
Durante o Período Regencial, no século XIX, eclodiram diversas revoltas populares em diferentes regiões do Brasil, expressando as profundas contradições sociais herdadas do período colonial e agravadas pelo processo de formação do Estado nacional. Entre essas revoltas, destaca-se a Cabanagem, ocorrida na então Província do Grão-Pará.
Na madrugada de 7 de janeiro de 1835, setores subalternizados da sociedade paraense — negros escravizados e libertos, indígenas e populações pobres que habitavam cabanas às margens dos rios de Belém — organizaram um ataque à capital da província. Tal mobilização foi impulsionada pelas condições extremas de pobreza, fome, doenças e exclusão política que marcavam a vida da maioria da população local, em contraste com o domínio das elites regionais alinhadas ao poder imperial.
Após poucas horas de confronto, os cabanos obtiveram êxito em tomar o controle do governo provincial, resultando na execução do então presidente da província e de importantes autoridades militares do Império. Ainda que, em momentos posteriores, setores da liderança cabana tenham aderido a negocções com o Império do Brasil — o que representou uma ruptura interna no movimento —, a revolta não se limitou à capital. Pelo contrário, a Cabanagem expandiu-se por grande parte da Região Norte, adquirindo um caráter profundamente popular e radical, incluindo ações de libertação de negros e indígenas submetidos à escravidão.
A repressão promovida pelo Estado imperial foi intensa e sistemática. O Exército Imperial empreendeu uma campanha de extermínio contra os cabanos, resultando, segundo estimativas historiográficas, em mais de 25 mil mortes ao longo de aproximadamente cinco anos de conflito. Tal repressão evidencia o grau de violência mobilizado pelo Estado para conter uma insurreição que colocava em xeque a ordem social, econômica e política vigente.
Apesar da derrota militar, a Cabanagem constituiu uma das experiências mais profundas de insurgência popular no Brasil oitocentista. O movimento expressou um projeto de justiça social e autonomia regional, articulado a partir da organização das camadas populares, demonstrando que a participação política da classe trabalhadora, quando estruturada coletivamente, é capaz de desafiar as elites dominantes.
A memória histórica da Cabanagem permanece como referência fundamental para a compreensão das lutas sociais na Amazônia. O legado cabano continua presente nas mobilizações contemporâneas em defesa da autonomia dos povos amazônicos, da justiça social e do enfrentamento às diversas formas de opressão historicamente impostas à região.
Por Leonardo Magalhães, militante da UJC no Rio de Janeiro




