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Disputar os bairros- Se não hoje: Quando? Se não nós: Quem?
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Disputar os bairros- Se não hoje: Quando? Se não nós: Quem?

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Por:  William Poiato*

Uma definição simples para a ideia de “bairro” poderia ser:

Um bairro é composto por casas suficientemente próximas, que estabeleçam algum contato entre si e entre os moradores, criando a ideia de unidade.

Dada esta informação à esquerda revolucionária, esta deveria se perguntar:

O bairro é espaço de se fazer política? Existe no bairro luta de classes? Se a resposta for “sim” devemos ficar atentos às linhas abaixo:

Hoje vivem no Brasil cerca de 202 milhões de indivíduos, destes a metade é economicamente ativo, ou seja, metade da população esta em idade e com alguma possibilidade de emprego (e sustentam as demais), destas 70% recebe até um salário mínimo e meio e outras 18 milhões estão desempregadas.

Basicamente, estes que compõem a classe trabalhadora, esmagados pelo capitalismo brasileiro (e mundial). Um número muito próximo da totalidade vivem em “bairros”.

A dinâmica da luta de classes no Brasil leva a esquerda revolucionária há algum tempo afirmar que devemos mobilizar com foco em “local de trabalho, estudo e moradia”.

Pois bem, por local de trabalho surgem os sindicatos, associações e (na maturidade do processo) as Centrais Sindicais. A disputa para nós está bem clara:

  • Pela elevação da consciência de classe das categorias, a caminho da ruptura destas lutas fracionadas e a explosão da luta emancipatória unitária da classe, disputando o espaço com as direções defensoras do sistema de capital dos mais diversos espectros (da direita ao reformismo); representantes dos patrões e governos.

No local de estudo, surgem os grêmios, os Centros Acadêmicos, Diretórios Acadêmicos, Diretórios Centrais dos Estudantes, Confederações de Cursos e as Entidades como a UNE, a ANEL, as UEE’s, UBES, ANPG, etc. Aqui a disputa da também já esta acontecendo:

  • Pela construção (e defesa) de uma educação pública, laica, de qualidade e a construção de um projeto da classe trabalhadora para educação (que nós compreendemos como o MUP), tendo por consequência estudantes mais conscientes de sua realidade, capazes de engajar-se na luta pela emancipação humana. Disputando o espaço com as direções defensoras das administrações destes ambientes de educação e está própria administração na luta concreta.

Claro, aqui se aplica uma generalidade absurda nos âmbito da disputa e objetivos, mas vale como linhas gerais. O caminho apontado pela esquerda revolucionária é a mobilização das bases contra a direção, para assim ampliarem em quantidade e qualidade as lutas concretas da classe e construir o caminho para a revolução brasileira.

Ocupar e mobilizar estudantes e trabalhadores para espaços de suas categorias antes esvaziados e burocratizados, polemizar e enfrentar as direções, estar presente nas lutas concretas e diárias, agitação, propaganda, formação, etc. são partes inerentes da nossa atuação diante dos trabalhadores e estudantes (e em seus espaços organizativos).

Mas e o local de moradia?

Existem certas confusões quando aqui entramos: a “luta mobilizada por local de moradia” é confundida com a “luta por moradia”, ou melhor, pelas lutas sócio-territoriais (por moradia e terra).

Não afirmo aqui que uma exclui a outra, mas a segunda esta contida na primeira, é uma (e a mais visceral e combatente) forma de mobilizar as pessoas pelo local onde vivem, mas existem outras.

Outra forma de mobilização nos locais de moradia enraizada nos revolucionários des do séc XX, o trabalho comunitário e as brigadas populares. Atuar onde o Estado falta e ali fazer a construção da consciência de classe dos trabalhadores e o amadurecimento dos militantes em luta de qual sua causa.

Esta forma de mobilização foi (e é) esvaziada de seu sentido revolucionário hoje por duas vias. Uma em qual sentido é dada à atividade, se esta for colocada como uma ajuda ou uma caridade “para o outro” e não “com o outro”, não é mais uma atividade revolucionária (talvez uma boa atitude cristã); se esta é tocada por ONG’s que tem ligações explicitas com o empresariado ou Estado (obviamente) perde seu caráter revolucionário. Disputar as atividades populares, o trabalho comunitário e as brigadas de trabalho coletivo são uma tarefa revolucionária.

Podemos falar dos coletivos que hoje mobilizam as juventudes dos bairros com maior sucesso, os coletivos culturais e os que lutam contra opressões (feministas, anti-racistas, pró-LGBT, etc), não é raro que um coletivo desta natureza exista e que possua um certo número de ativistas e uma atuação de formação importante na região.

E junto da mobilização, será que não existem espaços de disputa?

Vemos nos municípios, nos campos e nas cidades, uma figura que se afeiçoa e se relaciona de maneira estranha com o sistema burguês brasileiro, um sistema de voto universal onde as votações majoritárias vencem, este sujeito se comporta como se os votos fossem distritais: O vereador.  

São 57 mil destas criaturas políticas que vivem (em sua maioria) como abutres circulando sobre os bairros e conquistam dele sua fidelidade, eleição pós eleição. A magica de seu mecanismo é que ele sobrevoa os bairros, sem neles pousar: as pessoas não os conhecem, não sabem qual sua atuação, mas se mantém fiéis.

Parte do segredo é que estes possuem fiadores, pessoas que se transformam em corrente de transmissão entre o ponto ‘a’ e ‘b’, em sua grande maioria “lideranças locais”. Mas quem são estas lideranças?

O presidente da associação do bairro, o membro da sociedade civil no conselho ‘x’, o membro de um foro, etc. e uma coisa é pouco surpreendente sobre este ator político, ele é em sua esmagadora maioria (pela ausência de contraponto) um conservador e personalista– na melhor das hipóteses um reformista. Os revolucionários simplesmente não estão nestes lugares, um pouco por falta de recursos e um pouco por falta de direcionamento neste sentido, devemos não só penetrar, mas transformar a natureza destes lugares.

A disputa das bases, do “morador”, ou seja, das consciências, passa pela disputa dos instrumentos que os moradores construíram para si, auxiliar, fortalecer e direcionar estes instrumentos para o enfrentamento real, em prol das lutas concretas é o caminho que os revolucionários escolheram para as áreas nas quais atuam. Então por que não no bairro?

O primeiro sinal de disputa deve ser nos espaços onde o Estado chama por representantes moradores da região da “sociedade civil”. Os marxistas sabem muito bem que a própria ideia de sociedade civil é absurda, que este grupo é fictício. A sociedade é dividida em classes, e se o espaço da sociedade civil é para ser ocupado por moradores (que são em sua maioria trabalhadores), por que nossas organizações (instrumentos da classe trabalhadora) não deveriam disputar estes espaços?

Claro, aqui vale a velha observação, de que nos vale as eleições? Para disputar a consciência da base (aqui dos moradores), fazer agitação e propaganda de nossos programas. Em caso de vitória, de que nos serve o mandato? Para disputar a consciência da dos moradores, fazer agitação e propaganda de nossos programas, demonstrar os limites do Estado burguês e conquistar avanços para a região. Nunca para se adaptar e fazer parte das engrenagens do sistema!

Instituições desta natureza existem por toda parte, a título de exemplo: no RS, em especial em porto Alegre existe o Fórum de Delegados do Orçamento Participativo; na capital de SP existem os Conselhos Regionais de Meio Ambiente; em GO, Goiânia, existe o Conselho de Segurança, dividido regionalmente; em SE, Aracaju existe o Conselho do Orçamento Participativo; AC, em Rio Branco existem os Conselhos Regionais de Políticas Culturais, etc, etc, etc…

O segundo caminho é disputar e (quando inexistentes) fundar Associações de Bairro, instituição que aparenta-se à inércia, porém que possui sérias influências no andamento da vida material dos moradores. Deve-se, assim como se faz nos sindicatos e nos centros estudantes, disputar e levar uma pauta de combate real para estes ambientes, e assim como as categorias, que não possuem seu instrumento de defesa e as instituições de ensino que não possuem suas agremiações estudantis, devemos fundar as associações de bairro onde inexistem.

Existirão lugares com toda uma dinâmica específica de poder, Foros organizados pelos moradores, locais de encontro com os nomes e as formas mais diversas, assim como ONG’s induzindo à este ou aquele tipo de organização no bairro. Nestes deve-se avaliar se há possibilidade real de disputa. Existindo, devemos entrar e ali direcionar o grupo para as lutas reais da comunidade.

Do ponto de vista da estratégia, para os comunistas, a construção destes focos locais de moradores mobilizados e conscientizados são passos importantes para a construção do Poder Popular, pois, com a conscientização prévia e a mobilização constante estes grupos podem funcionar, (e tendem em situações de acirramento de luta de classes) como verdadeiros Conselhos Populares, capazes de construir um projeto alternativo para a sua realidade concreta e a mobilização real para a revolução brasileira.

Claro, quando se levanta uma grande tarefa desta natureza não se pode jogar ao vento, tem de se por á mesa alguma forma de dar consequência a aquilo que se propõe. Devemos ter em mente que hoje nenhuma das nossas organizações revolucionárias tem possibilidade de executar estas tarefas sozinhas, desta forma devemos reunir nossas forças e realizar uma tarefa por vez com disciplina e em torno de um entendimento mínimo.

Neste sentido os “bairros sem medo”, instâncias locais, organizadas por bairro, distrito, região, etc. da “Frente do Povo Sem Medo” tem sido uma experiência importante, mesmo forças que não fazem parte da instância nacional (por diversos motivos) enxergam nestes grupos locais compostos por sindicatos, movimentos sociais e coletivos uma possibilidade real de construção da luta e de trabalho de base. As experiências se multiplicam, com um alto grau de sucesso. Frentes como esta são um caminho importante para o trabalho de base e a penetração em todos os lugares, são nosso melhor instrumento para uma construção mais generalizada de uma consciência de classe.

Por fim, existe uma crítica d’aqueles que desconhecem a luta revolucionária de que não estamos na quebradas, nos guetos, nas periferias, nos trabalhos precarizados, etc. Calar este tipo de impressão passa por estarmos inseridos rigorosamente no seu dia a dia, nas lutas e problemas cotidianos, com a classe trabalhadora, ombro a ombro. Para isso temos irremediavelmente que de disputar o bairro!

DISPUTAR OS BAIRROS, PELO PODER POPULAR!

Imagem: Frente Itaquera Sem Medo

*Militante da UJC em São Paulo