Mas minha prima Quinquina sabe que o Cristo foi bom e foi bom para todos, sem distinção de classes e mesmo sem distinção sobre a virtude e o pecado. Sabe que o Cristo foi humano também e ela não esqueceu essa lição de humanidade. [...] Viajantes cansados dos Natais das grandes cidades com presentes caros e champagne: ide a Estancia e no Parque Triste encontrareis o presépio de Quinquina. Bebereis licor, comereis bolo de aipim, conversareis com as velhas. E na sala de visitas encontrareis, pobre e nu, cercado, no entanto, de Reis, santos, homens, mulheres e animais, Cristo, o verdadeiro, o que perdoou Madalena, lavou os pés dos mendigos e pescou com os pescadores nas águas do Jordão.
Meteu-se na roupa encarnada, ajeitou a gola de arminho ao espelho e calçou as botas, resmungando: por que era que o Estado Novo não lhe suprimia as funções, conservando-lhe os vencimentos? Enquanto pensava em redigir algumas notas sobre a reorganização do serviço, pregou a barba de algodão na cara descontente, arrumou no crânio o chinó, tomou o cajado, foi ao quarto vizinho e atirou às costas o enorme saco cheio de brinquedos. Veio de lá, capenga e corcunda, apagou a luz, saiu, trancou a porta, encaminhou-se ao elevador.
A fuga, o refúgio e a resistência. Em tempos de opressão e genocídio de um povo, o simbolismo do Natal nos lembra das histórias de crianças vítimas de guerras imperialistas, de famílias que perdem seus lares e de povos inteiros que lutam por soberania, dignidade e paz.