Juventude pelas 30h semanais: é hora de ir às ruas!
A luta pela redução da carga horária de trabalho sem redução salarial tem ganhado reverberação e apelo popular. Nacionalizada em 2022, durante um programa de TV da campanha eleitoral à presidência, a então candidata do PCB, Sofia Manzano, trouxe à tona o debate pelas 30 horas semanais como lei. Em 2023, essa campanha chega às massas com um debate simples e objetivo: “minha vida gira em torno do trabalho!”. Nessa lógica, cerca de 49 milhões de brasileiros, segundo o IBGE, vivem essa realidade: trabalham, em média, 44 horas semanais, em regime de escala 6×1, com um salário mínimo de R$ 1.621,00 por mês.
Em contrapartida, de acordo com o DIEESE, o salário necessário para cobrir todas as despesas básicas — incluindo cultura e lazer — seria de aproximadamente R$ 7.000,00. Paralelamente a isso, cerca de 40 milhões de brasileiros, segundo o IBGE, vivem em uma realidade de informalidade, na qual não há garantia de previdência, aposentadoria ou mesmo de uma renda fixa que assegure o pagamento das despesas mensais, como água, luz, alimentação, transporte, aluguel e gás. A ideia de ser o próprio “patrão” tem ocupado grande parte do imaginário da juventude, quando, na verdade, funciona como uma máscara para o desmonte do trabalho formal e dos direitos trabalhistas.

Nesse sentido, fica cada vez mais evidente que essa conta não fecha e relega a classe trabalhadora brasileira a uma lógica de viver para trabalhar. Essa situação é resultado de um ataque constante às conquistas históricas da classe trabalhadora, desmonte orquestrado pelo avanço do neoliberalismo no Brasil e pelo enfraquecimento de uma de suas formas mais importantes de organização: os sindicatos. A reforma trabalhista provocou maior instabilidade no emprego formal, enquanto a reforma da previdência aumentou em até cinco anos o tempo necessário para a aposentadoria.
Para a juventude, isso afeta diretamente sua construção profissional e individual, pois, mesmo quando trabalha com carteira assinada, muitas vezes precisa buscar rendas extras para conseguir pagar as contas. A moradia própria, por sua vez, tornou-se uma exceção entre os jovens. Já o concurso público, que na geração anterior representava uma garantia de estabilidade financeira, vem desaparecendo diante da escalada das privatizações e do desmonte do Estado. Os concursos tornam-se cada vez mais raros, enquanto os regimes temporários e precários de trabalho passam a se consolidar como regra.
Com isso, é necessário chamar a classe trabalhadora às ruas para que o debate sobre a redução da jornada para 30 horas semanais, sem redução salarial, se transforme em uma pauta de pressão popular. Trata-se de uma demanda urgente da classe trabalhadora para garantir condições dignas de vida. Nesse sentido, a UJC e o PCB fazem esse chamado à mobilização popular pelo fim da escala 6×1.
PELAS 30 HORAS SEMANAIS SEM REDUÇÃO DE SALÁRIO!
PELO PODER POPULAR!
Por que ainda lemos Karl Marx?
Em 5 de maio de 1818 nascia Karl Marx. Filósofo e economista revolucionário, Marx segue sendo um dos pensadores mais lidos, citados e debatidos do mundo, mesmo 143 anos depois de sua morte. Marx continua atual porque ainda não superamos o capitalismo. A luta de classes, cada vez mais acirrada, permanece como um antagonismo central em nossa sociedade, e sua superação segue sendo possível apenas com um horizonte revolucionário. Um exemplo da insistente relevância de Marx é o pioneirismo em debater a jornada de trabalho e como sua extensão revela, de maneira muito prática, a lógica de exploração do capitalista sobre o proletariado.

No primeiro volume da obra “O Capital”, Karl Marx dedica um capítulo inteiro à discussão da jornada de trabalho. O filósofo explica-a como uma grandeza variável, determinada tanto pelo tempo de trabalho requerido para a reprodução social do trabalhador — sua regeneração física e intelectual — quanto pela duração do mais-trabalho. Isso significa que qualquer tempo do dia do trabalhador que não seja voltado para a produção fere os interesses do capitalista e, portanto, o aumento da jornada de trabalho é uma trincheira da qual os capitalistas não podem abrir mão: “Não é a manutenção normal da força de trabalho que determina os limites da jornada de trabalho, mas, ao contrário, o maior dispêndio diário possível de força de trabalho, não importando quão insalubre, compulsório e doloroso ele possa ser, é o que determina os limites do período de repouso do trabalhador” (MARX, 1867).
"Parlamentares do Centrão e da direita apresentaram, no dia 14 de maio, uma emenda à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 221/2019 que permite jornadas semanais de até 52 horas e prevê dez anos de transição antes da vigência das novas regras trabalhistas. A proposta é um contraponto às iniciativas que defendem o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais."
Brasil de Fato, 20 de maio de 2026
Assim, em 1867, Marx já nos alertava acerca da centralidade da regulamentação da jornada de trabalho para a luta de classes na história da produção capitalista. Quando pensamos no contexto brasileiro, os debates em torno da escala 6×1 são muito representativos dessa contradição explicitada por Marx. Ainda que em conjunturas diferentes, o revolucionário nos demonstra o caráter inconciliável de uma vida plena e digna para o trabalhador com a busca por mais-valia e, portanto, mais-trabalho por parte do capitalista. Ainda lemos Marx porque as contradições por ele elucidadas estão longe de ser superadas. Ainda lemos Marx porque sabemos que a única saída possível é a organização da classe trabalhadora em unidade pela sua emancipação: “Para ‘se proteger’ contra a serpente de suas aflições, os trabalhadores têm de se unir e, como classe, forçar a aprovação de uma lei, uma barreira social intransponível que os impeça, por meio de um contrato voluntário com o capital, de vender a si e a suas famílias à morte e à escravidão” (MARX, 1867).