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Em defesa da Ciência e Tecnologia!
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Em defesa da Ciência e Tecnologia!

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Por Gabriel Zaffari, militante da UJC-Brasil.

A CAPES, recentemente, anunciou que todas as bolsas de pós-graduação poderiam ser extintas a partir de agosto de 2019 junto à suspensão do pagamentos de 105 mil bolsistas que participam do PIBID (Programa de Bolsas à Iniciação à Docência). Assim, como resultado das políticas de austeridade, que se intensivaram após o golpe de 2016, anunciava-se o possível fim da ciência no Brasil. O Ministério da Educação, entretanto, em outro comunicado oficial, assegurou que as bolsas se manterão após 2019. A despeito das bolsas, temporariamente, estarem asseguradas, ainda devemos pensar, afinal, por que deveríamos nos importar com as bolsas de pesquisa e ensino?

Detenhamos-nos ao caso das pós-graduações. Para que um país aumente sua renda per capita é necessário que ele cresça, ou seja, se produzam mais bens e serviços. No entanto, há um limite para isso, que é quando a economia está operando em plena capacidade, isto é, quando todos os recursos estão sendo utilizados para a produção. Para que essa mesma economia continua a crescer de forma sustentável, deve-se, portanto, utilizar esses recursos de forma mais eficiente – fazendo mais com menos. Ou seja, precisa-se aumentar a produtividade das forças produtivas. Essa produtividade aumenta na medida em que melhoramos nossa tecnologia, isto é, quando temos mais acesso à educação e quando formamos mais pesquisadores e professores.

Nesse sentido, o investimento nas pós-graduações, assim como no PIBID, que perpassa o pagamento de bolsas, auxilia no aumento da produtividade, da criação de ciência e tecnologia. No Brasil, segundo dados da Clarivate Analytics [1], grande parte da pesquisa se dá nas universidades públicas, de âmbito estadual e federal, e quase nada nas privadas. O setor privado brasileiro não desenvolve o grosso da pesquisa e, dificilmente o fará. Nossa economia, após os anos 90, tem regredido em sua complexidade. Segundo dados do Atlas da Complexidade [2], o Brasil, ano após ano, tem aumentando sua base de exportações em bens de baixa complexidade. Isso significa que tratam-se de setores que não demandam força de trabalho qualificada, não incentivam o processo de inovações e, tampouco, são capitais intensivas. Esses bens de baixa complexidade, em sua maioria, são as commodities, como carvão e soja.

Há evidências [3] [4] que apontem para a correlação entre a distribuição de renda, nível de renda per capita e uma base de exportação de bens complexos, os quais dependem de fortes investimentos em pesquisa, ciência e tecnologia. Ou seja, países que possuem setores complexos, em geral, possuem um elevado nível de produto por pessoa e uma salário médio elevado. Não só isso, mas em termos mais gerais, é na ciência e na tecnologia que se encontra uma das fontes de liberdade e emancipação humana. Como bem diz Engels, “a liberdade não reside na sonhada independência em relação às leis da natureza, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade proporcionado por ele de fazer com que elas atuam, conforme um plano, em função de determinados fins” [5]. Quando domamos o poder da eletricidade, criamos sistemas cibernéticos complexos e avançamos na cura de diversas doenças. Essas ações humanas representam um passo no avanço da emancipação humana.

Porém, devemos estar atentos que o simples investimento nessas áreas não nos assegura automaticamente um crescimento econômico com o aumento da distribuição de renda, tampouco inovações científicas que sirvam aos trabalhadores. Durante o período da Ditadura Militar, em que o Brasil possuía uma indústria mais ativa e produção de bens mais complexos, a concentração de renda aumentou abruptamente, de tal forma que de 1964 até 1974, houve a queda de 42% do poder de compra do salário mínimo [6].

Ou seja, a defesa das pós-graduações, da ciência e tecnologia, é condição necessária, mas não suficiente. Para que o desenvolvimento de nosso país seja com um aumento salarial e melhora da condição de vida dos trabalhadores, se faz necessário também um arranjo social diferente, em que as velhas oligarquias, os latifúndios e os grandes banqueiros não estejam no centro da tomada de decisão e planejamento econômico. É preciso que os trabalhadores sejam a ponta-de-lança nesse processo, para que, a universidade e seus centros de pesquisa funcionem em prol dos mesmos e não serviam a um pequeno grupo de privilegiados.

Referências:

[1] Pesquisa da Clarivate Analytics
[2] Atlas da Complexidade
[3] http://www.paulogala.com.br/explicacao-da-riqueza-e-pobreza-dos-paises-no-mundo-em-um-unico-grafico-produtividade-nas-exportacoes/3-rpeci/
[4] https://www.eco.unicamp.br/images/arquivos/Hartmann_WD_May2017.pdf
[5] ENGELS, F. Anti-Dühring. Boitempo, 1ª ed, 2015.
[6] LACERDA, A. C.; BOCCHI, J. I.; REGO, J. M.; MARQUES, R. M. Economia Brasileira. Saraiva, 4ª ed, 2010.