c Flexibilidade Tática e Estratégia Revolucionária. – UJC
Home Opinião Flexibilidade Tática e Estratégia Revolucionária.
Flexibilidade Tática e Estratégia Revolucionária.
0

Flexibilidade Tática e Estratégia Revolucionária.

0

Por: Jones Manoel  

É comum atualmente ouvir que os comunistas e as demais organizações revolucionárias são “estreitos”, “esquerdistas” ou “sectários” por se negarem a realizar alianças políticas e negociatas com organizações da burguesia. A esquerda do capital, isto é, as organizações que se propõe a gerir “harmoniosamente” o capitalismo, tende a justificar seu oportunismo ao afirmar que estão usando a “flexibilidade tática”, buscando um recuo ou acúmulo de forças para futuramente, o que significa normalmente nunca, aplicar o real programa de transformações radicais.

LEIA TAMBÉM: Política de alianças: contradição, inconsistência e a implosão do Campo Popular.

Exemplo significativo disso foi a trajetória do Partido dos Trabalhadores: chegar ao Governo Federal era um elemento fundamental para aplicar o programa democrático-popular e tensionar a ordem burguesa para iniciar uma transição socialista, mas para chegar ao governo precisou abandonar o programa socialista, ampliar a política de alianças para partidos da ordem, receber financiamento privado de campanha, restringir-se aos estreitos limites do sistema político e abandonar pautas históricas como a reforma agrária. Uma vez no governo, é necessário abandonar as propostas democráticas e populares para manter a “governabilidade” porque não existe “correlação de forças” para ir além.

Nessa política de “acúmulo de forças” petista, como sabemos, quem mais acumulou forças foi a burguesia e suas organizações, como o PMDB. Exemplos como esse acabam criando uma desconfiança muito forte em vários setores da juventude e dos trabalhadores quando se é falado da importância da flexibilidade tática na luta política. Contudo, é necessário compreender que a flexibilidade tática não tem absolutamente nada a ver com o oportunismo político e é um elemento indispensável da aplicação vitoriosa de uma estratégia revolucionária. Vejamos.

A estratégia é uma espécie de objetivo final que se quer alcançar. Ao dizer que defendemos uma estratégia revolucionária, o significado é que defendemos derrubar o Estado burguês, construir o poder popular e iniciar a transição socialista num movimento político de todos os explorados e oprimidos com centralidade dos trabalhadores. Essa concepção estratégica, evidentemente, está fundamentada numa análise do desenvolvimento histórico do capitalismo brasileiro, suas contradições e estrutura de classe. Contudo, ao definir a estratégia a partir da análise do real, é necessário forjar os instrumentos políticos adequados a materializar a estratégia – como a organização ou organizações adequadas a ser o operador político da revolução socialista – e construir as mediações táticas da realização estratégica: se a estratégia é como se fosse o objetivo final a ser alcançado, a tática é uma espécie de “caminho” – por onde e como chegarei ao meu objetivo final.

A tática é sempre flexível porque a conjuntura é sempre dinâmica. Uma organização revolucionária na sua atuação cotidiana opera sua política de acordo com as mediações táticas mais gerais e amplas – como defender a construção de uma frente anticapitalista e anti-imperialista – e as táticas imediatas. Por exemplo, a partir de que consenso mínimo a frente defendida será construída? Com que forma organizativa? Qual seu objetivo na conjuntura? Etc. A combinação entre táticas mais amplas e imediatas, evidentemente, nunca se descola da estratégia: as táticas estão subordinadas à estratégia. Contudo, é um erro político de graves consequências crer que uma estratégia deve, para se manter revolucionária, congelar a tática.

Lênin, principal líder do Partido Bolchevique, é conhecido como um brilhante estrategista político: uma das principais qualidades do revolucionário russo foi compreender quais palavras de ordem e táticas eram adequadas para determinadas conjuntura numa dada correlação de forças e operar vários giros táticos sem nunca perder de vista o objetivo revolucionário de tomar o poder. A vitória da Revolução de Outubro inspirou partidos e intelectuais a recusar qualquer tipo de participação legal nos parlamentos ou nos sindicatos socialdemocratas, colocando de forma abstrata a conquista do poder como único objetivo a ser buscado, diz Lênin

De tudo isso se depreende imperiosamente a necessidade – uma necessidade absoluta – para a vanguarda do proletariado, sua parte consciente, o Partido Comunista -, de recorrer à manobras, aos acordos, aos compromissos com os diversos grupos proletários, com os diversos partidos de operários e dos pequenos patrões. Toda a questão consiste em saber aplicar essa tática para elevar, e não para rebaixar, o nível geral de consciência, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado (Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Expressão Popular, p.116).

Lênin, num texto anterior chamado “Guerra de Guerrilha” (1906), também afirma que os revolucionários não devem se prender a métodos de luta de forma ossificada, não reconhecendo as mudanças de atuação que a própria dinâmica da luta de classe impõe. Diz o líder bolchevique:

Quais são as exigências fundamentais que qualquer marxista deve apresentar ao exame da questão das formas de luta? Em primeiro lugar, o marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo facto de ele não amarrar o movimento a qualquer forma determinada e única de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e além disso não as «inventa», mas apenas generaliza, organiza, dá consciência àquelas formas de luta das classes revolucionárias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as fórmulas abstractas, a todas as receitas doutrinárias, o marxismo exige uma atitude atenta em relação à luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consciência das massas, com a agudização das crises económicas e políticas, gera métodos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque

Evidentemente, para Lênin e todo revolucionário, existe limite nos giros táticos. A frase clássica de Lênin, mais citada que compreendida, sobre “máxima flexibilidade na tática e máxima rigidez nos princípios” ilustra isso. A máxima flexibilidade dá-se dentro da estratégia revolucionária e sem nunca se propor a gerir “humanamente” a ordem burguesa ou acabar com a independência de classe na atuação política. Contudo, em nossos dias, é comum também compreender que rigidez nos princípios revolucionários é o mesmo que purismo. Vejamos um exemplo prático da diferença.

Durante a existência de um governo de conciliação de classe uma grande entidade representativa da juventude passa a ser correia de transmissão dessas políticas governamentais e se degrada em burocratismo, imobilismo e ausência da mais básica politização. Mesmo totalmente burocratizada essa entidade continua sendo a maior e mais representativa entidade no âmbito da juventude. Com o fim do pacto de conciliação de classe e a ascensão ao governo de um projeto político puro sangue da burguesia, com rápida e violenta intensificação dos ataques, essa entidade é forçada pela conjuntura a projetar alguma resposta política, o nível de politização tende a aumentar e o deslocamento das bases possibilita um nível de disputa política e ideológica que no período anterior não existia.

Nesse exemplo que toma como quadro de referência, como se nota, a UNE, mas que pode servir para outros, existe uma clara diferença entre fomentar uma disputa prioritariamente por fora e pelas bases da entidade num momento de imobilismo político, criando as condições para romper com o burocratismo, e a disputa no momento de intensa efervescência política e com outra conjuntura geral no país. Negar-se, por exemplo, a perceber a necessidade de alteração da tática no âmbito dessa entidade é não compreender como a política cotidiana se move buscando responder a conjuntura, sem, contudo, abrir mãos dos princípios – tomando ainda o exemplo da UNE, não há nenhuma justificativa plausível para usar os mesmos métodos da UJS na disputa da entidade; isso é que seria negar os princípios e cair no oportunismo.

Para concluir, a partir de tudo que escrevemos, podemos entender que a flexibilidade tática não é só necessária como é indispensável a uma organização revolucionária na sua atuação política. A constante análise concreta da situação concreta da cena política e a escolha adequada, sem purismo e sectarismo, das táticas e palavras de ordem como meio de concretizar a estratégia revolucionária é a alma viva da luta política para os comunistas.