c O espectro se torna realidade na Anhembi Morumbi: 150 professores demitidos. – UJC
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O espectro se torna realidade na Anhembi Morumbi: 150 professores demitidos.
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O espectro se torna realidade na Anhembi Morumbi: 150 professores demitidos.

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Por: Juliano Baltazar*

Imagem: Eduardo Anizelli 

 

Não tem apelo pro inferno, nem oração lá pra cima Todo mundo já era é uma contagem regressiva (Estamos de Luto – Facção Central)

O que antes era um fantasma na Universidade Anhembi Morumbi, mantida pelo grupo estadunidense Laureate, se transforma em realidade e faz cabeças rolarem. O saldo são 150 professores demitidos segundo o Sinpro-SP [1]. O clima já era tenso na universidade desde que a FMU iniciou seu processo de “reestruturação” (precarização do ensino) demitindo 220 professores[ 2] e mudando a grade curricular de forma autoritária, sem qualquer diálogo com os estudantes, nem sequer operaram as mudanças a partir dos ingressantes do primeiro semestre, alunos que começaram com uma grade terão que terminar em uma nova, muito mais precária. 

Os corredores da Universidade sussurravam angustias, de professores e alunos que sabiam que algo estava por vir, mas a Universidade não fez qualquer contato, esperando aos 45’ do segundo tempo para que coordenadores de alguns cursos oferecessem alguma informação referente a mudança de grade e ainda assim, poucas informações puderam ser reveladas.

A Laureate é um dos grandes conglomerados educacionais, que forma o “grupo dos 8”, que juntos detinham 27,8% do mercado de educação superior no Brasil em 2014[3]. Esses oligopólios tiveram grande crescimento no período petista, principalmente no primeiro mandato do governo Dilma entre 2010 e 2014, no qual esses grupos passaram de 12,8% para os 27,8% dos alunos. No mesmo período, a transferência de dinheiro dos cofres públicos para o G8 saltou de R$ 880,3 milhões por ano para R$ 13,7 bilhões, alta de 1.456%.

Porém, o ponto mais alto é também o início de sua queda. Entre 2014 e 2016, as universidades privadas acumularam uma queda de aquisição de alunos em cursos presenciais de 10,1%, assim como como pela primeira vez em 25 anos, o número de alunos na rede particular de ensino superior teve uma diminuição de 16,5 mil alunos em relação a 2015 [4].

 A crise econômica que atingiu o país, no qual uma das dificuldades enfrentadas é o endividamento das famílias e a queda na transferência de recursos públicos para os tubarões do ensino, tornou programas como o FIES pouco interessantes para seus negócios, como diz um diretor da Kroton “O Fies deixou de ser tão relevante na captação de matrículas e menos rentável […]” [5]. Tal cenário diminui a possibilidade de realização do valor produzido pelas universidades, o montante de capital investido não traria o retorno desejado, a taxa de lucro dos capitalistas da educação caiu como um raio. No pico da competitividade, há a necessidade de cada vez maiores investimentos para não serem esmagados por seus concorrentes, como a Estácio que já está temperada e no ponto para ser devorada pelo Grupo Kroton [6], aguardando um cenário propício em que o Cade seja pressionado a aceitar a fusão. A Kroton como líder do setor, puxa os demais concorrentes a realizar medidas necessárias para se manterem na concorrência. Diante disso vemos a própria Estácio supracitada, demitindo 1200 professores para contratar professores por hora [7] e a Metodista com 60 professores demitidos [8]. É tempo de recuperar a taxa de lucro, não há espaço para sentimentalismos ou concepções sobre modelos educacionais transformadores. O burguês é pragmático, a frieza dos cálculos é o motor de sua conduta cujo o único objetivo de sua atividade é lucrar no fim do ciclo, sonhos, projetos de vida são dilacerados quando se fala em lei do valor, em lógica do capital. O adeus aos funcionários vem por telegramas com a indiferença de uma máquina, sem qualquer explicação mais profunda.  

Voltando a Laureate, a conjuntura lhe obrigou a fazer grandes investimentos para ampliar seu negócio. Um deles foi a compra da FMU em 2013 por R$1 bilhão [9], ampliando seu número de alunos para 200 mil no país na ocasião. O Brasil é o país que o grupo detém mais universidades, totalizando 12 [10], seguido de Chile e Espanha com 5 campi cada. Brasil e Espanha viveram períodos conturbados por conta da crise, chegando a um nível de desemprego astronômico, principalmente entre a juventude. O país europeu por exemplo chegou marca de 5 anos com desemprego acima dos 20% [11]. O Chile, embora em situação mais tranquila em relação aos outros dois, também viu uma queda no PIB por conta da menor aquisição de cobre (principal produto vendido pelo país) para a China [12]. Seu principais países de atuação estão em uma situação instável. A compra da FMU pesou nos cofres do grupo, ao ponto de ter que abrir capital na bolsa de Nova York [13]. O endividamento do grupo passa dos US$ 4 bilhões.

Com um cenário tão desfavorável, a abertura de capital não foi o suficiente, foram necessários mais cortes para a tentativa de recuperação da taxa de lucro. A economia brasileira está estagnada, não há grandes perspectivas de uma melhora imediata no setor, o objetivo da “modernização” como chamam o processo de cortes, é explorar ao máximo as novas leis trabalhistas, diminuir salários (professores mais antigos tinham uma hora aula maior, em certos cursos a diferença é quase o dobro), e colocar EAD onde for possível.

O que está no centro da questão e dos problemas aqui expostos, é a lógica do capital. A partir de que um produto se torna mercadoria, passa a ter um preço. Quando você se torna produtor de mercadorias, seu principal (único) objetivo é vende-la. A preocupação com a qualidade da mercadoria é secundária, em tempo de monopólios e oligopólios, a qualidade é puxada para baixo, principalmente em setores onde as pessoas necessitam adquirir o produto, e o curso superior acaba sendo uma grande necessidade, já que está impregnado no imaginário (o que não é irreal ou mentira) das pessoas que o curso superior é o passo para uma melhoria de vida. Educação é mercadoria assim como quase tudo na sociedade capitalista. Somente uma revolução na estrutura da sociedade é capaz de reverter essa lógica, abrindo a possibilidade de se criar uma nova universidade, popular e a serviço da população em geral e não do mercado dominado por classe minoritária. Somente nessas condições teremos uma educação voltada para os problemas reais da população, onde o único objetivo será a criação de conhecimento e não de lucro.

*Militante da UJC-São Paulo

[1] https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/12/20/anhembi-morumbi-demite-150-professores-diz-sindicato.htm

[2] http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2017/07/1899176-fmu-demite-220-docentes-e-preocupa-alunos-com-anuncio-de-reformulacao.shtml

[3] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,apenas-8-grupos-privados-concentram-27-8-das-matriculas-do-ensino-superior,10000055857

[4] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,com-crise-cai-numero-de-alunos-na-rede-particular-de-ensino-superior-no-pais,70001957789

[5] http://www.valor.com.br/empresas/5224721/kroton-traca-meta-para-os-proximos-10-anos

[6] https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/cade-reprova-compra-da-estacio-pela-kroton-educacional.ghtml

[7] https://www.cartacapital.com.br/educacao/Apos-reforma-trabalhista-Estacio-demite-para-chamar-professor-intermitente

[8] https://www.cartacapital.com.br/educacao/por-que-as-universidades-particulares-estao-demitindo-professores

[9] http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,grupo-americano-dono-da-anhembi-morumbi-compra-fmu-por-r-1-bi,162651e

[10] https://www.laureate.net/OurNetwork

[11] https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/28/internacional/1461825960_689667.html

[12] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42005112

[13] http://www.valor.com.br/empresas/4841832/dona-da-anhembi-morumbi-entra-com-pedido-de-ipo-na-nasdaq