c Em memória de Nise da Silveira: manicômios nunca mais! – UJC
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Em memória de Nise da Silveira: manicômios nunca mais!
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Em memória de Nise da Silveira: manicômios nunca mais!

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Nesse dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, lembramos a camarada Nise da Silveira, que estaria completando 115 anos. Durante toda sua vida profissional enquanto médica psiquiátrica, Nise se opôs radicalmente às formas tradicionais de tratamento em instituições psiquiátricas, dedicando-se ao desenvolvimento da arte como prática terapêutica.

Ao longo do século XX, multiplicaram-se as denúncias sobre todo tipo de violência no interior dos manicômios, fato que impulsionou uma série de movimentos clamando por reformas psiquiátricas. No Brasil, apesar do movimento de vanguarda iniciado por profissionais como Nise da Silveira há mais de meio século antes, foi apenas em 2001 que conquistamos uma Lei Nacional de Reforma Psiquiátrica.

Dentre as principais conquistas, estava o fechamento progressivo de hospitais psiquiátricos em face da criação de serviços substitutivos. Além disso, a fiscalização para tempo de internação razoável e o fim de determinadas formas abusivas de tratamento, como o uso indiscriminado de eletrochoque. O movimento de luta antimanicomial foi vitorioso e deu início a uma rede de atenção psicossocial com foco integral na saúde.

Recentemente, é com muita tristeza que recebemos as novas orientações do governo de Jair Bolsonaro para a política nacional de saúde mental. Desrespeitando os principais pilares da Reforma Psiquiátrica, o Ministério da Saúde decide pelo fim da política de fechamento de hospitais psiquiátricos, promovendo, ainda, práticas como o eletrochoque e abstinência. Na figura de Bolsonaro e sua trupe fascista, o governo da mais aberta ditadura do capital demonstra não ter compromisso com ninguém, a não ser os capitalistas. 

Aliados a um amplo e profundo debate em favor da luta antimanicomial, os comunistas saúdam o aniversário da histórica camarada Nise da Silveira e todas as suas contribuições às discussões e práticas renovadoras da saúde mental, certos de que somente um novo patamar de organização da sociedade será capaz de garantir a pacientes de transtornos psiquiátricos uma possibilidade concreta de amenização e/ou resolução de suas patologias.

Quem foi Nise da Silveira

Fundação Dinarco Reis

Revolucionária na utilização de formas alternativas de tratamento da esquizofrenia, uma de suas mais importantes obras foi a criação, em maio de 1946, da Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR) do Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

Nise da Silveira é conhecida por sua extraordinária história de vida dedicada à terapia ocupacional e ao combate a formas convencionais e agressivas de psicoterapia, como os eletrochoques e a lobotomia. A psiquiatria de Nise foi pioneira do movimento antimanicomial.

Nascida em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas, com apenas 16 anos passou no exame para a Faculdade de Medicina da Bahia, integrando uma turma em que era a única mulher entre 157 homens. Passou a viver com o primo e colega Mário Magalhães, futuramente um dos grandes médicos sanitaristas do Brasil, de quem seria companheira até a morte dele, em 1986. Tendo Zumbi dos Palmares como seu grande herói, desde cedo se interessou pelos marginalizados. Dizia: “Acho que foi por isso que foi fácil para mim a adaptação com os loucos”.

Em 1927 partiu para o Rio de Janeiro, onde ela e Mário viveriam num quarto de um casarão em Santa Teresa, na mesma rua onde moravam o líder comunista Octávio Brandão e o poeta Manuel Bandeira. Ficou amiga de Laura Brandão, passou a estudar Marx e frequentar as reuniões do PCB. Ingressou na União Feminina Brasileira, mas não se entendeu com os rígidos esquemas partidários da época: “lia aquelas apostilas stalinistas horrorosas, muito mal escritas e muito ferrenhas”.

Foi presa em 1936, na onda repressora que se seguiu ao Levante Comunista de novembro de 1935. Permaneceu por mais de um ano no presídio da Frei Caneca, onde conviveu com as militantes comunistas Elisa Berger, Eneida de Moraes e Olga Benário. Sobre esta experiência, afirmou: “Acho que todo psicanalista deveria fazer um estágio de um ano na prisão, pois nada como o encarceramento para mostrar a alma humana. Aliás, os juízes promotores deveriam passar não um, mas dois anos na cadeia, para avaliar ao que condenam seus semelhantes.”

Libertada em junho de 1937, somente foi readmitida no serviço público em abril de 1944, no Centro Psiquiátrico Nacional, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Ali fundou, em maio de 1946, a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), cujo principal objetivo era estimular a capacidade de expressão dos internos, uma linha terapêutica revolucionária, que, através de trabalhos manuais, pintura, esportes, teatro, música, festas, buscava dar vazão às vivências, ao imaginário e às emoções daqueles que eram colocados à margem pela “sociedade ocidental cartesiana” e tratados como inúteis e incuráveis. Também usou, com sucesso, cães e gatos como coterapeutas.

Expôs os trabalhos artísticos dos internos e fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente. Em 1956, criou a Casa das Palmeiras, clínica pioneira na reabilitação de doentes mentais em regime de externato. Tornou-se a maior autoridade em Psicologia Junguiana no Brasil, mas sempre foi reconhecida pelo grande conhecimento da obra de Freud. Nas décadas de 1960 e 1970, seu trabalho atraiu o interesse de intelectuais e artistas de diversas áreas, resultando em experiências como leituras dramáticas de peças teatrais, exposições, filmes e grupos de estudos.

No período da ditadura, Nise enfrentou perseguições e boicotes, mas continuou denunciando as formas agressivas de tratamento e internação dos doentes e desenvolvendo inúmeras atividades, inclusive como escritora. Faleceu no dia 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, deixando como legado suas práticas e ideias revolucionárias, que acabaram por inspirar a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas no Brasil e no exterior.