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Defender os rios é defender nosso futuro! A luta pela Amazônia continua
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Defender os rios é defender nosso futuro! A luta pela Amazônia continua

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No dia 22 de janeiro, povos indígenas e comunidades ribeirinhas do Baixo e Médio Tapajós iniciaram uma ocupação contra o Decreto n.º 12.600/2025, que permitiria que os rios Tapajós, Madeira e Tocantins sejam concedidos à iniciativa privada. Graças às lutas que foram realizadas em diversos locais do país, o decreto foi revogado, o que deve ser comemorado por nós, já que confronta o processo de privatização dos rios. Ainda assim, essa mobilização que incluiu o bloqueio de estruturas da empresa Cargill e do acesso ao aeroporto de Santarém, no Pará, não foi um fato isolado, mas parte de uma resistência histórica contra o avanço do capital, sob a forma do roubo de territórios ainda conservados da Amazônia.

O movimento indígena já vinha denunciando e exigindo a revogação do decreto desde a COP30, que aconteceu no ano anterior; apesar das promessas do governo de realizar mesas de diálogo, estes povos não foram consultados. Ainda, foi aberta uma licitação para a dragagem do rio Tapajós, que criaria condições para o deslocamento de embarcações de grande porte, colocando em risco a circulação das populações locais, que se relacionam de forma milenar com o mesmo rio, a partir de práticas socioeconômicas e simbólicas. Esse processo também é capaz de afetar profundamente os processos ecológicos da região. Vale dizer que a empresa líder da licitação para a dragagem já foi multada três vezes pelo Ibama.

Além disso, o Tapajós integra o chamado Arco Norte, que é um corredor logístico que liga a produção de grãos do Centro-Oeste aos portos amazônicos, para fins de exportação. Isso escancara que essa disputa nunca foi somente local, mas um projeto extremamente lucrativo para os setores do agronegócio, que desejam um Brasil dependente, cuja economia seja exclusivamente ligada ao setor primário. Ao mesmo tempo, os cursos d’água que historicamente servem à produção e reprodução da vida das comunidades, passa a ser tratado como um meio para acumulação de capital.

Em meio a isso, é fundamental destacar o papel da juventude indígena e ribeirinha nesse levante. São jovens Munduruku, Borari, Arapium e de diversas comunidades do Tapajós que estão na linha de frente das mobilizações, organizando ocupações e bloqueios de maneira firme e aguerrida. É essa juventude que já cresce sob o impacto do mercúrio em suas águas, da violência dos jagunços, do garimpo e das grandes mineradoras estrangeiras, da pressão do agronegócio; ao viverem as contradições do capitalismo, compreendem que defender os rios é defender seu próprio futuro.

Por isso, é fundamental afirmar que os povos indígenas estão e sempre estiveram na linha de frente da defesa do meio ambiente no Brasil. Historicamente, são eles – junto das comunidades tradicionais – que enfrentam madeireiros, garimpeiros, grileiros e grandes projetos de infraestrutura. Portanto, quando os Munduruku e demais povos do Tapajós se levantam, não defendem apenas seus próprios territórios, mas cumprem um papel central de conservação ambiental e de confronto ao modo de produção capitalista. Nesse sentido, os povos originários têm o potencial de ser vanguarda na defesa da Amazônia, enquanto correm o risco de pagar com a própria vida por essa resistência, como foi o caso de Gustavo Wapichana, da região de Amajari em Roraima, que foi encontrado morto com apenas 28 anos de cidade.

Em contrapartida, nessa conjuntura, o governo Lula revela a lógica de conciliação de classes que, na prática, fortalece o agronegócio e as tradings1 internacionais, quando nem sequer cumprem com a Convenção de 169 da OIT e desconsideram a necessária consulta prévia das comunidades envolvidas. Dessa forma, mesmo sob o discurso de transição energética e de valorização da pauta ambiental, se reafirma um modelo de desenvolvimento baseado em uma economia baseada na exportação de commodities, o que inclusive é reforçado no tão aclamado acordo entre Mercosul e União Europeia.

Portanto, a disputa em curso não diz respeito somente a questão ambiental, mas também é uma disputa de projeto de país. De um lado, a Amazônia é convertida em corretor logístico do agronegócio sem considerar qualquer grupo social existente na região; do outro, ela se expressa a partir da defesa dos rios, mas também quaisquer outros ecossistemas, como produtos do trabalho indígena e como base para esses inúmeros povos originários.

A ocupação do Tapajós é uma grande expressão do PODER POPULAR organizado, demonstrando que os povos não aceitarão a pilhagem silenciosa de suas águas, a rapinagem dos nossos recursos no geral, e a dominação da classe dominante sobre o seu território. À medida que a juventude não é espectadora dessa disputa, ela é sujeito central da resistência, cabe assumirmos essa luta como nossa; defender os rios da Amazônia, defender o Tapajós é tarefa de toda juventude comprometida com a soberania, a justiça ambiental, o direito histórico dos povos originários e o poder popular.

TODO PODER AO POVO! O PODER DO POVO VAI CONSTRUIR UM MUNDO NOVO!

O TAPAJÓS, MADEIRA E TOCANTINS PERTENCEM AOS POVOS QUE NELE VIVEM!

CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DOS RIOS E DA AMAZÔNIA!

Coordenação Nacional da União da Juventude Comunista
23 de fevereiro

Foto: Coletivo Apoena


Notas de rodapé

  1. Empresas intermediárias que compram, vendem e transportam mercadorias em larga escala, focando em commodities (grãos, minerais, energia), conectando produtores e consumidores globais. ↩︎