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Breve histórico do Movimento Estudantil e o protagonismo dos comunistas
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Breve histórico do Movimento Estudantil e o protagonismo dos comunistas

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“E o essencial […] é que, com a transformação da velha sociedade capitalista, o ensino, a educação e a instrução das novas gerações que construirão a sociedade comunista não podem continuar sendo o que eram antes”.

Lenin, As tarefas revolucionárias da juventude.

Por Germano Molardi, colaborador do site da UJC-Brasil

Devemos aprender com a história, é o recado que o camarada Lenin dá logo no início do livreto cuja citação serve de epígrafe nesse texto. Na conjuntura em que vivemos, em que beira o irracionalismo e a apologia do a-histórico, retomar tal premissa é fundamental se quisermos propor não só a resistência ao fascismo representado por Bolsonaro, mas também a ofensiva dos trabalhadores e das juventudes rumo a uma nova sociedade e, particularmente a respeito daquilo que falaremos, uma nova pedagogia.

Dito isso, retomemos: não só na conjuntura atual, mas em praticamente todo o período do Brasil republicano, o movimento estudantil foi um setor da sociedade brasileira que reuniu grandiosos esforços para atuar a serviço dos interesses de toda a classe trabalhadora do país. Mais importante ainda: foram as e os comunistas os protagonistas de tais resistências!

Criada em 1927, a União da Juventude Comunista entra na década de 30 com a tarefa de contribuir na resistência à crescente fascistização crescente do governo de Getúlio Vargas e, por isso, participa da Conferência Nacional de Estudantes Antifascistas. A crescente resistência joga os movimentos populares contrários às políticas de Vargas na ilegalidade e, ao final da década de 30, é criada a União Nacional dos Estudantes – UNE. À essa movimentação tem vínculo orgânico a Juventude Comunista do PCB.

Junto ao Partido Comunista Brasileiro, a Juventude é, durante boa parte da sua história do século XX, atuante na ilegalidade, o que comprometia severamente a sua capacidade de atuação. Mesmo assim, o Partido garante expressiva atuação contrária à entrada no Brasil na Segunda Guerra Mundial, já no início da década de 40. Forçado por amplas mobilizações, Vargas se vê obrigado a ceder ao Partido Comunista seu retorno à legalidade. Nessa década, a juventude do Partido se via dispersa e atuava principalmente no movimento estudantil.

A década de 50 é marcada pela defesa da entrada do Brasil à Guerra da Coréia (contra o eixo Berlim-Tóquio-Roma) e também pela campanha d”O petróleo é nosso!”. Com a morte de Stálin e o consequente racha do Partido que dá origem ao PCdoB, alguns militantes da juventude também saem do PCB para conduzir a linha política estreita do novo Partido criado a partir do racha. Se ainda na década de 50, a UJC faz parte da gestão da UNE que conduz a entidade para posições mais progressistas, o golpe empresarial-militar de 1964 reconduz a União Nacional dos Estudantes à ilegalidade, acompanhada nos 20 seguintes anos de repressão, tortura e morte de diversos estudantes, inclusive de militantes da Juventude Comunista do Partidão.

Encerrar o ciclo de ditadura aberta da burguesia, em 1985, também só foi possível junto e com os esforços do movimento estudantil e dos comunistas, cujos esforços para construir mobilizações de massa que tensionassem o fim do já desgastado período de ditadura culminaram na campanha pelas Diretas Já! e pela construção de uma nova Constituinte, que fosse capaz de qualitativamente responder aos anseios dos mais diversos setores da classe trabalhadora que, nos anos anteriores, tinha se visto completamente desassistida por uma gestão do Estado burguês virada de costas para quaisquer interesses que não fossem os da burguesia.

O período que segue ao que chamamos de redemocratização efetivou muito pouco daquilo que constitui os artigos e incisos da Constituição Federal de 1988. Em parte pelas movimentações dos mais diversos setores da burguesia que, diante dos desafios de se adaptarem à nova forma política em construção, conseguiram mobilizar esforços e recursos para a efetivação dos seus interesses na Carta Magna; por outra via, também, em função das limitações inerentes ao pensamento e prática das esquerdas que saíram do processo ditatorial sem que tenha se criado junto às massas dos trabalhadores uma cultura política revolucionária.

Vivenciamos, como juventude, a década de 90, cuja ofensiva neoliberal (e todas as medidas que junto dela vêm) ganhou maior capacidade de atuação sem contrapontos com o fim da União Soviética. Tivemos, em toda América Latina, os primeiros anos do século XXI com governos progressistas, em que a experiência brasileira talvez tenha sido a de menor capacidade de resistir às pressões da classe dominante pela manutenção de seus privilégios. Apesar de ter sido, assim como os movimentos sindicais, um espaço de cooptação dos governos petistas, o movimento estudantil e das juventudes seguiu sendo, nos anos de 2000 em diante, importante criador de coesões sociais populares em defesa dos ataques que também vieram dos governos petistas, como a escalada de violências nas periferias, contra a manutenção dos contínuos aumentos das tarifas de passagem das cidades em que reinam os oligopólios do transporte; também contra as privatizações, entre outros ataques aos direitos dos trabalhadores que também tiveram espaço nos 13 anos de experiência dos desfechos da estratégia democrática e popular.

O golpe de 2016, que retira Dilma Rousseff do cargo de presidenta do país, dá abertura a um novo ciclo de ofensiva burguesa e imperialista no Brasil. Michel Temer e a sua quadrilha toma o poder de assalto para cumprir uma agenda de completa destruição dos serviços públicos, privatizações, contrarreformas que prejudicam os direitos dos trabalhadores. Novamente, o movimento estudantil se fez presente na resistência a esses ataques, dirigindo o maior movimento nacional de ocupações de escolas e universidades já visto no país em 2016 e sendo parte constitutiva das duas greves gerais de 28 de abril e 30 de junho de 2017, cujos efeitos ultrapassaram bilhões de prejuízos às classes dominantes, dezenas de milhões de trabalhadores parados e a capacidade de fazer recuar diversos pontos do texto original da contrarreforma. Deslegitimado por esmagadora maioria da população, Michel Temer não foi capaz de aprovar a Reforma da Previdência.

A eleição do governo fascista de Bolsonaro, no entanto, entrou já no início da sua gestão comprometida com essa reforma. A mídia burguesa, comprometida com os interesses da sua classe, propagandeia a reforma previdenciária como consenso e amplifica as grandes reclamações do mercado a qualquer iniciativa de resistência para aprovar em regime de urgência uma reforma completamente anômica (porque inconsistente com a estrutura produtiva brasileira), ideológica (porque omite dados fundamentais que desmentem a existência de um déficit na Previdência).

O ano de 2019 começa com um desafio fundamental à juventude e ao movimento estudantil, cuja tarefa histórica parece estar de novo em ser impulsionador de movimentos de massa que consigam resistir à ofensiva burguesa e imperialista que quer ver no Brasil e na América Latina, com maior força do que vinha sendo até então, a fonte de onde se retiram as riquezas para que permaneça a miséria. Mais do que resistir, entretanto, devemos junto aos trabalhadores e trabalhadoras apresentar um novo projeto de sociedade, em que a juventude não seja exposta ao escárnio de sofrer com o desemprego sistêmico e estrutural e com a falta de perspectiva de um dia poder se aposentar.

Por isso, nesse início de 2019, quando acontece a 11ª Bienal da UNE e o 15º Conselho Nacional de Entidades de Base (CONEB) da UNE, a UJC participa ativamente desse processo entendendo que o fortalecimento das Entidades Estudantis vai ao encontro da necessária unidade das forças democráticas na resistência contra o fascismo, mas também apresentando o seu programa do Universidade Popular, cujas bases se sustentam na ideia de que a Universidade deve produzir conhecimento junto e para a classe trabalhadora. Algo que, sabemos, só é possível com a construção do socialismo e do Poder Popular, sem que precisamos terceirizar a responsabilidade de dirigirmos, social, coletiva e conscientemente, a nossa realidade.