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Atribulações de Papai Noel, por Graciliano Ramos
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Atribulações de Papai Noel, por Graciliano Ramos

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Batida meia-noite, pingados os primeiros minutos de 25 de dezembro, Papai Noel estirou o braço, apertou na parede o botão do comutador, espreguiçou-se e, chateado, bocejando, sentou-se na cama. A luz da lâmpada iluminou-lhe a cara vermelha e raspada, as sobrancelhas brancas, a calva brilhante.

Ainda uma vez aquela obrigação anual e cacete de enfeitar-se, deixar o cômodo apartamento do arranha-céu e largar-se pelas ruas, a oferecer brinquedos aos meninos. Entrado em anos, começava a enjoar-se da profissão: desejava aposentar-se e fazia tempo que pedira um substituto.

Levantou-se, escancarando a boca, exibindo a brancura sã dos dentes postiços. Dirigiu-se ao banheiro, deitou pasta na escova, ficou algum tempo ocupado com a higiene.

Voltou enxugando-se, os beiços contraídos pelo gosto excitante do dentifrício. Tirou o pijama, vestiu a camisa e as cuecas, arreliado, lançando um olhar rancoroso ao calendário que se pendurava por cima da mesa, junto a um crayon de Portinari. Meteu-se na roupa encarnada, ajeitou a gola de arminho ao espelho e calçou as botas, resmungando: por que era que o Estado Novo não lhe suprimia as funções, conservando-lhe os vencimentos?

Enquanto pensava em redigir algumas notas sobre a reorganização do serviço, pregou a barba de algodão na cara descontente, arrumou no crânio o chinó, tomou o cajado, foi ao quarto vizinho e atirou às costas o enorme saco cheio de brinquedos. Veio de lá, capenga e corcunda, apagou a luz, saiu, trancou a porta, encaminhou-se ao elevador. O ascensorista, incomodado, àquela hora da noite, desceu-o rosnando.

Papai Noel pisou na calçada e, batendo solas no asfalto, andou em muitos bairros, entrou em muitas moradas, distribuindo convenientemente os objetos que levava. Às crianças ricas ofereceu bicicletas, álbuns de figuras, cavalos de rodas, bonecas falantes, automóveis e estradas de ferro em miniatura; às pobres deu espingardas de folha, apitos, balõezinhos, cornetas, bolas de borracha e outras miudezas da casa de Cr$ 4,40. E todas as crianças ficaram satisfeitas: porque as primeiras não saberiam brincar com espingardas e cornetas, as segundas teriam receio de sujar os cavalos e os livros de figuras. A distribuição era razoável: não prejudicava hábitos adquiridos, não atentava contra a natural diferença que há entre os meninos, não estabelecia confusão no espírito deles.

— Porque enfim, refletia Papai Noel, apitos e gaitas valem uma fortuna para o garoto que não possui nada; automóveis e estradas de ferro pouco interesse despertam no pequeno que tem um quarto cheio de trapalhadas semelhantes. Assim, o que devemos fazer é dar coisas preciosas aos indivíduos que não precisam delas e deixar trastes sem valor aos necessitados. Acho que há muita sabedoria nisto.

Infelizmente o saco se esvaziou antes que o ótimo velho percorresse toda a cidade. Por isso não foram visitadas as casas cobertas de lata com remendos de tábuas. Na ladeira de um morro vagabundo os últimos presentes desapareceram — e, ao amanhecer, Papai Noel, fatigado, as pernas bambas, sentou-se ali no chão, disposto a cochilar uns minutos antes de se recolher. As botas apertadas machucavam-lhe os calos, o ombro esquerdo arriava, doído, magoado pela correia do saco.

— Estúpido conservar a tradição quando ela já não convém, rosnou o velho. Estúpido. Um saco, ora vejam. Esfolou-me o ombro. Com a evolução da técnica, deveríamos adotar um caminhão.

Mastigou o aborrecimento, pouco a pouco cerrou os olhos, deixou a cabeça pender e encostou o queixo barbudo ao peito. Ia adormecendo quando numerosas gargalhadas e vozes de espanto o sobressaltaram. Ergueu-se repentinamente e descobriu ali perto vários moleques do morro que iam encher as vasilhas no chafariz.

— Que desordem é essa? — bradou com indignação, agarrando o cajado. Isso lá são modos? Debanda, canalha.

Os rapazes continuavam a rir. E um deles adiantou-se:

— Parece um tipo de carnaval. Donde vem o senhor?

— Donde venho? exclamou o ancião quase engasgado. Ora aí está a consequência do livre exame. Então vocês não me conhecem?

— Diga logo quem é, ganiu um pirralho.

— Era o que faltava, eu descer a dar explicações a esta poeira. Vejo que aqui não há polícia. Vão-se embora, patifes, vão encher os potes no chafariz.

Ameaçou-os com o bordão, mas os bichinhos importunos conservaram-se por ali rondando, sem se afastar muito. Um mais afoito aproximou-se e perguntou baixinho:

— Mas por que é que o senhor não diz o seu nome?

— Está bem, murmurou o funcionário. Com bons modos tudo se arranja. Você se comporta direito, meu filho. Continue assim. A maior das virtudes é o respeito às pessoas e às coisas antigas, percebe? Eu sou uma criatura muito antiga.

— Diga o nome, gritou um rapazinho.

— Santo Deus! resmungou o velho, enjoado. Será possível que ainda não saibam? Que falta de inteligência! Então preciso explicar a vocês que sou Papai Noel?

As risadas dos moleques rebentaram outra vez no morro.

— Que pilhéria!

— Pilhéria não, safadinho. Tu mereces cadeia, para não rires das antiguidades respeitáveis. Estão aí os frutos da democracia.

O cajado ergueu-se, mas, como a algazarra não diminuiu, o digno homem voltou às boas:

— Vamos deixar de barulho. Assim não se compreende nada. Com franqueza, nunca ouviram falar em mim?

— Ouvimos, respondeu um sujeitinho quando a bulha serenou. Mas é tapeação, ninguém acredita nisso.

— Meu caro, você é bem exigente. Está aí de olho arregalado para a minha cara e fala desse jeito. Que diabo! Então não há prova que lhe sirva.

— A culpa é do senhor. Aparece num caminho, sentado na grama, cochilando como um pau-d’água.

— Cala a boca, atrevido. Realmente eu devia ter entrado em todas as casas alta noite e deixado lá qualquer coisa. A luz do sol estraga tudo, é desfavorável ao mistério. Se vocês encontrassem pela manhã um sinal da minha passagem, talvez tivessem um pouco de crença. Tempo desgraçado em que a fé se apoia em bolas de borracha, gaitas e cornetas. Infelizmente a população cresceu demais: não há bola de borracha nem corneta que chegue.

— Que história esquisita ele está contando! soprou um dos moleques. Parece que endoideceu.

— Deve ter endoidecido, concordaram os outros.

E afastaram-se.

— Que insolência! exclamou Papai Noel tentando aprumar-se. Estão insuportáveis. Vá um homem demonstrar alguma verdade a esses bandidos. Afinal insisto na minha ideia de substituir o saco pelo caminhão.

Bocejou, mostrando os dentes postiços:

— Um caminhão certamente.

Pegou o cajado e retirou-se lento, coxeando, aperreado com os calos. Antes de entrar na cidade, refletiu, deteve-se, tirou a barba de algodão e o chinó, meteu no bolso estes atavios noturnos. De gibão, calções e botas altas era ainda bem ridículo, mas não tanto como quando usava cabeleira e barba. Chegando ao edifício onde morava, arrastou-se até o elevador, suspirando:

— É necessário atualizar tudo isto.

Graciliano Ramos
23 de dezembro de 1939