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As consequências do sonho de liberdade haitiano e o significado do dia 20 de novembro
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As consequências do sonho de liberdade haitiano e o significado do dia 20 de novembro

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Por Messias Martins, estudante de História da UFPE, membro do Diretório Acadêmico de História Francisco Julião (DAHISFJ) e militante da UJC-Brasil.

Quanto mais aprendemos sobre a Revolução Haitiana mais nítido fica como o racismo atuou na História e que a intenção daqueles escravizados de se libertarem nunca foi perdoada. Também pudera, os revolucionários haitianos quebraram uma roda que alimentou economicamente todo o Ocidente no século XVIII.

Em toda América escravista os rumores de uma revolução de escravos fazia arrepiar até o cabelo do cu de muito dono de escravos. Em retaliação aos revolucionários haitianos o novo país foi o que sofreu por mais tempo na História embargos das grandes potências. Não só isso, o novo país também se viu obrigado poucos anos depois de proclamada independência a pagar uma indenização milionária à França para continuar independente. Os brancos não perdoaram.

Não bastou a França, Inglaterra, Espanha e Holanda serem humilhados na hora do pau contra os revolucionários haitianos por mais de dez anos de guerra civil, colonial e racial. Mesmo tendo proclamado a independência e encerrado a escravidão no Haiti eles responderiam as consequências de sua luta pela liberdade. Afinal, foi a única revolução de escravos que teve êxito e os obstáculos que teve que superar dão uma dimensão dos interesses que estavam em jogo.

São Domingos (atual Haiti) foi invadida pelos espanhóis e batizada inicialmente de Hispaniola. C. L. R. James destaca no livro Jacobinos Negros que em 15 anos de colonização espanhola a população indígena local foi exterminada passando de um milhão para menos de 60 mil.

Em 1517 o padre Bartolomeu de Las Casas junto com o rei Carlos V organizaram a compra de 15 mil africanos como escravos. Assim o sacerdote e o rei, representando a Igreja e o Estado, começavam o tráfico negreiro e a escravidão na América.

Não demorou para em pouco tempo São Domingos se tornar a colônia mais rica em toda América. O clima e a terra favorecia e em pouco tempo de colonização passou a ser a menina dos olhos da Europa, tanto que a França entrou na disputa e conseguiu tomá-la da Espanha. Hoje, porém, o Haiti é um dos países mais pobres do mundo. A resposta está não em desastres naturais, mas no racismo.

Para se ter uma ideia existem mais desastres naturais no Japão do que no Haiti. Não sei se vocês lembram mais o maior atentado terrorista da História foi quando os EUA jogaram duas bombas nucleares no Japão. Hiroshima e Nagasaki lembram. O Japão se reergueu, inclusive com apoio da comunidade internacional e hoje se estabelece como uma das grandes potências do mundo.

A mesma comunidade internacional, porém, impediu de todas as formas possíveis que o Haiti se desenvolvesse enquanto nação independente e soberana. Era como se não admitissem que negros e negras pudessem escrever a própria História. Não admitem que negros e negras tenham voz, sendo protagonistas e não meros expectadores ou objeto de estudo. Não foi por causa de sua voz ativa que silenciaram Marielle Franco negando a sua família até mesmo um velório de caixão aberto?

O 20 de novembro, aniversário do assassinato de Zumbi, é para nós lembrar que luto é verbo. Me tornei estudante de História e quero ser professor para contar as histórias não contadas e proclamarei aos quatro ventos o sonho de liberdade dos revolucionários haitianos.

Por Zumbi, que teve sua cabeça cortada e exposta em uma festividade na praça da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Recife, noutro 20 de novembro, e por Dandara, que continuou a frente da resistência de Palmares. Por Marielle Franco, assassinada covardemente junto com Anderson, e por Mônica, companheira de Marielle que neste 20 de novembro completou 251 sem respostas. Por Moá de Katindê, assassinado por um eleitor de Bolsonaro no domingo do primeiro turno das eleições. Por Amarildo e seus restos mortais que ainda hoje não foram encontrados, e por Cláudia, arrastada no asfalto em plena luz do dia. Por Roberto, Carlos Eduardo, Wilton, Clayton e Wesley, assassinados em outro novembro com 111 tiros em Costa Barros e por Joselita, mãe de Roberto, que morreu de tristeza meses depois. O mês da Consciência Negra é também o mês da chacina de Costa Barros. Por Rafael Braga, que continua preso por causa de um pinho sol, a cor de sua pele e sua classe social. Por Mário, assassinado pela PM de Paulo Câmara e por Joelma e sua família.

Lembraremos da canção entoada pelos revolucionários haitianos antes de partirem para guerra pela liberdade: Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio té! Canga, mouné de lé! Canga, do ki lá! Canga, li! (“Juramos destruir os brancos e tudo que possuem; que morramos se falharmos nessa promessa.”)