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Fórum Pela Paz na Colômbia
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Fórum Pela Paz na Colômbia

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Guilherme Guedes

O Fórum Pela Paz na Colômbia, ocorrido nos dias 24, 25 e 26 de outubro em Porto Alegre, foi uma experiência enriquecedora para toda a militância que construiu e participou do encontro, obra do conjunto dos povos de nosso grande continente americano em prol do inalienável e irredutível objetivo da paz com justiça social, democracia e soberania. Diversos militantes do PCB e da UJC, de diferentes estados, estiveram presentes.

Em nossa condição de povos historicamente oprimidos pelo capitalismo e o imperialismo, fragmentados territorialmente e desarticulados pela violência ou a simples submissão de nossas vidas à lógica do mercado e da superexploração, é uma conquista que tenhamos nos reunido com grande número de militantes, das mais variadas organizações políticas e diferentes países, para debater alternativas políticas ao conflito armado que assola uma de nossas nações irmãs, consequência da reação das oligarquias e do grande capital à secular luta de seu povo pela liberdade e contra a escravidão capitalista.

Cada experiência da luta dos povos deve ao mesmo tempo nos servir como uma lição e como uma lente, para que enxerguemos as alternativas que se colocam em seu decorrer, e deveremos estar sempre à altura das tarefas que surgirão, essenciais à realização de nosso objetivo da construção do Socialismo.

No Brasil, onde o fim de uma longa ditadura burguesa em meio a grandes manifestações de massa deu lugar à hegemonia conservadora, abrindo espaço à prática de Estado neoliberal e a formas distintas das anteriores pelas quais o imperialismo influencia governos e a lógica econômica do país, a possibilidade de organizarmos um encontro como o que se passou, ocupando o espaço cedido tanto pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul quanto por diversos sindicatos nas proximidades, demonstra que são muitas as possibilidades de articulação e reagrupamento das forças de esquerda e progressistas no país, inclusive junto a organizações e movimentos populares de nações irmãs que vivem problemas semelhantes aos nossos.

Em países como Venezuela e Bolívia, onde o imperialismo também se faz presente, o forte apoio de massa ao reordenamento do Estado para a promoção de formas não capitalistas de produção, o governo participativo e a solidariedade ativa às nações com novos projetos societários, apoio este que se estende às lutas dos povos das que são ainda pressionadas, invadidas e mutiladas pelo imperialismo e conta com o suporte dos setores mais progressistas das Forças Armadas, tem impedido a burguesia fascista de retornar ao poder com tentativas de golpe. É necessário a estes povos, bem como a outros em situação semelhante, a reafirmação constante da necessidade de se produzir novos avanços rumo às transformações sociais necessárias, bem como do repúdio geral e repressão intransigente aos setores reacionários que buscam tanto impedi-las quanto anular as que já existem.

Na Colômbia a situação é muito mais complexa. Lá o Estado, por meio de sucessivos governos fantoches do imperialismo, se utiliza de todos os métodos disponíveis, legais e ilegais, para impedir a ascensão da classe trabalhadora e a promoção de formas de produção alternativas às que geram superexploração e subordinação ao capital monopolista. Nenhuma das práticas adotadas, como os acordos comerciais que favoreceram as mercadorias e investimentos de empresas das nações dominantes (especialmente EUA e União Européia), o extermínio sistemático de sindicalistas e militantes políticos, bem como da população camponesa, pelas Forças Armadas e organizações paramilitares, ou a presença das tropas, bases militares e serviços de inteligência norte-americanos com a finalidade de espionar, perseguir e aniquilar as guerrilhas e o conjunto da militância democrática e de esquerda no país, tiveram êxito em calar um povo que jamais se rende. Pelo contrário, as lutas populares têm avançado cada vez mais na Colômbia.

O Movimento Político Marcha Patriótica, composto por trabalhadores e estudantes da cidade e do campo, que no dia 9 de abril último levou 1,5 milhão de pessoas às ruas para uma marcha pela paz, vem defendendo propostas que se contrapõem diretamente ao conservadorismo e à influência das grandes empresas multinacionais sobre o país, exigindo amplos direitos democráticos, como os de greve e manifestação, a autodeterminação das populações camponesas e indígenas, a ampliação dos direitos trabalhistas e reconhecimento da categoria dos trabalhadores do campo, e ainda o respeito e amparo legal à diversidade étnica, de gênero e orientação sexual. Propostas estas que não são fins por elas mesmas, mas fatores de articulação e solidariedade mútua de um entre muitos povos em prol da superação da ordem econômica capitalista, onde as contradições geradas no interior das relações sociais de produção se expressam em perdas econômicas para os trabalhadores e mais guerras de rapina das nações dominantes contra as mais fracas.

Sobre o Fórum, muito haveria a se falar, pela expressiva participação de militantes, intelectuais e artistas de grande destaque na esquerda mundial e a quase infinita variedade de temas abordados que disso resultou, em mesas que ocorriam simultaneamente umas às outras. Destacarei, de certo modo de maneira injusta para com o conjunto do Fórum, alguns dos momentos marcantes que presenciei na ocasião:

1 – A videoconferência com os negociadores de paz reunidos em Havana, com a ELN e a ex-senadora e líder da Marcha Patriótica Piedad Córdoba. O fato de, entre os negociadores, apenas as FARC terem aceito participar ao vivo da videoconferência, respondendo solicitamente às questões colocadas pelos presentes ao auditório principal da Assembléia Legislativa, confirmou a importância do heróico e imbatível Exército do Povo no contexto das atuais negociações de paz. Exatamente como afirmou o secretário-geral de nosso partido, Ivan Pinheiro, em uma das mesas do Fórum, as FARC conseguem abrandar a falta de abertura da mesa de negociação ao conjunto da sociedade colombiana (não por menos as reuniões ocorrem em território estrangeiro), difundindo o conteúdo das negociações a todo o mundo, buscando assim contemplar as propostas de transformação política e social pensadas pela totalidade do povo colombiano, não apenas por dois atores dicotômicos em cujas divergências políticas se expressa apenas parte das causas do conflito.

O importante papel desempenhado pelas FARC foi reafirmado no dia seguinte ao término do Fórum, quando diversos veículos da imprensa internacional anunciaram um acordo de reforma agrária integral surgido a partir das mesas de negociação, que contempla diversas variantes fundamentais à sobrevivência da população do campo, como a ampliação do acesso à terra, a assistência técnica, a garantia de serviços públicos básicos à população do campo e a demarcação e formalização das propriedades dos camponeses.

2 – Sem me ater a alguma ocasião específica, ao longo do Fórum foram inúmeras as ocasiões em que se deu atenção ao problema da integração latino-americana, com ênfase na forma como muitos dos Estados do continente, que não apenas o colombiano, servem aos interesses do imperialismo direta ou indiretamente.

Não nos intimidamos diante da presença de um amplo setor governista nos espaços de discussão do Fórum e denunciamos os acordos militares entre Brasil e Colômbia, onde nosso governo forneceu à aeronáutica do país vizinho aviões de guerra responsáveis por inúmeros massacres nas zonas de conflito, vitimando fatalmente dezenas de pessoas. Novamente a fala de nosso camarada Ivan Pinheiro no sentido foi muito bem recebida pelo público da mesa de que participou. Como também o foi a fala da representante das Mães e Avós da Praça de Maio na plenária final do dia 26, que ressaltou a importância de se exigir a retirada de todas as tropas invasoras do Haiti, pois estas apenas têm levado violência e opressão para o povo haitiano, em nada contribuindo para a melhoria de suas condições de vida e para a reconstrução do país, devastado por um grande terremoto há três anos atrás.

3 – A declaração final do fórum, elaborada a partir dos relatórios das discussões das mesas e aclamada por todos os presentes. Não há sentimento melhor do que saber que meu país se tornou, naqueles três dias, um terreno de solidariedade às lutas de todos os povos, contra a devastação imperialista e pela solução política de um conflito armado que já atravessa mais de uma metade de século. Solução que passa inevitavelmente por amplas transformações estruturais na sociedade colombiana a favor dos trabalhadores, pelo fim da intervenção militar estadunidense e retirada de suas bases militares do país e pela contenção e desarmamento das organizações paramilitares, hoje responsáveis pelos maiores massacres contra militantes políticos e camponeses, amparados por um sistema político viciado e corrupto, mero instrumento coercitivo das classes dominantes locais e do imperialismo.

O Fórum Pela Paz na Colômbia demonstrou, como em diversas ocasiões na História, que a paz pode e deve ser parte de uma estratégia revolucionária, na medida em que só pode existir como o resultado da vitória do proletariado contra a burguesia no plano mundial. O entusiasmo que demonstraram nossos camaradas colombianos durante todo o evento, ocupando as plenárias e entoando emocionantes palavras de ordem, é uma importante demonstração de estarmos diante de uma classe trabalhadora avançada, que se vê à altura das tarefas que hoje se lhe colocam.

Viva o Fórum Pela Paz na Colômbia!

Viva a luta do povo colombiano!

Guilherme Guedes – Militante do PCB e da UJC e participante da Agenda Colômbia-Brasil em São Paulo, capital.

São Paulo, 31 de maio de 2013.