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Saúde Mental e Capitalismo: Para Iniciar um Debate. 
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Saúde Mental e Capitalismo: Para Iniciar um Debate. 

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Por: Phelipe Uchoa*

Uma boa maneira, embora não seja a única tampouco a principal, mas a que da início a construções mais complexas na área, de combater nosso sofrimento psíquico é compreendemos as suas raízes, suas origens, isto é: não ficarmos alheios ao processo de adoecimento mental, compreendendo-o por inteiro. Antes de sequer pensarmos em saídas e intervenções que podemos fazer no âmbito da militância, devemos compreender o debate. Exponho aqui algumas linhas gerais.

A vida humana só é possível socialmente: uma pessoa isolada não conseguiria viver na condição alcançada coletivamente pela humanidade, afinal não produziria tudo o que somente em sociedade é possível produzir. Devemos entender que o desenvolvimento da produção social só foi possível a partir da divisão social de trabalho, da relação dos humanos com a natureza e da relação dos humanos com eles próprios, em outras palavras: relações de produção. Um assalariado qualquer tem um desgaste físico e mental quantitativo e qualitativamente diferente de um burguês (o primeiro tem sua capacidade de trabalho e, portanto, sua reserva fisiológica exploradas a fim de garantir acumulo de riqueza e a reprodução da vida do segundo), além de ter acesso a produção social muito mais reduzido implicando uma vida muito mais precária.

Uma pessoa pertencente à classe condenada a sobreviver unicamente com a venda da sua capacidade de trabalho terá um maior ou menor desgaste físico e/ou mental e um maior ou menor acesso à produção social na dependência de sua inserção na produção e no consumo. Sob o capitalismo, os trabalhadores (proletários ou não) são reduzidos a sua mera capacidade/força de trabalho, que é a mercadoria fonte de toda a acumulação capitalista. Isso significa que, sob o capitalismo, os serviços de saúde tem um principal objetivo: manter os corpos dos trabalhadores MINIMAMENTE saudáveis para que estes mantenham sua capacidade de trabalho suficientemente íntegra. Não é a toa, então, que os serviços de saúde se baseiam a partir do paradigma biologicista, no máximo biopsicossocial: são teorias que propõem práticas de saúde cuja única função é amenizar o sofrimento e não acabar com a fonte dele.

Mas afinal, sendo a doença a manifestação de um sofrimento físico/psíquico, qual sua origem? O sofrimento humano, seja ele físico ou mental, que socialmente denominamos de doença, é determinado centralmente pela relação de produção/ de trabalho impostos às vidas dos trabalhadores.

As crises de acumulação do capitalismo levam a uma reestruturação produtiva cujo principal condicionante é a necessidade de recompor as taxas de lucro do capital em um novo ciclo de acumulação. Nesse processo, ocorre a ampliação relativa da mais-valia através da crescente inovação tecnológica expressa na automação; além disso, desenvolve-se uma ampliação absoluta da mais-valia através de relevantes transformações nas relações de trabalho, por exemplo: ampliação das jornadas de trabalho, tanto formais quanto informais, expressas no trabalho doméstico; intensificação do trabalho através do aumento de tarefas (multifuncionalidade, exemplo clássico: motorista de ônibus que também é cobrador); imposição de metas etc.

As consequências dessa reestruturação produtiva, que implica intensificação da exploração da capacidade de trabalho do trabalhador e, portanto, de sua reserva fisiológica e estabilidade mental, não poderiam ser mais nefastas no que tange a produção de sofrimentos físicos e psíquicos, por exemplo: a ampliação de cargas psíquicas – sobrecarga de tarefas, pressão por metas, assédio –, incluindo a alienação no trabalho, incorre em aumento significativo do desgaste e sofrimento psíquico. Não a toa, em épocas de crise, aumentam as incidências de transtornos de ansiedade, suicídios, depressão.

A produção de mecanismos que consigam prover alívio desse sofrimento é uma necessidade social, pois é preciso, para que a massa trabalhadora continue produzindo sob a exploração da burguesia, que os corpos dos trabalhadores permaneçam minimamente vivos e funcionais; daí o vertiginoso aumento da produção e venda de medicamentos psiquiátricos contra depressão, ansiedade além das psicoterapias. Isso não significa, porém, que devamos repudiar totalmente esses métodos e classificá-los como “anestesiadores da consciência”. Por bem ou por mal, essas intervenções mantêm as pessoas vivas e aliviam seus sofrimentos. Há o que aproveitar desse acúmulo teórico e prático. Ao mesmo tempo não é possível pensar em intervenções de caráter anticapitalista e revolucionário na saúde mental da coletividade sem levar em consideração a fundamental importância de se organizar coletivamente na luta contra o capital e pela sua superação. Como muito bem observou Lênin, em seu texto “Sobre as greves”:

“Quando os operários enfrentam sozinhos os patrões continuam sendo verdadeiros escravos, que trabalham eternamente para um estranho, por um pedaço de pão, como assalariados eternamente submissos e silenciosos. Mas quando os operários levantam juntas suas reivindicações e se negam a submeter-se a quem tem a bolsa de ouro, deixam então de ser escravos, convertem-se em homens e começam a exigir que seu trabalho não sirva somente para enriquecer a um punhado de parasitas, mas que permita aos trabalhadores viver como pessoas.”

A saúde mental dos trabalhadores e militantes só pode ser garantida numa perspectiva coletiva e politicamente organizada. Impossível fazer isso forma autônoma e individual.

*Militante da UJC-Brasil em Campinas-SP.