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Dançando a beira do abismo: a crise sistêmica global emerge novamente!
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Dançando a beira do abismo: a crise sistêmica global emerge novamente!

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Esse artigo é parte da revista O Futuro – O Comunismo é a Juventude do Mundo, n.1, que pode ser adquirida em formato digital pelo link

Edmilson Costa1

O sistema capitalista enfrenta o epicentro da mais grave, profunda e devastadora crise sistêmica de sua história, muito mais grave que as duas crises sistêmicas anteriores, cujos eventos provocaram mudanças quantitativas e qualitativas nesse modo de produção.2 Trata-se de um período difícil, no qual os gestores do capital estão desarticulados, sem horizonte, sem bússola ou instrumentos, e viajando rumo ao desconhecido por mares nunca dantes navegados. Todas as receitas, fórmulas e agendas e já foram experimentadas pelos governos, no período 2008-2020, e nenhuma delas conseguiu restaurar a estabilidade do sistema nem a retomada sustentada da economia mundial. A enorme quantidade de dinheiro colocada na economia apenas serviu para adiar o desenlace do processo. Isso ocorre porque as crises sistêmicas têm uma diferença quantitativa e qualitativa em relação às crises cíclicas clássicas do capitalismo e, especialmente, porque nenhum dos problemas que emergiram em 2007/2008 foi resolvido. Pelo contrário, o sistema realizou uma fuga para frente, aumentando de maneira extraordinária o volume do capital fictício em circulação: os bancos centrais colocaram cerca de 30 trilhões de dólares na economia, recursos que serviram muito mais para evitar temporariamente o colapso dos grandes bancos e grandes empresas e para tornar mais ricos os rentistas do que para restabelecer efetivamente a demanda agregada do sistema econômico.


Essa enorme massa de dinheiro (sem lastro na produção do valor), conseguiu proporcionar ao sistema capitalista uma sobrevida semelhante a uma vitória de Pirro, porque na prática os gestores do capital construíram uma economia frágil, baseada nos setores pouco produtores da riqueza material, e com um sistema financeiro ganhando rios de dinheiro nos frenesis da especulação mundial, além de empresas-zumbis buscando norte em meio à tempestade. Gerou também para os eternos otimistas e crentes no milagre do capitalismo uma euforia típica dos enfermos próximos à fase terminal. Ou seja, a dramaticidade da crise anterior não foi uma boa conselheira para os capitalistas, como foi a segunda guerra mundial. Enebriados pelas tonterias do capital fictício e a sede de lucro fácil e rápido, esgarçaram ainda mais as contradições do sistema, ao aprofundar a agenda neoliberal, destruir as redes de proteção social, avançar sobre o fundo público, realizar um brutal ataque contra os salários, direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, privatizar os serviços públicos e mercantilizar a vida. Quando a pandemia chegou encontrou um campo fértil para avançar avassaladoramente sobre a população, especialmente os mais pobres, e desmoralizar toda a narrativa das últimas quatro décadas neoliberal. Portanto, o vírus não é a causa da crise: a causa da crise é o sistema capitalista e suas contradições imanentes.


É importante enfatizar ainda que os sinais obscurecidos da conjuntura anterior à pandemia levaram muitos analistas a imaginar que o capitalismo poderia se desenvolver tranquilamente driblando a lei do valor e evitando o ajuste de contas entre o extraordinário desenvolvimento das forças produtivas, baseado nas tecnologias da informação, inteligência artificial, robótica e microeletrônica, engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, entre outras, e as velhas relações de produção construídas no pós-guerra e mantidas na atualidade.3 Imaginaram que a criação do dinheiro a partir do nada seria suficiente para regenerar um sistema doente e esqueceram-se de que, se a pura e simples emissão de moeda resolvesse os problemas das crises, o capitalismo seria um regime eterno. Nunca é demais lembrar que o sistema capitalista alimenta o processo de acumulação através da apropriação do mais-valor gerado pelos trabalhadores. Quando setores capitalistas hegemônicos optaram majoritariamente pelo mecanismo de acumulação a partir da órbita da circulação, na verdade estavam conspirando contra os interesses de longo prazo do capital, porque nessa esfera, por mais que os capitalistas desejem, não se cria riqueza real na sociedade, afinal somente o trabalho social é capaz de criar o valor. Isso explica o desastre da chamada financeirização da economia. Da mesma forma, o que estamos observando, desde 2008, é uma rebelião generalizada das sofisticadas forças produtivos criadas pelo capitalismo atual contra as velhas relações de produção, cujo desfecho só será resolvido com uma mudança profunda no sistema, como ocorreu no passado, ou com a revolução mundial.


Na verdade, as injeções de recursos por parte dos Bancos Centrais, as políticas de flexibilização quantitativa, a compra de títulos tóxicos para evitar as quebras generalizadas e outros truques macroeconômicos realizados pelos governos dos países centrais apenas contribuíram para reproduzir em bases ampliadas todas as contradições sistêmicas que emergiram na crise de 2008 e para transformar a crise atual num fenômeno muito mais devastador do que a crise anterior. O vírus pode ser uma boa desculpa para apaziguar a mentes mais desesperadas dos escribas do capital, mas não resolve a crise e a devastação que está em curso. O sistema financeiro, diante das taxas de juros praticamente negativas e do risco de crédito em função das dívidas empresariais e dos consumidores, preferiu alocar os recursos recebidos praticamente de graça dos Tesouros dos países centrais na alavancagem de seus negócios especulativos. A grande massa de recursos lançada na economia não irrigou o sistema produtivo, exatamente a base motora do crescimento econômico. Pelo contrário, foi apropriada pelas grandes corporações financeiras e monopólios em geral para especular a partir da arbitragem entre a taxa de juros praticamente negativa definida pelo FED e bancos centrais europeus e as aplicações nas Bolsas de Valores, em mercados futuros e de países emergentes e, inclusive, na compra de títulos do próprio Tesouro norte-americano. Resultado desse processo foi a longa euforia das bolsas e dos mercados especulativos. Isso de certa forma explica porque, enquanto a economia mundial enfrentava sérios problemas, os bilionários aumentavam a sua riqueza e a concentração da renda crescia exponencialmente. Mas essas bolhas especulativas refluirão dramaticamente com o aumento da crise e a maior parte desses recursos será esterilizada em futuro não muito distante.


Em outras palavras, a crise atual está umbilicalmente associada à emergência da crise sistêmica global em 2008, com uma particularidade muito especial: na atual crise um elemento exógeno (a pandemia do Coronavirus) veio aprofundar, potencializar, acelerar e universalizar um processo que já estava maduro na economia mundial capitalista, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, e transformar a crise já inscrita num horizonte próximo numa hecatombe social, econômica e política, cujas consequências e resultados ainda não temos uma dimensão plena. A pandemia apenas acelerou e dramatizou um processo que já era objetivamente inevitável nas principais economias do mundo. Foi uma espécie de detonador, uma centelha flamejante num ambiente que já estava extraordinariamente inflamável, tanto do ponto de vista econômico quanto social. Seria até irônico imaginar que um nano-vírus, menor que uma bactéria, tivesse condições de por de joelho um sistema mundial com a pujança de mais de três séculos de hegemonia no planeta. Se está produzindo essas consequências dramáticas é porque o sistema já estava muito enfermo. Caso contrário, a crise não seria tão devastadora, afinal países como a China e Vietnã, que também enfrentaram a pandemia, não registraram os resultados dramáticos que estão sendo observados no centro do capitalismo.

Os elementos da nova crise

Grande parte dos analistas das organizações multilateriais, como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, bem como institutos especializados e muitos economistas, já identificavam ainda em 2019 uma desaceleração da economia global e outros previam que uma nova crise seria inevitável em função dos indicadores de um conjunto de variáveis da economia mundial, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, os centros do capitalismo mundial. As Bolsas de Valores já vinham apresentando grande volatilidade desde 2018, após um boom alimentado pelo dinheiro dos Bancos Centrais injetados na economia e das posteriores flexibilidades quantitativas. Além disso, a queda do crescimento econômico chinês, que ao longo desse período contribuiu de maneira acentuada para manter índices positivos da economia mundial, já indicava que sérios problemas estavam por vir na economia mundial. Afinal, a China é responsável por cerca de um quarto da produção mundial, por 20% da produção de peças e componentes e 12% do comércio mundial.4 Um indicador fundamental para expressar o fato de que a economia já vinha se desacelerando pode ser observado nas taxas de crescimento globais. Dados levantados por Michael Roberts já anunciavam uma queda no nível de crescimento da economia global, desde 2010, conforme se pode observar na tabela 1.5 Essa performance ocorreu em função da estagnação das taxas de investimentos, que no mesmo período se mantiveram menores que 2007. Mas o dado que melhor expressa as dificuldades da economia mundial pode ser medido pela queda da lucratividade desde 2010. Ainda de acordo com Roberts, a taxa interna de retorno do capital do G7, que pode ser considerada uma proxi da taxa de lucro, vem caindo desde 1998, quando o período neoliberal atingiu seu ápice (Gráfico1).6

Tabela 1 – Annual global real GDP growth

Fonte: ROBERT (2020)

Gráfico 1 – Taxa interna de retorno do capital

Fonte: ROBERTS (2020)

Se observarmos também o setor produtivo das principais economias dos países centrais, poderemos constatar que já vinha ocorrendo problemas em vários ramos da produção, especialmente na indústria automobilística da Alemanha, Índia, Inglaterra. Ainda na Alemanha ocorreu também queda no setor de máquinas e equipamentos. “No segundo semestre de 2019 começou uma recessão no setor da produção industrial da Alemanha, Itália, Japão, África do Sul, Argentina e vários setores industriais dos Estados Unidos”.7 A redução no ritmo de crescimento da China impactou também de maneira bastante negativa os produtores dos chamados países emergentes que exportavam matérias-primas para os chineses. Outros indicadores demonstram ainda enorme fragilidade da economia mundial e da economia dos Estados Unidos em particular. Segundo Plender, que se baseou em cálculos do Instituto Internacional das Finanças (IIF), o quantum de endividamento mundial alcançou U$$ 253 trilhões no terceiro trimestre de 2019, quantia correspondente a 322% do PIB mundial.8 Outras fontes indicam um endividamento ainda maior na economia mundial: de acordo com Hedgs, o endividamento mundial já alcançara U$$ 325 trilhões, ressaltando-se que a dívida das famílias nos EUA atinge U$ 13,2 trilhões e as dívidas dos estudantes também nos EUA atinge U$ 1,5 trilhão.9 Vale lembrar ainda que a dívida externa norte-americana alcança aproximadamente 100% do PIB (gráfico 2), que sua infraestrutura está bastante deteriorada e o setor de petróleo, no qual o País imaginava adquirir autossuficiência a partir do xisto betuminoso, está em bancarrota, assim como todo o setor petroleiro mundial, em razão da queda dos preços e da demanda. 

Gráfico 2 – Dívida pública dos Estados Unidos

evolução da dívida dos estados unidos

Fonte: BASSATO 

Como na crise anterior não ocorreu a queima de capitais suficientes para regenerar o sistema econômico, o truque de injeções maciças de recursos por parte dos bancos centrais criou um sistema econômico baseado em fundamentos frágeis, um boom artificial e um sistema financeiro que ampliou de maneira impressionante o processo especulativo. Isso ocorreu porque os bancos, diante da montanha de recursos em seus encaixes monetários, decidiram obter lucros muito mais rápido e fácil na especulação do que colocar esse dinheiro no setor produtivo. Direcionaram esses recursos para a compra de ações, para a compra de títulos da dívida dos países periféricos, para o mercado futuro de derivativos e todo tipo de negócio especulativo. Esses negócios criaram uma atmosfera otimista, na qual os agentes do capital, especialmente nos meios de comunicação, difundiam a narrativa de que a economia tinha se recuperado e estava crescendo a todo vapor. A crise teria sido apenas um acidente de percurso e o sistema recuperara a normalidade como no passado. Ledo engano: esqueceram-se de que o capitalismo é um sistema que não pode se desenvolver se não extrair o mais-valor dos trabalhadores; que a dinâmica capitalista implica investimento no processo de produção, realização das mercadorias e apropriação do valor para acumular o do capital. Querer fugir dessa lógica imanente do capitalismo é uma miragem semelhante à dos alquimistas buscando descobrir o elixir da juventude. Como de costume, as crises emergem para relembrar a todos os caprichos implacáveis da lei do valor.

Na principal economia do mundo, a crise até agora está sendo devastadora. Não se pode afirmar com exatidão quais as consequências no ritmo de crescimento dos Estados Unidos, mas as perspectivas indicam que esta crise  será tão ou mais grave que a grande depressão porque combinou, num mesmo coquetel tóxico, a emergência de um nova erupção da crise sistêmica global com uma pandemia mundial que potencializou e acelerou todas as contradições de um sistema enfermo. Concentrando-se a investigação nos Estados Unidos, o coração do sistema imperialista, como uma proxi do que acontecerá nas outras regiões do mundo, podemos dizer que estão em cursos fenômenos dramáticos nunca dantes observados na economia norte-americana e, por extensão, na economia mundial. Os organismos internacionais preveem uma queda no PIB entre 5 e 10 pontos percentuais negativos, enquanto o ex-secretário do Tesouro norte-americano e experiente representante do establishment, Larry Sammers, avalia que esta será a maior crise desde a segunda guerra, cujo desemprego deverá atingir 20% dos trabalhadores.10 De concreto, agora em maio, 40 milhões de trabalhadores já perderam o emprego, número que deverá aumentar à medida em que a crise se agrava. De fato, a economia está numa espiral descendente: o setor de petróleo está em bancarrota, com dezenas de empresas indo à falência em função da queda da demanda e dos preços do óleo. No setor do comércio, milhares de empresas também estão falindo por falta de compradores, o que significa que todas as cadeias de fornecedores também sofrerão o impacto da queda. Da mesma forma, os setores da aviação, do turismo, bares, restaurantes, shoppings, cinemas e entretenimento em geral também estão a caminho do colapso. Em breve a crise também chegará ao núcleo duro da produção, em função da insuficiência estrutural da demanda agregada, e as dívidas impagáveis de empresas e consumidores sufocarão o sistema financeiro, cuja queda será muito expressiva.

Essa crise ocorre num momento que a economia norte-americana, do ponto de vista social, também vive uma situação difícil, levando-se em conta ser esta a principal economia do planeta. Como vimos, o crescimento econômico do período anterior foi realizado a partir de fundamentos artificiais, tendo como lógica de crescimento a órbita da circulação, cujos setores não produzem valor. Da mesma forma, o chamado boom dos empregos, criados entre 2009 e a emergência da crise atual, também estava baseado em fundamentos frágeis, com salários estagnados e um elevado contingente da força de trabalho não registrado pelas estatísticas oficiais, o que permitiu uma sofisticada manipulação estatística. “A taxa de participação da força de trabalho – a proporção da população total de 18 a 64 anos que trabalha ou procura emprego – caiu acentuadamente no momento em que a crise ocorreu, e ainda está longe de retornar ao seu nível de 2007… Os salários, como muitos já sabem, não são muito maiores do que eram no final dos anos 1970. Tivemos uma geração inteira experimentando estagnação salarial – e desde a Grande Recessão (de 2008, E.C.), tem sido ainda pior”.11 Em outras palavras, o nível de emprego propagado pelo governo, em relação à população em idade de trabalhar, não refletia a real situação dos trabalhadores norte-americanos, ressaltando-se o fato de que se tratava de empregos precários e mal remunerados, bastando dizer que cerca de 50% dos trabalhadores dos Estados Unidos ganham menos que U$ 33 mil por ano, um nível muito baixo para os padrões daquele País.12 Vale lembrar ainda que existem hoje mais de 40 milhões com renda abaixo da linha de probreza, e 550 mil sem teto, dos quais 358 mil vivendo em abrigos precários e 195 mil morando na rua.13 Para um País das oportunidades e das liberdades, esse não é um dos mais belos cartões postais.

Do ponto de vista sanitário, a crise veio demonstrar a falência do sistema de saúde privado no País. Atualmente, mais de 2,5 milhões estão contaminados pelo coronavirus, com mais de 120 mil mortos, número mais de duas vezes maior que na guerra do Vietnã. A pandemia revelou de maneira brutal as mazelas da sociedade norte-americana, como a desigualdade, a pobreza, a miséria, a iniquidade de um sistema de saúde onde quem não tem dinheiro morre na porta dos hospitais, a concentração de renda, o racismo estrutural, os milhares de sem teto e moradores de rua, mas também revelou a disposição de vários setores da população para a luta pelas mudanças, especialmente os jovens, negros e latinos. Se o presidente Trump não tivesse subestimado a pandemia, a partir de um negacionismo típico dos fundamentalistas neopentecostais, o número de mortos poderia ter sido bem menor. Se o País tivesse um sistema de saúde público, onde todos pudessem ter acesso gratuito à saúde, milhares de vidas teriam sido poupadas. Dito de outra forma, a crise veio demonstrar com rudeza que o sistema capitalista, especialmente na sua fase neoliberal, é hoje o principal inimigo da humanidade porque só tem a oferecer aos povos a miséria e a desigualdade. As manifestações que estão ocorrendo em todo o País, mesmo diante da pandemia, demonstra a insatisfação profunda da maioria da população e que pode aumentar à medida em que a crise for se agravando.

A desmoralização do discurso neoliberal 

A crise demonstrou também de maneira pedagógica a natureza desumana do sistema capitalista e os crimes de sua fase mais agressiva, o neoliberalismo. As políticas neoliberais, ao longo dos últimos 40 anos, sob o pretexto da ineficiência do Estado e do equilíbrio fiscal, transformou o mercado numa entidade mítica, com interesses superiores aos da espécie humana, numa ofensiva mundial articulada desde as organizações multilateriais, aos diversos governos capitalistas e, especialmente, aos meios de comunicação. Diariamente as TVs, os jornais, o rádio e os meios digitais promoveram as virtudes do livre mercado e da livre concorrência, da iniciativa privada, das reformas econômicas, trabalhistas e previdenciárias e do individualismo como a única alternativa para a vida em sociedade. Desregulamentaram a legislação econômica, as atividades financeiras, o mercado de trabalho, os direitos sociais, e colocaram toda a estrutura do Estado a serviço da nova ordem, mesmo que para tanto se utilizassem de regimes autoritários ou alianças com bandos fascistas. Em outras palavras, transformaram o neoliberalismo num pensamento único, a partir do qual qualquer discordância era desqualificada e inviabilizada. O polo financeiro do grande capital passou a hegemonizar o sistema econômico, a controlar parcela expressiva das empresas produtivas, a hegemonizar politicamente o orçamento do Estado e alavancar de maneira exponencial o processo de especulação. Por trás desse discurso e dessas ações, evidentemente, estavam os interesses da oligarquia financeira e do grande capital  buscando superar a crise capitalista e colocar todo o ônus do ajuste na conta dos trabalhadores.

Dessa maneira, a política neoliberal avançou contra os direitos e garantias dos trabalhadores e pensionistas, direitos conquistados por nossos avós, e reduziu os salários, tanto dos trabalhadores do setor privado quanto dos funcionários públicos.  Em nome da austeridade e equilíbrio das finanças públicas cortou gastos sociais, reduziu a participação do Estado na economia, avançou sobre as empresas estatais mediante o processo de privatização e amealhou parcelas expressivas do fundo público em função da dívida dos Estados. Devastou os serviços públicos, como a saúde, a educação e o saneamento. Na ânsia de acumular a qualquer custo, a selvageria neoliberal desmantelou as redes de proteção social, destruiu parcela importante da biodiversidade, das florestas, contaminou o solo e os rios e até mesmo o ar que respiramos. 

O resultado desse processo foi a precarização no mundo do trabalho, a redução da massa salarial, o empobrecimento de largas parcelas da população, a dificuldade para acessar os serviços públicos, especialmente a educação e a saúde, e uma concentração de renda obscena, na qual 1% da população mundial detém a mesma riqueza que os 99% restantes.14 Em outros termos, por trás das ações e do discurso neoliberal, evidentemente, estava a ação da oligarquia financeira e do grande capital para se apropriar dos recursos públicos e da renda expropriadas dos trabalhadores pelas contrareformas. 

Mas as falácias neoliberais se transformaram em conto de fadas com a crise sistêmica que emergiu em 2008, cujos resultados colocaram em cheque toda a agenda neoliberal e sua narrativa teórica. Os gestores do capital, sem a menor sem cerimônia, recorreram alegremente ao Estado para salvar do colapso os bancos e as grandes empresas. Todo o velho discurso do livre mercado, da eficiência da iniciativa privada, da maldição do Estado foi abandonado, enquanto os Bancos Centrais colocavam montanhas de dinheiro para salvar o sistema. Mas quem imaginava que as classes dominantes iriam tirar lições do fracasso do neoliberalismo e da gravidade da crise, deve ter ficado bastante decepcionado porque o que se verificou posteriormente foi o aprofundamento das políticas neoliberais, agora mais agressivas e depredadoras que no período anterior. 

Os gestores do capital retomaram, também sem a menor sem cerimônia, o discurso da austeridade, dos ajustes fiscais, do corte dos gastos públicos, dos salários, da necessidade das privatizações, além do controle da política econômica dos governos, para efetivar mais reformas trabalhistas e previdenciárias e maior saque ao fundo público. Como se tratava de medidas ainda mais impopulares que as do período anterior, pelos impactos dramáticos sobre os trabalhadores, a juventude e a população mais pobre, e que tenderiam a gerar reação dos trabalhadores, as classes dominantes mundiais resolveram radicalizar as restrições às liberdades democráticas, a partir da eleição de dirigentes fundamentalistas de direita ou mesmo se aliando a bandos fascistas para manter a ordem. Na prática, as liberdades democráticas se tornaram um obstáculo às políticas neoliberais em todo o mundo. Como se pode observar desde 2009, aumentou a brutalidade contra as manifestações populares, a criminalização dos movimentos sociais e a perseguições a líderes sindicais, populares e dirigentes políticos de esquerda.

Na crise atual o processo se repete em bases ampliadas. Sob o argumento de que o Coronavirus, e não as contradições do capitalismo, é a origem da atual crise, os bancos centrais do mundo inteiro e dos países centrais em particular, especialmente o dos Estados Unidos, liberaram novamente uma quantidade de recursos para bancos e grandes empresas semelhante à crise passada, agora com paz na consciência, pois aparentemente a crise teria origem a partir de um elemento exógeno ao sistema. O FED já avisou que a ajuda ao sistema econômico não terá limites. Pelos cálculos de diversas fontes, até gora já foram emitidos mais de US$ 20 trilhões pelos bancos centrais em todo o mundo. Na maior parte dos países e, especialmente nos Estados Unidos, o dinheiro recebido a taxas de juro praticamente zero tem se destinado muito mais à especulação do que ao sistema produtivo como no passado. 

Os bancos, grandes fundos e grandes empresas com acesso a esses recursos estão preferindo comprar ações nas bolsas e investir em negócios especulativos. As grandes corporações estão recomprando suas próprias ações. O próprio FED tem resgatado dívida de empresas em dificuldades financeiras e adquirido títulos tóxicos. Essa farra com dinheiro criado do nada explica o paradoxo do aumento das cotações das Bolsas de Valores no momento em que a crise mais se agrava. Enquanto isso, a população pobre e desamparada, que agora ficou visível para todos, recebe apenas uma ínfima parte do botim destinado ao grande capital. Cada vez mais fica claro também o papel do Estado não só como instrumento, mas especialmente como organizador coletivo dos interesses das classes dominantes.

O significado político da crise

Mas essa crise veio também colocar na ordem do dia algumas velhas questões da economia política a muito esquecidas pelas classes dominantes e por certa esquerda reformista, que se acomodou no marxismo bastardo, na gestão pretensamente humana do capitalismo e nos encantos do poder político burguês. Nada como uma grande crise para colocar a realidade da luta de classes no posto de comando. O primeiro grande significado político desta crise é muito especial: só os trabalhadores criam o valor. A riqueza criada no sistema capitalista não é resultado da habilidade gerencial dos gestores do capital, nem das máquinas e equipamentos e muito menos do espírito empreendedor dos capitalistas: a única forma de criação de riqueza no capitalismo é o trabalho humano. Como já definia Engels em seu trabalho “A humanização do macaco pelo trabalho” onde define com clareza a importância do trabalho para o ser humano: “O trabalho é a fonte de toda a riqueza, afirmam os economistas, e o é de fato, ao lado da natureza, que lhe fornece a matéria prima por ele transformada em riqueza. Mas é infinitamente mais que isso. É a condição fundamental de toda a vida humana. E o é num grau tão elevado que, num certo sentido, pode-se dizer que o trabalho, por si mesmo, criou o homem”.15 Poderíamos dizer que o trabalho é tão importante que, se a humanidade deixasse de trabalhar, a espécie humana se extinguiria, pois deixariam de existir bens e serviços para a satisfação das necessidades humanas.

E o velho Marx já dizia que as mercadorias têm valores porque são a cristalização do trabalho social.16 E ainda no primeiro capítulo de O Capital, citando um panfleto anônimo escrito possivelmente entre 1739 ou 1740, muito antes de Adam Smith, já enfatizava claramente que o valor de todas as mercadorias é resultado do trabalho socialmente necessário do ser humano. “É apenas a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor de uso que determina a grandeza de seu valor … Uma quantidade maior de trabalho constitui, por si mesma, uma maior riqueza material”.17 Nessa crise a vida se encarregou mais uma de provar essa verdade da economia política: quando os trabalhadores ficaram em casa, em função da pandemia, ou quando as empresas demitiram por causa da crise, a economia entrou em colapso. Os capitalistas, em desespero, se articularam de todas as formas com o Estado para pressionar os trabalhadores a voltar ao trabalho. Nada mais claro, objetivo e pedagógico do que o que estamos presenciando nesses tempos de pandemia para provar que só os trabalhadores são os responsáveis pela criação da riqueza em nosso planeta. Os capitalistas só podem se apropriar do mais-valor e acumular riquezas se passar pelo processo de produção. Sem isso, trata-se apenas de riqueza fictícia que será esterilizada nas crises. Por mais que os capitalistas queiram abstrair essa realidade, para eles dolorosa, por mais que a propaganda burguesa busque desviar a atenção para esta verdade cristalina, os capitalistas não podem escapar à lei do valor. Bom, também agora se torna mais fácil argumentar com mais precisão: se os trabalhadores são os responsáveis pela criação da riqueza, por que essa riqueza é apropriada, em sua maior parte, pelos capitalistas e não pelos trabalhadores? A essa pergunta e sua necessária resposta as forças de esquerda têm a obrigação de explicar para os trabalhadores tanto agora quanto no pós-pandemia. 

A crise também demonstrou a enorme superioridade dos serviços públicos de saúde em relação aos serviços privados. Nos países com sistemas públicos e com dirigentes que obedeceram as recomendações da Organização Mundial da Saúde, da ciência, dos infectologistas as perdas humanas foram bem menores do que naqueles em que o os dirigentes ignoraram o perigo da pandemia. Nos países em que os serviços de saúde são privados, como nos Estados Unidos, e epidemia avançou avassaladoramente e, neste momento, os Estados Unidos se tornaram campões mundiais de mortalidade e de infectados pelo coronavirus. Ao contrário da principal economia do mundo, a China, Vietnã e Cuba demonstraram muito mais eficiência no combate e controle da doença. A China, primeiro país onde o vírus apareceu, tomou todas as medidas de precauções, com o isolamento social de regiões inteiras, a mobilização nacional de pessoal, recursos e medicamentos para combater a pandemia. O pequeno Vietnã também foi exemplar na mobilização e organização da sociedade no combate ao vírus, da mesma forma que Cuba. Mesmo boicotada selvagemente, também mobilizou recursos, pessoal e medicamentos para proteger a população e vencer a doença. E ainda enviou médicos para dezenas de países para contribuir na luta contra a pandemia, mesmo em países, como a Itália, que participa do boicote a Cuba. Esses fatos revelam, de um lado, que as economias com planejamento e sistemas públicos de saúde, têm mais condições de intervenção em larga escala no combate a pandemias do que as economias privadas, onde o lucro se sobrepõe às necessidades humanas. Por isso, muitos morrem em frente aos hospitais porque não têm dinheiro para pagar um leito. Além disso, os governos capitalistas são mais maleáveis a pressões do capital para retomar os negócios do que os governos de economias planificadas. Como se pode constatar, muitas vezes esses governos autorizaram a abertura das atividades econômicas e logo depois foram obrigados a voltar às medidas de distanciamento social em função da retomada da doença, mas nesse vai e vem muitas pessoas morreram. 

A crise também desmoralizou mais uma vez o discurso neoliberal sobre austeridade, ajustes fiscais, cortes nos gastos, privatizações e escancarou de maneira didática as mentiras que diariamente os meios de comunicação veiculavam para impor aos trabalhadores, à juventude e ao povo pobre das periferias a agenda neoliberal radicalizada das classes dominantes globais. Eles diziam que os Estados estavam quebrados e endividados e que era necessário reduzir o déficit público; que não tinham recursos suficientes para pagar as aposentadorias e os funcionários públicos, uma vez que a máquina pública estava inchada; que o Estado estava gastando muito com saúde educação e saneamento; que as empresas públicas eram mal geridas e ineficientes e que era necessário deixar o mercado funcionar em todas as áreas da vida social porque o mercado alocaria os recursos escassos de maneira mais eficiente; que era necessário a austeridade nas contas públicas, porque do contrário haveria um desequilíbrio fiscal e uma escalada inflacionária. A partir dessa narrativa, destruíram as redes de proteção social, reduziram os gastos sociais, sucatearam os serviços públicos e avançaram sobre os direitos dos trabalhadores. Quando veio a crise, esse discurso desmoronou: rapidamente apareceram aos os recursos para salvar os bancos e grandes empresas, os bancos centrais emitiram montanhas de dinheiro para comprar dívidas e títulos tóxicos de corporações endividadas e até sobrou uma pequena parte para a população mais pobre. De uma hora para outra, todos se transformaram em radicais keynesianos, defensores da intervenção do Estado para salvar a economia do colapso e até da renda básica para a população pobre. Acabou o discurso de que a inflação explodiria se o Estado gastasse mais do que arrecadava. Mas todos devem ficar atentos:  tão logo acabe a pandemia, eles voltarão cinicamente com os mesmos discursos como se nada tivesse acontecido.

Para onde vai a crise? 

Qualquer previsão sobre as consequências da crise pode ser apenas um exercício de imaginação, mas traçar tendências e cenários possíveis pode contribuir para compreendermos melhor o significado desta crise para o sistema capitalista e as prováveis consequências econômicas e sociais para os trabalhadores e a juventude. Mas é importante também realizarmos um exercício prospectivo sobre as consequências políticas da crise, seus possíveis desdobramentos em termos de movimentos sociais, bem como os impactos na geopolítica tanto nos países centrais quanto nos países periféricos. Podemos dizer que o mundo pós-pandemia, apesar dos desejos e manipulações das classes dominantes e seus meios de comunicação, não será o mesmo para o sistema capitalista. A história tem nos ensinado que todas as grandes crises desencadeiam fenômenos econômicos, sociais e políticos novos e inesperados – e essa não será diferente. Antes de analisarmos os possíveis desdobramentos da crise, é importante atentarmos para dois elementos macroestruturais que permeiam o desenvolvimento da conjuntura no pós-pandemia e um político-social que poderá emergir desse processo: a) a questão geopolítica, envolvendo a disputa entre China e Estados Unidos, o papel da Rússia e as mudanças geopolíticas que poderão ocorrer no próximo período; b) a recessão profunda nos países centrais e, especialmente, nos Estados Unidos, além, da possível desarticulação do sistema monetário internacional e do poder do dólar como moeda mundial; c) a possibilidade de revoltas sociais em várias regiões do planeta em função das condições sociais e da desigualdade nos países capitalistas. Essas três variáveis influenciarão de maneira decisiva a ordem internacional construída em Breton Woods e poderemos ter uma transição de hegemonia, que pode ocorrer de maneira ordenada ou a partir da guerra, bem como a possibilidade de rupturas da velha ordem em vários países. 

a) Antes da pandemia a China já vinha exercendo um papel central na economia mundial, tornando-se a segunda maior economia do planeta, muito embora já seja a primeira em termos de paridade do poder de compra ¹⁸ . A China hoje é a maior parceira comercial da Ásia, tem intensificado fortemente suas relações econômicas com a África e avança no relacionamento com a Europa e América Latina. Após a construção do projeto da nova rota da seda, um instrumento que interligará as relações comerciais dos chineses com dezenas de países de vários continentes, a China tem se destacado também nas áreas das tecnologias de ponta, como a internet 5G, satélites e a computação quântica. Esse desenvolvimento tem despertado certo desespero dos Estados Unidos, tanto que a principal empresa de tecnologia da informação chinesa, a Huawei, que está desenvolvendo a tecnologia 5G alguns anos à frente dos Estados Unidos, vem sendo objeto de perseguição e boicote em vários países por pressões dos Estados Unidos. Com o fim da pandemia, a disputa pela hegemonia da economia mundial será intensificada, especialmente porque a China já superou a doença há alguns meses e está retomando as atividades econômicas, enquanto os Estados Unidos estão mergulhados na crise sanitária e também numa crise econômica e social profundas. A conjuntura pós-pandemia com certeza tende a reduzir a hegemonia norte-americana e fortalecer o papel da China como séria candidata a se tornar, num futuro não muito distante, a primeira economia do mundo, fato que terá consequências geopolíticas bastante fortes na ordem econômica e política internacional. Não se pode prever qual será a reação dos Estados Unidos diante dessa nova conjuntura porque, ao longo da história, as mudanças de hegemonia sempre foram realizadas a partir de tensões políticas, econômicas e guerras. Mas a guerra não é um dado definitivo, porque a China possui armas nucleares capazes de atingir os Estados Unidos e, ultimamente, tem realizado uma aliança estreita com a Rússia, que tem paridade estratégica em armas nucleares com os norte-americanos. Uma guerra nessas condições seria uma catástrofe que poria em risco a própria existência da espécie humana. De qualquer forma, está horizonte próximo uma transição tensa de hegemonia na economia mundial.

b) A crise econômica nos Estados será muito mais grave que primeira erupção em 2008 e possivelmente semelhante ou maior que a grande depressão dos anos 30. Os cálculos realistas indicam que o Produto Interno Bruto do País deverá cair para cerca de -10%, o desemprego poderá atingir 50 milhões de trabalhadores, dezenas milhares de empresas irão à falência em praticamente todos os setores da economia, especialmente nas áreas de comércio e de serviços e, num ritmo um pouco menor, na área produtiva. Com as empresas indo á falência os bancos também serão impactados fortemente em função da cadeia de dívidas que atinge empresas e consumidores. Além disso, a crise não será intensa apenas em 2020: a principal economia mundial continuará em crise por muitos anos, pois as taxas de juros já estão praticamente negativas e não têm mais para onde baixar; os recursos que os bancos centrais estão destinando ao sistema econômico estão encontrando um ambiente encharcado de dinheiro. Os bancos não vão emprestar para as empresas produtivas porque estas não têm demanda suficiente para absorver a produção, em função da queda na renda da população. Só numa conjuntura dessa ordem se pode explicar a inflação dos ativos financeiros enquanto a economia desaba: os grandes conglomerados e os próprios bancos estão recomprando suas próprias ações; No caso dos Estados Unidos, mesmo que o Tesouro continue resgatando as dívidas empresariais e comprando títulos tóxicos das grandes companhias e bancos, essa prática tem um limite. Em outros termos: essa farra em algum momento vai acabar tanto em função da chamada armadilha da liquidez ¹⁹, quanto no momento em que um elo forte na cadeia de crédito e das dívidas for quebrado. O que resultará dessa conjuntura será a quebra de grandes empresas, calote de dívidas, queda nos preços dos ativos financeiros e os próprios grandes bancos também irão à bancarrota porque nenhum setor pode permanecer imune a uma crise dessa ordem.

b1) Uma economia em frangalhos, com fundamentos destroçados, não pode ter uma moeda com o privilégio exorbitante de poder imprimir dinheiro sem um lastro em sua base material. Ou como diz Eichengreen: “O Bureal of Engravind and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos) gasta apenas alguns cents para produzir uma nota de US$ 100, mas os outros países precisam fornecer US$ 100 em bens e serviços para obter a mesma nota de US$ 100”. ²⁰ Realmente, essa é uma artimanha muito mais vantajosa que os antigos e melhores negócios da China. Mas esse privilégio pode também acabar com a crise. Se observarmos os fundamentos da economia norte-americana veremos uma situação aterradora: o déficit em conta corrente ²¹ está acima de 4,5% do PIB, a dívida pública por volta dos 100% do produto, há ainda enorme dívida dos Estados e Municípios, dos consumidores, dos estudantes e das empresas ²². A infraestrutura do País está aos frangalhos, a economia em queda livre, bem como o mercado de trabalho. Esse conjunto de adversidades vai se refletir na confiança internacional do dólar, afinal uma economia com esse conjunto de problemas, embora seja a maior economia do mundo, com o maior poder militar, e a emissora do dinheiro mundial, em algum momento os investidores podem decidir abandonar o barco e deixar de financiar o déficit dos Estados Unidos. Necessário lembrar que a força e a hegemonia de uma moeda são os fundamentos da nação emissora. Em outros termos: caso ocorra o enfraquecimento do dólar as nações irão procurar outra moeda para realizar suas transações comerciais e nenhum País vai querer comprar títulos de um País em  bancarrota. Os bancos centrais vão querer desfazer-se de suas reservas em dólar, afinal nenhuma nação quer ter suas reservas baseadas numa moeda desvalorizada. Não se pode esquecer que cerca de 65% do comércio mundial é feito em dólar, mas isso pode também mudar rapidamente numa grande crise, especialmente se levarmos em conta a ascensão da China e se a sua nova criptomoeda – o yuan digital – for aceita pelos parceiros comerciais da China para suas transações comerciais. Numa situação dessa ordem teríamos uma desarticulação do velho sistema financeiro internacional e a construção de um novo sistema possivelmente baseado numa cesta de moedas.

c) A terceira das grandes questões que esta crise está impondo ao sistema capitalista é uma espécie de imponderável em construção, onde todas as possibilidades estão abertas. Vale lembrar que as grandes crises são o momento da verdade para todos: governos, partidos políticos, movimentos sociais e populares. Nesses períodos todos são obrigados a expor com clareza suas ações, projetos, comportamentos, opiniões e a própria conjuntura se encarrega de definir o rumo dos acontecimentos e aferir quais as propostas que tinham aderência à realidade e quais estavam incorretas. Crises dessa dimensão cobram um alto preço pelos erros dos agentes econômicos, sociais e políticos. Nesses momentos, os acontecimentos são velozes, a conjuntura muda bruscamente. Aquilo que parecia impossível em dias anteriores se torna realidade cotidiana no dia seguinte. Para o senso comum, é como se o mundo estivesse virando de cabeça para baixo. Mas é assim mesmo. São essas conjunturas que abrem as janelas de oportunidades para as grandes mudanças – no caso dessa crise tanto para os nossos inimigos de classe quanto para os trabalhadores. Geralmente, as pessoas temem as crises pela imponderabilidade e pela desagregação que ocorre com a velha ordem, afinal é mais cômodo se conviver com a normalidade. Mas à medida em que a velha ordem vai sendo derrotada e a nova ordem estabelecida, a maioria toma conhecimento das vantagens objetivas dos novos tempos e então se coloca em movimento para conseguir seus objetivos. Casso seja orientada por uma direção política consequente e com objetivos estratégicos, podem construir a nova ordem num patamar bastante superior. 

c1) As grandes manifestações nos Estados Unidos são resultado das contradições profundas que vinham se acumulando nessa sociedade desde o final dos anos 70. A morte de George Floyd foi apenas o estopim que acendeu a revolta que estava madura na sociedade. Estas manifestações podem ser a senha para levantes em várias regiões do planeta, inclusive na Europa e na América latina, pois os problemas revelados pela crise são semelhantes em todas as partes do mundo capitalista. Além disso, as manifestações nos Estados Unidos possuem um valor simbólico: estão sendo realizadas no coração do sistema capitalista. O choque psicológico que a sociedade norte-americana está sentindo com os problemas revelados dramaticamente pela crise terá um impacto profundo na consciência das massas (tanto no curto quanto no médio prazo), especialmente na população mais pobre e na juventude, para a qual ficou claro que o discurso vendido pelas classes dominantes era uma mentira longamente cultivada pelos meios de comunicação. O rei se encontra completamente despido: o País das liberdades, das oportunidades, que se comportava como palmatória do mundo para impor os seus valores, agora não consegue proteger a saúde da população diante de uma pandemia, enquanto países muito mais pobres controlaram a doença. Em outras palavras, quando a ira popular emergir das ruínas dessa crise o coração da maior cidadela imperialista vai bater num compasso descontrolado. Mesmo antes da pandemia já se podia sentir um grande descontentamento entre os trabalhadores dos Estados Unidos, tanto que ano passado ocorreram várias greves na categoria dos professores, nos trabalhadores de cadeias de fast food e anteriormente as manifestações dos jovens do Occupy Wall Street. Portanto, as manifestações que estamos assistindo agora podem ser apenas a ponta de um iceberg em direção ao Titanic. Mas não basta a revolta pura e simples contra o racismo, a brutalidade policial e as desigualdades. O sistema é muito forte e pode absorver, cooptar, dividir e derrotar o movimento. Vale lembrar que o Occupy chegou a se organizar em cerca de 60 cidades e se dissolveu por falta de objetivos políticos estratégicos. Portanto, se as manifestações não evoluírem para propostas políticas para mudar o sistema, mediante a construção de uma organização politica, baseada em forte movimento de massas organizado, pode-se novamente perder uma grande oportunidade histórica.  

O acirramento das lutas de classe em caráter mundial

Portanto, estamos diante de uma conjuntura em que haverá, no pós-pandemia, um acirramento da luta de classes em caráter mundial. Como avaliarmos em trabalhos anteriores, a luta de classes só ganhará um caráter internacional quando atingir o coração do imperialismo – os Estados Unidos, a Europa e o Japão. Nos elos débeis dos países periféricos também ocorrerão jornadas extraordinárias de lutas porque o imperialismo, ferido em seu próprio território, não terá a mesma força para impor sua hegemonia ao resto do mundo, até mesmo porque está emergindo da crise um competidor à altura desse momento histórico. O mundo viverá uma nova conjuntura com grande lutas de massas nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, na América Latina, onde os levantes sociais já vinham ocorrendo antes mesmo da pandemia, como no Chile,  Equador e Colômbia. Mas aqui no lado de baixo do equador, onde a luta de classes terá um papel decisivo será no Brasil, tanto pela dimensão geográfica e populacional do País, quanto pelo tamanho da economia, do proletariado e, fundamentalmente, pelo acúmulo de contradições sociais do País. 

A burguesia e seu principal aliado estratégico, o Estado, irão articular estratégias de todas as formas para conter as revoltas sociais, tanto pela repressão aberta e generalizada, criminalização dos movimentos sociais e populares, quanto por métodos mais sofisticados de desinformação, cooptação e manipulação dos meios de comunicação. A retórica deverá ser a mesma: o Estado gastou muito com a pandemia, está quebrado, e todos precisam fazer sacrifícios para que se encontre o equilíbrio fiscal, como forma de garantir a estabilidade econômica, a retomada do crescimento e dos empregos. Mas a tendência é que esse discurso tenha poucas chances de convencer a maioria da população porque a realidade da crise terá sido tão violenta que pode neutralizar essa velha catilinária, ao mesmo tempo em que a própria experiência prática das massas nesse período pode gerar um efeito pedagógico muito mais relevante para desmoralizar e deslegitimar um discurso que vem se repetindo a cerca de 40 anos e que só serviu para concentrar renda, reduzir os salários e aumentar a pobreza em todo o mundo.

Não se pode afirmar com certeza qual deverá ser o desfecho de curto e médio prazo no próximo período, mas algumas hipóteses podem ser exploradas: a) caso as manifestações no coração do sistema capitalista (Estados Unidos) se mantenham, o ritmo da luta de classes nas outras regiões será muito mais intenso, tanto pelo exemplo, quanto pelo próprio enfraquecimento do imperialismo mundial; b) independentemente do que ocorra em termos de lutas sociais nos países centrais, a luta de classes na América Latina se intensificará se maneira extraordinária porque a paciência das massas com a política neoliberal está esgotada, o que já vinha sendo demonstrado no período anterior à pandemia. Agora, com a devastação social provocado pelas políticas neoliberais, escancaradas e intensificadas para a população com a pandemia, a luta de classes na região será muito mais intensa e violenta que nos outros continentes, tanto pela feroz resistência das classes dominantes, viciadas na barbárie social e na exclusão dos trabalhadores das decisões econômicas e políticas, quanto pela disposição dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das periferias em mudar o estado de coisas na América Latina. Vale lembrar que nas grandes crises as massas realizam um aprendizado rápido (e a pandemia está contribuindo muito para isso), o estado de ânimo das massas muda rapidamente. Fenômenos que pareciam impossíveis se tornam realidade. Como quase todos os governos da região se alinharam com a política neoliberal e se comportaram de maneira criminosa em relação à pandemia, poderão sair da crise desmoralizados junto à população, perderão força política e terão poucas opções além de reprimir barbaramente a população esfomeada e raivosa nas ruas ou serem derrubados pelos movimentos sociais. Tudo depende do papel que as direções políticas revolucionárias terão nessa conjuntura. Como sou um otimista histórico, torço para que a segunda opção se transforme em realidade.

Notas

1 – Secretário-geral do PCB, é doutor em economia pela Unicamp, com pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da mesma Instituição. É autor, entre outros, de Reflexões sobre a crise brasileira (no prelo), A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil (edições ICP, 2013) e A globalização e o capitalismo contemporâneo (Expressão Popular, 2008), além de vários ensaios publicados em revistas e sites do Brasil e do exterior.

2 – O sistema capitalista mundial registrou apenas duas grandes crises sistêmicas anteriores a essa: a de 1873-1896, cujo resultado foi a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista; e a crise de 1929-1945, que levou à segunda guerra mundial, à divisão do mundo em dois sistemas (socialista e capitalista) e, no interior do sistema capitalista, os trabalhadores conquistaram o Estado do Bem Estar Social. Para melhor compreensão do significado das crises sistêmicas (em relação às crises cíclicas do capital), consultar: COSTA, E. A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil. Rio de Janeiro: Edições ICP, 2013.

3 – Para melhor compreensão sobre as contradições entre o desenvolvimento das modernas forças produtivas do capitalismo atual e as velhas relações de produção, consultar Costa. E. em: A natureza da crise sistêmica global: às vésperas do choque das placas tectônicas do capital. Resistir. info

4 – GRUPO DE ESTUDOS E ACOMPANHAMENTO DA CONJUNTURA ECONÔMICA. Coronavirus e a crise mundial: um olhar para os antecedentes da tormenta. Tricontinental, Brasil, 24 mar. 2020. Disponível em: https://www.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/a-contribuicao-do-coronavirus-na-crise-mundial-um-olhar-para-os-antecedentes-da-tormenta/. Acesso em: 30 mar. 2020.

5 – ROBERTS, Michael. Lucratividade: o investimento e a pandemia. Economia e Complexidade, 22 maio. 2020. Disponível em: https://eleuterioprado.blog/2020/05/25/lucratividade-o-investimento-e-a-pandemia/. Acessado em: 30 maio.2020.

6 – ROBERTS, op. cit.

7 – TOUSSAINT, Eric. A pandemia do capitalismo, o coronavirus e a crise econômica. CADTM, 23 mar. 2020. Disponível em: http://www.cadtm.org/A-Pandemia-do-Capitalismo-o-Coronavirus-e-a-Crise-Economica. Acesso em: 26 jun. 2020.

8 – PLENDER, Jonh. Há um temor de escassez no crédito global. Valor Econômico, 06 mar. 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/impresso/noticia/2020/03/06/ha-um-temor-de-escassez-no-credito-global.ghtml. Acesso em: 01 jun. 2020.

9 – HEDGES, Cris. Assim arma-se a próxima crise financeira. Outras Palavras, 15 ago. 2019. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/assim-comecara-a-proxima-crise-financeira/. Acesso em: 26 jun. 2020.

10 – BORGES, Robinson. Líderes que negam a gravidade da pandemia não salvam a atividade econômica nem vidas, diz Larry Sumers. Valor Econômico, São Paulo, 22 maio. 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2020/05/22/lideres-que-negam-a-gravidade-da-pandemia-nao-salvam-a-atividade-economica-nem-vidas-diz-larry-summers.ghtml. Acesso em: 26 jun. 2020.

11 – WEISSMAN, Suzi; BRENNER, Robert. Por trás da turbulência econômica. Portal da Esquerda em Movimento,29 ago. 2019. Disponível em: https://portaldelaizquierda.com/pt_br/2019/08/por-tras-da-turbulencia-economica/. Acesso em: 26 jun. 2020.

12 – SNYDER, Michael. Prepare-se para a colisão! A economia dos EUA está caindo e caindo com força. Blog Pos. 20 nov. 2019. Disponível em: https://www.clubpos.club/prepare-se-para-a-colisao-a-economia-dos-eua-esta-caindo-e-caindo-com-forca-17-de-novembro-de-2019/. Acesso em: 26 jun. 2020.

13 – THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in America. [s.l]: [s.e.], 2019. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2019/09/The-State-of-Homelessness-in-America.pdf. Acesso em: 26 jun. 2020.

14 – ROUBEN, Anthony. 1% da população global detém a mesma riqueza que os 99% restantes, diz estudo. BBC News, 18 jan. 2016. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn. Acesso em: 20 maio. 2020.

15 – ENGELS, Friedrich. A humanização do macaco pelo trabalho. In: ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

16 – MARX, Karl. Salário, preço e lucro. São Paulo: Edipro, 2004.

17 – Cf. MARX, Karl. O Capital: livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. p. 117-123. Nessa passagem Marx cita um panfleto anônimo que possivelmente tenha sido escrito em 1739 ou 1740 que naquela época já afirmava o seguinte; “O valor deles (os meios de subsistência) quando são trocados uns pelos outros, é regulado pela quantidade de trabalho necessariamente requerida para a sua produção e geralmente nela empregada”.

18 – Método alternativo à avaliação pela taxa de câmbio, formulado pelo economista sueco Gustav Cassel, que busca aferir o poder de compra real na moeda de cada país.

19 – Conceito keynesiano no qual, quando a economia encontra-se numa situação em que as taxas de juros se encontram em zero ou próximas de zero, e a política monetária se torna inócua, ou seja, não adianta injetar dinheiro na economia porque não se alcançará nenhum resultado expressivo.

20 – EICHENGREENN, B. Privilégio exorbitante: ascenção e queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.

21 – A conta-corrente envolve a balança comercial de um país, a balança de serviços, além das transferências unilaterais.

22 – Os números oficiais indicam uma dívida pública de US$ 21 trilhões. Mas, cálculos do economista Laurence Kotlikoff, da Universidade de Boston e ex-economista senior do Conselho de Economistas do presidente Reagan, indicam que a dívida de longo prazo dos Estados Unidos, incluindo os passivos dos seguros sociais, do Medicare, Medicaid, estudantes consumidores, (inclusive levando em conta a arrecadação de impostos no período), atinge 222 trilhões. Confira o blog The end of the American Dream, de Michael Snyder.