre os fundamentos da prática política que me deparei com o pensamento de um outro marxista, um comunista revolucionário, que tinha dirigido o processo de luta na Revolução Russa. Foi o estudo de sua obra – e a aplicação de seus princípios – que mudou minha forma de ver a política.

Há exatos 150 anos, na então cidade de Simbirsk, às margens do rio Volga, na parte ocidental da Rússia, nasceu, de um casal de professores, uma criança que ajudaria a mudar a história da humanidade. Vladimir Ilitch Uliánov foi um aluno exemplar, ávido leitor, e aos 17 anos ingressou na Universidade de Kazan, já tendo perdido seu pai para um derrame e seu irmão, enforcado por participar de atividades revolucionários contra o czarismo.

Não foi até cumprir uma pena de exílio na Sibéria que Vladimir abandonou o apelido de “Volodya” que seus pais lhe deram, para passar a ser conhecido por seu pseudônimo, que até hoje inspira o terror nos exploradores e capitalistas: Lênin. Seu nome deu origem a uma nova corrente de pensamento dentro do marxismo: o leninismo.

Nesse momento de crise, de desemprego, de desemprego, de miséria crescente e avanço da extrema-direita, de guerras e invasões militares, de crises de refugiados, novamente surge a pergunta: nós, a juventude trabalhadora no século XXI, ainda devemos ser leninistas?

O que fez Lênin?

Lênin teve contato, desde o começo de sua formação intelectual, com uma série de intelectuais e formuladores políticos influenciados direta ou indiretamente pelo marxismo. Desde Chernichevsky a Plekhánov, passando por diversos socialistas camponeses, populistas, utópicos e terroristas, Lênin conseguiu observar, na imensa variedade que havia no pensamento “de esquerda” da Rússia um campo fértil para sua polêmica afiada. Foi nesse campo que fincou o pé e começou a desenvolver, a seu modo, a teoria e a prática revolucionárias, ajudando a fundar, no começo, a Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária de São Petersburgo.

A principal arma de Lênin foi, porém, a retomada do marxismo como tal. Sua intensa luta política, desde seus primeiros escritos, tinha como objetivo restaurar o ímpeto revolucionário que “um certo marxismo” tinha perdido já no fim do século XIX. O maior partido de inspiração marxista, o Partido Social-Democrata da Alemanha, revisava quase ponto a ponto a teoria de Marx, jogando fora sua potência de descrição científica da realidade e, junto, seu aporte como guia para a prática. Na Rússia, a situação não era melhor: os anos de hegemonia das correntes “populistas”, ligadas ao campesinato, e do liberalismo disfarçado de teoria crítica deram um grande material para Lênin combater.

Algumas de suas principais sínteses, no entanto, vêm a partir de uma nova forma de colocar o problema da luta de classes: a organização da vanguarda em um Partido. Não desprezando seus estudos e brilhantes análises sobre o desenvolvimento do capitalismo no mundo, em geral, e na Rússia, em particular, Lênin observa que, em matéria de luta de classes, a forma era tão fundamental quanto o conteúdo. É nessa contenda, especialmente contra a ala oportunista do Partido Operário Social-Democrata de Toda a Rússia (POSDR), que ele vai demonstrar como a forma de organização do Partido e a estratégia e a tática da luta pelo socialismo estão intimamente vinculadas.

O oportunismo no programa está naturalmente ligado ao oportunismo na tática e ao oportunismo em matéria de organização.

Sua perspectiva não é de criar um simples partido de esquerda, com tantos filiados quanto possível, um partido das grandes massas trabalhadoras, como havia na Europa Ocidental. Sua pergunta é como criar uma vanguarda, um “Estado-maior” do exército proletário em luta contra o capitalismo. E foi esse Partido que, combatendo ferozmente os vícios liberais das diversas outras correntes políticas russas e internacionais, conseguiu dirigir um dos maiores feitos da história do movimento operário: a Revolução Russa.

A Revolução Russa abalou todas as estruturas da sociedade mundial em 1917. Já haviam se passado 46 anos desde a primeira tentativa de um governo puramente trabalhador, com a Comuna de Paris, que fora esmagada pela aliança entre a França e a Prússia. Quando, em 8 de março (no calendário atual), as mulheres saíram às ruas para protestar pelo fim da guerra, poucos imaginavam que uma semana depois o czar Nicolau II, descendente de uma dinastia que já governava há mais de 300 anos, abdicaria do trono e daria origem a República na Rússia.

Mas, para Lênin, isso não era o bastante. Não era o bastante derrubar um governo imperial que oprimia diversas classes na Rússia por um governo burguês que continuaria oprimindo os camponeses pobres e o proletariado. É em abril de 1917, então, que ele retorna à Rússia de seu exílio na Suíça e convence todo o Partido Bolchevique (a cisão revolucionária do POSDR) de que a questão agora era tirar o poder das mãos do governo provisório, que levantava a bandeira do socialismo mas governava para os capitalistas, e colocá-lo nas mãos dos Conselhos que os camponeses, os soldados e os operários haviam construído em todo o processo de luta contra o czarismo. Esses Conselhos ficaram mundialmente conhecidos por seu nome russo, soviet. Dava início, aí, a mais longa experiência de um Estado operário na história da humanidade: era o começo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A credibilidade do pseudônimo de Vladimir Ulyanov marcou época: seus aliados em vida travaram disputas intensas entre si, depois de sua morte, levantando, de ambos lados, a bandeira do leninismo. Era bastante claro, durante boa parte do século XX, que ser leninista era ser um revolucionário, comprometido com a causa internacional da classe trabalhadora, e disposto a uma luta árdua pela libertação dos povos e pela emancipação da humanidade. Ser leninista era sinônimo de acuidade teórica, de esforço incansável, de clareza política e de espírito prático.

Lênin, ainda hoje?

Muitos eventos sucederam à morte de Lênin. Mas meu objetivo com esse texto não é fazer um balanço da história da União Soviética, ou do socialismo real, ou dos sucessos e desventuras dos comunistas no século XX. Meu objetivo é responder à pergunta: nós, os jovens no século XXI, ainda devemos ser leninistas?

Minha geração (nasci em 1993) não viu a experiência gloriosa da União Soviética e do bloco socialista no mundo – nem seu auge, nem eu seu descenso. Não viu a pressão que o incrível avanço dos direitos sociais e do bem-estar fazia sobre o mundo capitalista, servindo de contraponto à barbárie do sistema de mercado. Eu me lembro de, tendo começado a militar na União da Juventude Comunista, conversar com a minha mãe sobre o fim da União Soviética. À época, no fim de 1991, ela era uma estudante universitária que cursava Serviço Social. O impacto na área, nos docentes, até mesmo nas concepções teóricas que balizavam seu curso, foi imenso, segundo ela. Professores choravam ao falar do fim da União Soviética, o que lhes parecia, no momento, o fim de um sonho por um mundo melhor.

Mas não foram apenas os professores de Serviço Social que começaram a duvidar da possibilidade de um mundo sem exploração. A ideologia capitalista, por diversos meios, se fez presente nos anos 1990, buscando construir um novo consenso mundial: o socialismo seria não apenas indesejável, mas impossível. A melhor expressão disso foi a obra do ideólogo burguês Francis Fukuyama, “O fim da história e o último homem”, em que defendia, tendo em vista os eventos da virada dos anos 1980 para os 1990, que a democracia liberal (burguesa) seria o ponto culminante da história da humanidade e qualquer alternativa seria impossível.

Muitos, à direita e à esquerda, fizeram coro a essa tese. A história teria de fato chegado a seu fim e o ideal comunista seria enterrado junto com o século XX. À direita, a “terceira via” de Tony Blair e Bill Clinton, governantes dos centros imperialistas, era a solução – um capitalismo neoliberal com migalhas de políticas sociais; no espectro “oposto”, a “nova esquerda” buscava criar “acúmulos de força” por dentro da democracia burguesa para pautar uma “resistência” à ordem capitalista por meio de medidas distributivas e uma singela participação política. Ao fim e ao cabo, a semelhança entre elas revelou a similaridade do pensamento liberal que as fundamentou.

No entanto, houve aqueles que não se contentaram com esse pessimismo histórico e essa resignação ideológica. Houve comunistas que, em grande espírito leninista, buscaram nadar contra a corrente de confusão dos anos 1990 (como fez nosso Vladimir Ulyanov contra o revisionismo da II Internacional). É nesse momento histórico que o Partido Comunista da Grécia rompe com a Coalizão da Esquerda, dos Movimentos e da Ecologia (Synaspismos); que membros do Partido Popular Socialista no México resolvem refundar o Partido dos Comunistas Mexicanos; que membros do Partido pelo Poder Socialista na Turquia decidem refundar o Partido Comunista, depois tornado Partido Comunista da Turquia; que surge o Partido Comunista da Federação Russa dos escombros do Partido Comunista da União Soviética; e, finalmente, que, no Brasil, dedicados militantes decidem manter vivo o Partido Comunista Brasileiro, apesar da tentativa de dissolução realizada em 1992, em um fraudulento congresso. Mas, apesar de seus esforços e de sua firmeza na luta revolucionária, o impacto na opinião geral sobre o fim da história e a eternidade do capitalismo permanecia.

Foi principalmente após o começo da crise sistêmica do capitalismo, em 2008, que novamente os setores “críticos” voltaram-se para o marxismo como ferramenta para compreender os fundamentos da situação que passava o mundo. As perspectivas de “microrresistências”, “inclusão” e “justiça social” nesse modo de produção se mostraram cada vez menos possíveis – e menos desejáveis. Novamente, estava colocada a oposição consagrada pela revolucionária alemã Rosa Luxemburgo (assassinada pela social-democracia em 1919): agora temos, novamente, que escolher entre “socialismo ou barbárie”.

O que fazer depois da contrarrevolução dos anos 1990?

As experiências da minha geração, no entanto, não nos armaram para essa necessidade e essa possibilidade: a de construirmos uma revolução socialista. O impacto ideológico da contrarrevolução nos anos 1990, o discurso liberal majoritário (na esquerda e na direita), o desmonte das nossas ferramentas de luta nos últimos 20 anos: não estamos familiarizados com os parâmetros da luta revolucionária pelo socialismo.

Os elementos objetivos da situação analisada por Lênin, ainda que tenham sofrido imensas mudanças em mais de um século, continuam estruturalmente os mesmos: ainda vivemos sob um sistema mundial do capitalismo em sua fase imperialista; a exploração dos trabalhadores continua rendendo imensas riquezas para a burguesia; os setores oportunistas continuam oferecendo saídas “fáceis” e “possíveis” dentro do capitalismo, com a conciliação de classes; a monopolização dos capitais e as intervenções e agressões políticas e militares aos países dependentes continuam extremamente verdadeiras. A situação político-econômica para a qual Lênin formulou sua política continua atual – e, portanto, também seus princípios políticos continuam atuais – ou, melhor, necessários.

Assim é que podemos responder a essa pergunta: devemos, ainda, nós, jovens do século XXI, ser leninistas?

E a resposta, creio, não poderia estar mais clara. Parafraseando o camarada Ivan Pinheiro, em sua intervenção no fraudulento congresso que tentou enterrar o PCB (e não conseguiu):

Se ser leninista é acreditar na luta de classes, e não na conciliação delas, então devemos ser leninistas. Se ser leninista é ser internacionalista e defender as experiências do socialismo, então devemos ser leninistas. E se ser comunista é, necessariamente, ser leninista, então devemos ser leninistas.

Lembrar de Lênin, 150 anos depois de seu nascimento, não pode se resumir a uma memória bonita: precisa se converter em uma ação política.

Uma ação política que é, ao mesmo tempo, prática e teórica – de formulação nos rigorosos princípios do marxismo e de aplicação disciplinada e abnegada a todo tempo. Uma ação política que é, ao mesmo tempo, internacionalista e cotidiana – de compreender o movimento da classe trabalhadora no mundo todo e de entender cada mínima expressão dessa luta de classes. Uma ação política que seja direcionada às massas dos trabalhadores mas que não se confunda com as impressões imediatas – nunca caindo no sectarismo paralisante de quem só fala para si mesmo e nem no oportunismo ingênuo de quem fala apenas o que o outro quer escutar. Uma ação política organizada e com espírito de iniciativa – de quem compreende o Partido Comunista, o centralismo democrático, a crítica e a autocrítica como princípios fundamentais e de quem cria, em cima das condições da classe trabalhadora, uma política que não se prenda a dogmas. Uma ação política revolucionária e socialista – de quem compreende a necessidade de superação do capitalismo por uma ruptura drástica na sociedade burguesa e de quem compreende a igualmente necessária e árdua tarefa da construção do socialismo sem medo das decisões difíceis. Uma ação política, enfim, que confie de coração na potência latente da classe trabalhadora para transformar esse mundo – e que veja no Poder Popular e no socialismo as formas e os conteúdos da emancipação da humanidade.

É retomando o leninismo como teoria revolucionária que nossa geração poderá ajudar a cumprir com o papel histórico dos trabalhadores, organizar o processo revolucionário e construir a sociedade socialista. Afinal, como nos ensinou o jovem russo que batalhou contra tudo e todos em nome da revolução socialista: “Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária.”