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Cultura: num lugar bem longe de você
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Cultura: num lugar bem longe de você

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Por: Artur Voltolini (artur@observatoriodefavelas.org.br)

Embora 77% dos equipamentos culturais da cidade se concentrem no Centro e na Zona Sul, metade dos moradores da cidade vive na Zona Oeste.

A cidade do Rio de Janeiro conta hoje, segundo dados de prefeitura, com 499 equipamentos culturais (teatros, cinemas, bibliotecas, museus, centro culturais, pontos de cultura e pontos de leitura). Destes, apenas 11,5% se encontram na Zona Oeste, que hoje concentra quase metade da população carioca. A expansão desgovernada, tão criticada por arquitetos e urbanistas, levou uma grande parcela da população a ocupar espaços sem estrutura urbana adequada, como saneamento básico e sistemas de transporte.

A necessidade de equipamentos culturais da Zona Oeste por si só já é um problema grave, mas aponta para outro: como faz um morador da lá que queira usufruir desses equipamentos faz para até eles? Na Zona Sul e no Centro estão concentrados 77% de todos eles.

Como a lógica do transporte público carioca é voltada para levar e trazer pessoas de casa para seus trabalhos, encontrar ônibus à noite ou nos finais de semana pode ser um transtorno. O jornal O Globo publicou hoje matéria mostrando filas enormes de moradores das zonas Norte e Oeste esperando durante por horas ônibus na General Osório, em Ipanema, para voltar pra casa depois da praia de domingo.

Com a drástica diminuição da circulação de transportes alternativos pela Zona Sul, o transporte noturno ficou muito escasso. Marcus Galiña, diretor de teatro, educador e integrante do grupo Reage Artista, disse que há algumas semanas, no começo da madrugada, enquanto tentava voltar para sua casa na Tijuca, ficou 25 minutos no ponto de ônibus sem que passasse nenhum. E, quando passou, não era o dele. Marcus lembra que durante sua adolescência não era assim, e que a cidade tinha um transporte público noturno muito mais eficiente.

Não é só o público que mora longe do Centro e da Zona Sul que sofre com problemas de mobilidade urbana. Isabel Gomide, experiente administradora de teatros carioca, afirma que dependendo do horário do espetáculo, os técnicos e funcionários também sofrem para voltar para casa. “Minha luta em todos os teatros que trabalhei foi para terminar as montagens às 23h. Artistas que moram pela Zona Sul e têm carro não entendem esse problema”, diz Isabel. Segundo ela, quando trabalhava no SESC, os espetáculos eram marcados para terminar mais cedo, mas quando havia um evento de estreia uma ou desmontagem mais complicada, que ultrapassava as 23h, Isabel afirma: “Eu fazia a instituição pagar o taxi dos funcionários, seguranças, faxineiros e técnicos. Saía uma fortuna. Mas isso era no SESC, né? Já nos teatros do Estado e do Município…”.

Por conta dessas questões de mobilidade, os teatros do Centro tendem a começar suas peças às 19h, o que coincide com o horário de saída do trabalho das pessoas que circulam por lá. Mas isso acaba dificultando o acesso a quem mora mais longe. Chegar às 19h no Centro, para quem mora ou trabalha na Zona Norte, pode demorar mais de uma hora. Por conta disso, os equipamentos culturais acabam servindo apenas àqueles vivem ou trabalham perto deles.

Leo Bezerra, diretora do Teatro Armando Gonzaga, em Marechal Hermes, diz que grande parte do público que lota o teatro para assistir aos espetáculos vêm dos bairros vizinhos à Marechal Hermes, mesmo a região sendo bem fornecida de transporte.

Marcus Galiña elogia a criação de Arenas como a Dicró, na Penha, e a Adelina Pérola Negra, na Pavuna. O grupo Teatro da Laje, formado por moradores da Vila Cruzeiro, apresentou um espetáculo que levou mais público à Arena Dicró de que um espetáculo na mesma arena com a global Regina Duarte. Galinã diz que quando o mesmo espetáculo foi apresentado às 21h no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, os atores da companhia “passavam um perrengue” para poderem voltar para casa. O Curioso é que a peça que eles apresentavam se chamava A viagem da Vila Cruzeiro à Canaã de Ipanema numa página do Facebook, que conta a saga de um grupo de jovens da Vila Cruzeiro que encontra dificuldades, entre reais e fantásticas, apenas para curtir uma faixa de areia nas praias cariocas, enquanto publicam sua aventura em redes sociais.

Entre os diversos jovens moradores das regiões Norte e Oeste da cidade entrevistados pelo Observatório de Favelas, os problemas de mobilidade urbana e as dificuldades para voltar para casa foram apontados como grande empecilho ao consumo de cultura na Zona Sul e no Centro. Mesmo se o evento for gratuito, as passagens são caras. Para a maioria deles, a solução encontrada é se preparar para engatar o evento cultural com uma noite de curtição pela Lapa, para pegar os primeiros ônibus às 5 da manhã. Para os mais adultos, que já não têm tanta energia, a opção, infelizmente, é o Zorra Total.