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Expansão ou precarização? As contradições da proposta de novos cursos no Centro Tecnológico da UFES
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Expansão ou precarização? As contradições da proposta de novos cursos no Centro Tecnológico da UFES

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Um avanço com essência de retrocesso

O desenvolvimento tecnológico da universidade brasileira foi historicamente construído “a partir das exigências de fora” subordinada aos interesses de grandes empresas e nações estrangeiras. Hoje, a mesma lógica se repete sob o discurso da “inovação tecnológica”, do “empreendedorismo” e do “atendimento às demandas do mercado”. Essa lógica repetida reflete o cenário de desigualdade social do capitalismo e do Brasil, mas essa mudança de discurso faz parte do cenário ainda mais cruel de reconhecimento completo do indivíduo como existência abstrata que ele nunca cumpriu. Coloca-se o indivíduo como agente de seu futuro, justificando, por esse fator ideológico, a falta de cuidado social que permeia a precarização do trabalho e o enfraquecimento da classe trabalhadora como um todo com as decisões políticas baseadas nessa lógica.

No dia 27 de fevereiro de 2026, um Grupo de Trabalho apresentou em Conselho Departamental do Centro Tecnológico (CT) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) um relatório propondo a criação de novos cursos de graduação, com destaque para a ampliação de vagas no período noturno. A criação de novos cursos poderia ser observada com bons olhos, mas as premissas que motivaram essa decisão política e a forma como isso está tramitando são objetivo de análise desta nota.

As contradições expostas: mercado, precarização e exclusão

Alegando suposta “carência de profissionais”, o relatório aborda dados do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA – ES) para justificar a criação de novos cursos no entanto, essa análise é distorcida: o registro no CREA não é obrigatório para diversas funções na indústria, e muitos profissionais atuam em carreiras sob nomenclaturas como “analistas” ou “especialistas”, com salários e direitos precarizados.Considerando os últimos cinco anos (2020–2024), os dados do INEP – Censo da Educação Superior indicam que o número de concluintes em cursos de Engenharia no estado foi o seguinte:

  • 2020: 3.798
  • 2021: 2.827
  • 2022: 2.529
  • 2023: 2.231
  • 2024: 2.023

O estado forma mais de dois mil engenheiros por ano, o que evidencia que a formação não foi interrompida nem se tornou residual, mas que o problema está na desestruturação da carreira e na desvalorização salarial. Assim, aceitar essa lógica e ampliar o número de vagas sem enfrentar essa realidade imposta apenas criará um exército de trabalhadores que disputará cada vez mais postos precários de trabalho. A própria caracterização da faixa etária com registro no CREA talvez diga mais sobre as condições de trabalho da juventude como um todo do que sobre o atendimento de demandas por parte da universidade pública.

Apesar de colocar o público-alvo dos cursos noturnos de maneira bem detalhada e específica para profissionais já atuantes e utilizar o envelhecimento da população brasileira como um argumento razoável, o vestibular (ainda que pela forma do SiSU) ainda é um processo de entrada limitador para quem foi privado do direito ao Ensino Superior em momentos passados, o que faz com que a abertura de novas vagas por si só não seja o suficiente para solução desse problema para o público-alvo destacado.

Reconhecemos que o relatório acerta ao apontar a alta evasão nos cursos de engenharia e computação e também da necessidade de expansão de vagas noturnas para a classe trabalhadora. No entanto, a proposta apresenta limitações críticas que não podem ser ignoradas, sobre a qualidade dos cursos que serão criados e as condições materiais do turno noturno. Sem políticas públicas efetivas, o noturno se torna um turno abandonado, estudantes chegando exaustos do trabalho, não tendo onde se alimentar, espaço adequado para estudar e transporte seguro para voltar para casa. É válido notar, por exemplo, que a principal política de segurança alimentar da UFES – o Restaurante Universitário (RU) – já não consegue englobar todos os estudantes, nos cursos vespertinos disciplinas entre 17h e 19h, um período que se sobrepõe funcionamento do RU, o que acaba restringindo o acesso para parte dos alunos.

Ao adotar como justificativa central o “atendimento às demandas do mercado” , o relatório reforça a posição do CT como mero fornecedor de mão de obra para a indústria sem necessariamente ser orientada pelas necessidades mais gerais e urgentes do povo como a construção e reforma de moradia popular, reforma agrária, desenvolvimento de saneamento básico e saúde pública. Considerando o grau de privação de direitos que grande parte da classe trabalhadora vive, trata-se de uma orientação preocupante essa tomada.

A ampliação de vagas no turno noturno, apresentada como medida de democratização, não pode ocorrer dissociada das condições concretas de permanência estudantil, que não é um cenário que está sendo de fato revertido dentro da UFES nos últimos anos. Para grande parte dos estudantes, a escolha pelo noturno não é uma preferência individual, mas uma imposição material decorrente da necessidade de trabalhar para garantir a própria subsistência às vítimas da ausência das políticas de assistência: moradia estudantil, alimentação adequada, espaços infantis e transporte seguro.

Ignorar essa realidade significa desconsiderar que parcela significativa da evasão está diretamente vinculada à insuficiência da assistência estudantil. Democratizar o acesso não é apenas abrir novas vagas, mas assegurar condições materiais dignas para que os estudantes trabalhadores possam concluir sua formação com qualidade e sem aprofundar ainda mais as desigualdades sociais.

Essa orientação mercadológica não se expressa apenas na justificativa para a criação dos cursos, mas também no próprio desenho da proposta. Apesar de aumentar o número de vagas não ser necessariamente um absurdo, é necessário afirmar uma série de questões sobre as condições de trabalho que podem ser entregues aos envolvidos nesse projeto proposto. A defesa da contratação de professores em regime de 20 horas, com “experiência no setor empresarial” e apresentada como “inegociável”, aponta para um processo de precarização da carreira docente. Ao reduzir a dedicação à pesquisa e à extensão, esvazia-se o caráter indissociável do tripé universitário e fragiliza-se a universidade pública como espaço de produção crítica do conhecimento. Esse fator não estar aberto para debate também reduz e muito o fator democrático que poderia existir nesse tipo de processo. O ponto a ser votado na proposta dada pelo documento feito pelo GT indica que essa questão do regime de horas, ainda que legal, limita muito as perspectivas de carreira dos professores contratados e também limita as perspectivas dos estudantes de terem suas aulas na melhor qualidade, já que tempo específico para diferentes processos pedagógicos necessários está sendo limitado, ou mesmo de participação plena desses professores nos processos de pesquisa e extensão da Universidade.

Essa lógica se aprofunda quando se propõem cursos com “carga horária mínima” e foco restrito a “competências de mercado”. Tal orientação pode resultar no esvaziamento de disciplinas humanísticas, filosóficas e políticas fundamentais para uma formação crítica e socialmente comprometida, mirando em formar profissionais tecnicamente treinados, mas incapazes de refletir sobre o significado social do que produzem;

Nesse cenário, consolida-se um modelo dentro da própria universidade: enquanto o turno diurno preserva a formação integral, articulada ao ensino, à pesquisa e à extensão, o turno noturno tende a assumir um caráter tecnicista,precarizado e sem perspectivas de participação plena dos estudantes no processo de vida universitária. Em vez de promover uma democratização substantiva, a proposta pode reproduzir, no interior da instituição, a própria divisão social do trabalho, separando aqueles que pensam daqueles que apenas executam.

Por uma universidade pública e popular

Não aceitamos uma Universidade de primeira e uma Universidade de segunda. Queremos uma Universidade única, pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada para todos os turnos.

O processo de discussão dos novos cursos não envolve participação efetiva da comunidade acadêmica nem dos movimentos sociais. O Grupo de Trabalho foi composto exclusivamente por docentes. As “interações com a comunidade interna e sociedade empresarial” significaram, na prática, diálogo apenas com os interesses profissionais específicos ou de empresários, sem levar em consideração todo o potencial que um curso de tecnologia pode ter para todas as comunidades em solo capixaba.

Onde estão os movimentos de moradia? Os sindicatos? As comunidades atingidas por barragens? Os interesses do empresariado serem mais importantes que os de diversas comunidades que são público dessa política pública demonstra que o projeto de nação mais visado não é necessariamente de uma nação soberana.

Defendemos, sim, a ampliação de vagas no período noturno. Mas acompanhada de um projeto político-pedagógico comprometido com a classe trabalhadora. Para isso, exigimos:

  1. Políticas efetivas de permanência: ampliação e ajuste de bolsas, moradia estudantil, Expansão do horário do Restaurante Universitário, auxílio-creche e espaços infantis, mais transporte noturno e apoio pedagógico.
  2. Gestão democrática e participativa: estudantes, técnicos, docentes e movimentos sociais na elaboração do Projeto Pedagógico dos Cursos (PPCs).
  3. Conteúdo crítico e popular: engenharia voltada à reforma agrária, habitação social, saneamento, soberania nacional e emancipação humana; IA debatida em seus impactos sociais e éticos.
  4. Contratação de docentes com dedicação exclusiva: concursos públicos para 40h ou Dedicação Exclusiva (DE); rejeição à precarização da carreira acadêmica.
  5. Articulação com movimentos sociais: extensão universitária como elo orgânico entre universidade e povo.

A Universidade não será um o braço formador de mão de obra para mineradoras que destroem nossos rios, ela será o pólo de desenvolvimento científico e soberania nacional

Que os novos cursos do CT formem engenheiros e cientistas da computação comprometidos com as necessidades da nação e seu desenvolvimento.

Núcleo Universitário do Espírito Santo
União da Juventude Comunista (UJC)
11 de março de 2026

Foto: Reprodução / UFES


Referência

Relatório do GT, disponível em: https://lepisma.ufes.br/#/documentos/6037345/pecas/