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PÁGINA DO DIÁRIO DE PORECATU
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PÁGINA DO DIÁRIO DE PORECATU

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Conto escrito pelo camarada Teylor Kokot

O camarada Teylor Kokot, militante da União da Juventude Comunista (UJC), escreveu o conto “Página do Diário de Porecatu”. O conto foi escrito através do gênero ficção especulativa, onde são identificados alguns elementos que não são do realismo. O conto traz alguns armamentos quânticos, armaduras de biogenese, como se fosse um ambiente futurista, porém o texto permanece bem fiel à parte geográfica da história da Revolta de Porecatu, como as cidades e regiões do Paraná e o nome de alguns morros e rios que cortam o estado.

Para quem não conhece, a Revolta do Quebra Milho ou Revolta de Porecatu, ocorreu no vale do Rio Paranapanema, no então município de Porecatu, no norte do Paraná, em fins da década de 1940 e início da seguinte. Saiba mais 👉🏾 https://ujc.org.br/8300-2/

LEIA E DIVULGUE PARA TODAS E TODOS!
VIVA ÀS/AOS ARTISTAS DA CLASSE TRABALHADORA!
VIVA A LUTA DAS TRABALHADORAS E DOS TRABALHADORES PARANAENSES!
PELO PODER POPULAR NO RUMO DO SOCIALISMO!

Confira o conto na íntegra:

Mandioca, batata, arroz e mel. E cana. Carroça puxando o arado. Arroz, feijão preto, batata-roxa, revólver e fuzil. Hoje o dia foi lento na clareira, já que o Brasil continua o mesmo. Antes do sol nascer saíram dois dos nossos em direção à metrópole, ao leste, porque a situação está se acirrando na Frente Planaltina e precisam de nossas lideranças por lá… Eu não sei exatamente como estão os companheiros e companheiras de lá, mas eu não preciso saber muito sobre tudo. Eu sou leal, acredito em nossas decisões não como quem crê em deuses, mas sim como quem segura uma rocha com as próprias mãos. E estou aqui, como a maioria de nós, porque o Brasil continua o mesmo.

Essa terra manchada de sangue nos pertence, e é por ela que aprendemos a lutar essa guerra. Estaremos aqui, firmes, mesmo que a maioria de nós se renda. Continuarei ajudando a cozinhar o almoço e a janta, como faço todos os dias para alimentar as famílias daqui. Não permitiremos que nossas crianças se esqueçam do quão limpa era a água do rio Paranapanema que desce a montanha… lutaremos até a morte para que todos se lembrem de como brilhavam as estrelas do céu. Continuarei arrumando a cozinha, consertando as ferramentas e se preciso limparei até as fezes de minhas companheiras e de meus companheiros para que continuem firmes.

E só esse mês, quantas bombas AlPaCO-HI foram jogadas aqui? Mísseis de naftenato de alumínio, cápsulas de Li-hiproxila de cobalto que caem dos aviões e fazem chover ácido por noites inteiras. Nós as chamamos de “Bombas de Oito”, porque demoram oito segundos para explodir depois de acionadas. São formuladas em laboratórios e galpões que ficam muitas léguas a noroeste, depois do Morro do Diabo, no planalto Sul. Eu já vi as instalações físicas do exército uma vez que fui em reconhecimento até a divisa com o Mato Grosso do Sul… Usinas de potássio e eletrólise, extração de minério de ferro, cobalto enriquecido com orgônio, próteses biônicas sendo produzidas em escala industrial. Um complexo militar gigante para proteger o estômago da Besta, é claro. A minha vontade era atear fogo naquilo tudo, mas a nossa tarefa era tática e imediata: plantamos alguns sensores de calor, poucas câmeras e microfones, antes de voltar pelas margens do Ribeirão Santo Inácio.

Porque se o Brasil continua o mesmo, as coisas tendem a piorar… O fogo não é violento por natureza, apesar de incontrolável. Esse fogo que queima nossas árvores e destrói nosso solo não é daqui, é trazido para cá. E esses metais que intoxicam nossa mata e sufocam nosso rio são trazidos pelas mesmas mãos que matam os animais, violentam as mulheres e usurpam nossa terra. Pés que nunca pisaram descalços nessa terra vermelha. Corações mortos, vazios, que não saciam sua fome de sangue, ouro e território, comandando a maior máquina de guerra da história, um moedor de gente, esse monstro de metal que engole tudo a sua frente.

E é por isso que não quero paz, não quero justiça… Quero vingança. Quero que saibam desde já que aqui cheguei sem ter sequer uma peça de roupa para passar o inverno e que aqui me deram casacos e chá quente. Que aqui aprendi primeiro a cozinhar a refeição, e depois a manejar um fuzil. Que me ensinaram então o alfabeto para que eu pudesse ler Marx, Lenin e Che, e depois me ensinaram a escrita que verte nesse diário. Foram meus companheiros e companheiras que me ensinaram a solidariedade, a perspicácia e o respeito. Me ensinaram a mística da terra para que eu soubesse preparar o cultivo e a colheita, a honrar o sol e a chuva, a conhecer os limites do solo e a agradecer pelo calor e pelo frio. Conheço cada platô, vale, desfiladeiro e corredeira por aqui, e vou utilizar a terra para protegê-la; porque se depender de nós o Brasil não continua o mesmo.

Saibam vocês que podem ocupar o continente com exércitos de biogênese e armamento químico, pois nós resistiremos mesmo que usando pedras lascadas se acabarem as balas dos fuzis. Que continuaremos produzindo comida, moradia, escola e armamento para todas e todos daqui. Escrevo esse diário para registar que podem jogar enxofre em nosso solo e mercúrio em nosso rio, mas que não conseguirão nos tirar daqui mesmo depois da morte. Permaneceremos lutando com firmeza e educando com honestidade. E quando morrermos, tranquilos na velhice, teremos orgulho de ter dedicado a vida ao nosso país. Nossa alma aqui será eterna porque nossos corpos irão se decompor junto a esta terra.