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Impressões Sobre a Luta de Classes na Grécia
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Impressões Sobre a Luta de Classes na Grécia

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Por Thiago Netto, militante da UJC

No final de abril/2016 estive na Grécia para conhecer de perto a realidade do país e o cotidiano dos gregos em meio à crise econômica, e, nesse meio tempo, tive a oportunidade de me reunir com camaradas do Burô de Relações Internacionais da KNE, a Juventude do Partido Comunista Grego (KKE), em uma das dezenas de sedes que o Partido tem espalhadas pela cidade. Em um antigo hotel no centro histórico da capital grega, hoje plenamente reformado e fumegando com o entra e sai de militantes e materiais do partido, tive a oportunidade de conversar com os camaradas gregos a respeito da conjuntura no Brasil e na Grécia e pude acompanhar os preparativos para as comemorações do Dia do Trabalhador, que no país viriam a ocorrer somente na semana seguinte em função da Páscoa Ortodoxa, feriado extremamente importante nos países que seguem a religião cristã ortodoxa, que neste ano coincidiu com o primeiro de Maio.

Durante o encontro tive a oportunidade de conhecer de perto os efeitos da crise econômica no cotidiano dos gregos e de ver o papel que tem desempenhado a juventude do KKE na luta contra a austeridade. Atualmente na Grécia o desemprego beira a taxa dos 25%, chegando até 50% entre os jovens, as relações de trabalho têm sido flexibilizadas, a saúde e a educação têm sido privatizadas, aumentando o índice de evasão escolar, ao passo que as empresas gregas que participam do mercado de ações declararam um aumento de 291% nos lucros na primeira metade de 2015. [1]

Na esteira destes acontecimentos, o governo SYRIZA-ANEL tem aplicado de maneira bastante submissa o programa imposto pelos credores internacionais e pela União Europeia, com medidas e reformas cada vez mais asfixiantes que firmam a lógica do SYRIZA em enfrentar a crise econômica com mais exploração, assim como mostra a aprovação do mais recente pacote de medicas de austeridade, nesta segunda-feira (09/05), que prevê corte de mais de 5 bilhões de euros no próximo ano através da reforma tributária, que aumentará substancialmente os impostos sobre a cesta básica, e através da reforma previdenciária, que ataca frontalmente a seguridade social no país.

O último conjunto de medidas antipopulares do governo SYRIZA-ANEL não surpreende. Apesar de terem sido eleitos através de uma plataforma anti-austeridade, logo nos primeiros meses de governo, o primeiro-ministro Alexis Tsipras já havia mostrado a tônica de seu programa político: cortes de benefícios sociais e mais austeridade com o objetivo de conseguir mais empréstimos dos credores internacionais. Nesta última semana, nem mesmo os deputados da ala da ‘extrema-esquerda’ do SYRIZA se opuseram à aprovação do novo pacote de medidas, o que reflete a política adotada pelo partido desde que chegou ao poder, marcada por cortes orçamentários cada vez mais agressivos, empurrando o país à submissão completa aos ditames da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em relação à política externa, a Grécia passa por um momento em que o país tem se envolvido cada vez mais em disputas imperialistas capitaneadas pela OTAN. Recentemente as forças armadas gregas participaram de exercícios militares em conjunto com Israel na região do mediterrâneo e o país tem contribuído cada vez mais para o aumento das tensões com a Turquia no Mar Egeu, região de disputas históricas entre ambos os países, principalmente após 1974 com a ocupação militar turca no Chipre.

Para contribuir com a escalada das tensões, uma frota de navios da OTAN se encontra no Mar Egeu com o pretexto de patrulhar as águas da região para diminuir o fluxo de imigrantes do Oriente Médio para a Europa, entretanto, é clara a intenção da OTAN em militarizar a área e neutralizar o aumento da presença russa no mediterrâneo em função do conflito na Síria, sendo assim cada vez mais real a possibilidade do envolvimento da Grécia em um possível confronto interimperialista futuro.

Além disso, a Grécia se encontra no epicentro da crise humanitária em relação aos imigrantes provenientes do Oriente Médio e do Norte da África, onde as intervenções militares disfarçadas de rebeliões populares patrocinadas pela União Europeia, Estados Unidos, Turquia e pelas monarquias do Golfo Pérsico têm deixado um rastro de destruição, como na Líbia e mais recentemente na Síria. Neste contexto, o KKE e a KNE têm sucessivamente promovido ações de solidariedade com os refugiados. Entretanto, o partido neonazista Aurora Dourada, que tem voltado lentamente ao cenário político no país após a prisão de seus principais quadros há mais de um ano, tem explorado a situação dos refugiados para angariar apoio com a sua retórica xenofóbica e racista.

Com o agravamento da submissão econômica do país aos órgãos financeiros internacionais e com a tendência ao envolvimento da Grécia em disputas imperialistas no futuro, o KKE desempenha um papel fundamental na organização dos trabalhadores gregos. Desde o início da crise econômica no país, o Partido (KKE), a sua Juventude (KNE) e a Frente Militante de Todos os Trabalhadores (PAME), entidade sindical ligada ao Partido Comunista, têm apontado que o caminho para o enfrentamento da crise passa pela superação do sistema capitalista, e não através da gestão da crise através de reformas e muito menos através de negociatas com a Troika. Os comunistas gregos têm sucessivamente denunciado o caráter massacrante das negociações com a União Europeia, FMI e com o Banco Central Europeu, e, ainda mais importante, têm denunciado desde antes das últimas eleições gerais o papel oportunista e conciliador do SYRIZA, que de início empolgou inúmeros socialistas incautos ao redor do mundo, mas que tem levado cada vez mais a cabo todas as medidas impostas pelos credores internacionais, mostrando, de fato, a que veio.

Nesse contexto, o KKE tem atuado como pedra angular na resistência popular ao governo SYRIZA-ANEL. Hoje na Grécia não há nenhum outro partido ou organização política que consiga mobilizar nas ruas de maneira tão enérgica as mais diversas categorias, desde estudantes e operários aos pequenos camponeses e marítimos, esta última extremamente essencial na economia grega, como mostra a participação massiva na greve geral de 48 horas convocada pela PAME na última semana e na marcha do Dia do Trabalhador, comemorada este ano uma semana após a data histórica, no dia 08 de maio.

O sucesso dessas mobilizações reflete a confiança e o prestígio que possui o Partido entre os trabalhadores gregos. Além disso, a presença do KKE e da KNE nas ruas da capital grega é palpável, principalmente à medida em que nos afastamos das áreas turísticas e nos aproximamos dos bairros operários, nos quais cartazes e pinturas espalhados pelos muros de Atenas conclamam os gregos a resistirem ao avanço do capital, enquanto o Rizospastis, jornal oficial do Partido, é onipresente em quase todas as bancas de jornal da cidade.

Pode-se esperar para o futuro da Grécia um recrudescimento da luta de classes, principalmente com a continuidade do programa de austeridade proposto pelos órgãos financeiros internacionais e aplicado fielmente pelo governo SYRIZA-ANEL. Entretanto, os desdobramentos dessas medidas são imprevisíveis, já que o futuro econômico do país não depende da classe dominante local, e sim dos abutres em Bruxelas responsáveis pelo ‘resgate econômico’ do país helênico. Enquanto isso, a classe trabalhadora grega continua sendo esmagada pelas reformas cada vez mais agressivas aprovadas pelo governo entreguista de Alexis Tsipras, que leva a Grécia perigosamente em direção a um conflito imperialista. Diante deste panorama, é essencial que prestemos a merecida solidariedade ao povo grego e, em especial, aos nossos camaradas do Partido Comunista Grego, que desde o princípio deste período de crise têm apontado de maneira firme e coerente o caminho da ruptura com o capital.

FONTES

[1] – http://int.kne.gr/index.php/2011-10-09-14-20-07/234-odigitis-organ-of-the-central-council-of-kne-international-edition-february-2016