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As universidades brasileiras são as melhores da América Latina? Melhores para quem?
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As universidades brasileiras são as melhores da América Latina? Melhores para quem?

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Por: Guilherme de Andrade*

No dia 20 de julho deste ano a organização Times Higher Education(THE) publicou o ranking das “melhores” universidades da América Latina.[1] As universidades brasileiras ocupam metade das 10 melhores posições, 18 das 50 melhores e 32 posições no total de 81 posições do ranking.

O G1 publicou um artigo exaltando isso.[2] O reitor da Unicamp, a primeira colocada do Ranking, deu entrevistas falando do árduo trabalho para conseguir esse feito. Várias pessoas, ligadas ou não às Universidades, comentam e comemoram. Mas e ai? O que esse ranking avalia? São melhores no quê? Para quem?

Primeiro, vamos entender a metodologia empregada para esse ranking. [3] As universidades são avaliadas em 5 diferentes fatores com pesos diferentes para a avaliação final: Ensino (36%), Pesquisa(34%), Citações(20%), Visão Internacional(7,5%) e Renda Industrial/Transferência de Conhecimento (2,5%). Analisando cada um desses pontos com mais detalhes temos:

 

A)O fator ensino é dividido em cinco outros que compõe o valor final atribuído a esse fator com diferentes pesos:

1)Reputação (15%): é baseado em outra pesquisa, a “Academic Reputation

Survey”[4], realizada anualmente. Trata-se de um questionário que a Elsevier – gigante do mercado de produção científica – envia às universidades.

2)Relação pessoal-estudante (5%): proporção entre funcionários e estudantes. A

THE não explicita se uma alta proporção é melhor ou se uma baixa proporção é o  ideal. Sequer indica o porquê deste fator.

3)Proporção doutorado-bacharel (5%): proporção entre alunos de pós-graduação

e alunos de graduação. Segundo a THE, “Além de dar uma ideia de quão  comprometida a instituição é em nutrir a próxima geração de acadêmicos, uma alta proporção de estudantes de pós-graduação também sugere a  prestação de ensino ao mais alto nível, o que é atraente para os graduados e  eficaz para seu desenvolvimento.”

4)Proporção de doutorados fornecidos a docentes (5%): a quantidade de  docentes com título de doutor. Uma maior quantidade de docentes doutores, significa, segundo a THE, melhor ensino.

5)Renda Institucional (6%): relação entre recursos da universidade e quantidade de funcionários. Esse índice é então normalizado baseado no poder de compra local. Segundo a THE esse índice dá um “senso amplo da infra-estrutura e instalações disponíveis para estudantes e funcionários.”


Esse ponto no mínimo já causa certo estranhamento. Como a relação entre recursos e quantidade de funcionários da universidade indica qualquer coisa sobre a infra-estrutura? Nas estaduais paulistas – que figuram nas duas primeiras posições do ranking – 20% dos recursos são utilizados para pagar gastos do governo do Estado[5]. A quantidade de pós-graduandos em relação a graduandos também não significa nada para o ensino. No máximo significa que a universidade se preocupa bastante em manter e intensificar a lógica de produção de conhecimento vigente.

E como um questionário aplicado por um grande monopólio capitalista – a Elsevier, cujo interesse é vender seus periódicos – e respondido pelo quadro administrativo das universidades, indica algo sobre a qualidade do ensino? Uma pesquisa séria sobre a “reputação” do ensino deveria se basear na experiência dos estudantes. Deveria se basear em suas dificuldades de permanência. Em seus problemas de saúde, sobretudo psicológicos, que surgem ao longo de seus estudos debaixo da chibata da lógica mercantilista de produção acadêmica. Em sua relação com docentes e funcionários. Em seu acesso, ou falta dele, às instalações da universidade.

 

B)O fator pesquisa também é dividido em outros fatores:

1)Reputação da pesquisa (18%): também baseado no resultado do questionário aplicado pela Elsevier.

2)Produtividade da pesquisa (10%): Bem auto-explicativo. Trata-se da relação entre “volume de resultados acadêmicos, incluindo artigos, revisões, procedimentos de conferência, livros e capítulos de livros indexados pela base de dados Scopus da Elsevier por pesquisador” – e “tamanho institucional”.

3)Rendimento da pesquisa (6%): a relação entre os recursos da universidade, normalizado pelo poder de compra local, e o volume da produção acadêmica.

 

Novamente, vários pontos dignos de nota. O critério se basear no “volume de resultados acadêmicos” já deixa claro o caráter dessa produção de conhecimento. Busca-se quantidade sobre qualidade. E do item 3 ainda temos que quanto menos se gasta para produzir, melhor. A relação com o modo de produção capitalista é ridiculamente evidente neste critério. O item 1, por sua vez, poderia dispensar comentários. Mas vale ressaltar novamente que, para a THE, universidade boa é a que produz como a Elsevier quer.

 

C)O fator citações também é bastante auto-explicativo e não se divide em outros fatores. Quanto mais os pesquisadores da universidade são citados na produção de outras universidades, melhor posicionada ela fica.

Este fator demonstra qual pesquisa tem valor e para quem. Pesquisa de excelência não é aquela que atinge diretamente a vida da população e a transforma para melhor. É aquela que os países centrais do capitalismo julgam úteis para a reprodução do capital.

Ainda, este critério é também utilizado no Ranking Mundial de Universidades[6]. Neste ranking ele serve para atestar o óbvio e demonstrar o caráter ideoĺógico do ranking e a dominação dos países centrais do capitalismo sobre os países dependentes no campo da produção de conhecimento. Não à toa a USP, a melhor colocada neste ranking mundial, ocupa uma posição inferior a 250. A dependência tecnológica impede o desenvolvimento de qualquer inovação real e de impacto, segundo os critério da THE. Assim, o conhecimento produzido nos países dependentes se mantém no campo da reprodução ou aplicação do conhecimento produzido nas grandes nações capitalistas. Isso por sua vez garante o grande número de citação dos pesquisadores das universidades destas nações e as mantém no topo desses rankings.

 

D)O fator Visão Internacional também é divido em três outros fatores:

1)Proporção de alunos domésticos e estrangeiros (2,5%)

2)Proporção de pessoal doméstico e estrangeiro (2,5%)

3)Colaboração internacional (2,5%): a quantidade de produção acadêmica com co-autores de países estrangeiros.

 

Este fator talvez seja aquele onde o caráter ideológico é mais forte. O que ele diz é que universidade boa é universidade globalizada, é universidade que internacionaliza sua produção de conhecimento.

Ele é uma grande tentativa de mascaramento da realidade social, de mascaramento das relações de dependência entre nações periféricas e centrais do capitalismo, de mascaramento do papel das nações latino-americanas na divisão internacional do trabalho. Esconde-se que o papel da universidade nos países dependentes é unicamente de reprodução do que é produzido nos países centrais e de exportação de mão-de-obra especializada e barata para estes mesmos países. (Um pequeno parênteses. Os governos do PT intensificaram ainda mais isso com o extinto programa “Ciências sem Fronteiras”)

E)O fator renda industrial/transferência de conhecimento não se divide em outros fatores. Segundo a THE, esse fator avalia a “medida em que as empresas estão dispostas a pagar pela pesquisa e a capacidade de uma universidade para atrair financiamento no mercado comercial – indicadores úteis de qualidade institucional.”

Ou seja, universidade boa é universidade que serve ao capital. Transferência de conhecimento à classe trabalhadora, a classe que mantém a universidade de pé, não vale de nada. Sequer se cogita a extensão, a parte do tripé responsável pela materialização do conhecimento produzido junto à população que possibilitou a produção dele.

Não há absolutamente nada para se orgulhar de ter universidades brasileiras neste ranking. Este ranking não avalia em nada a “qualidade” das universidades. Não existe “qualidade” abstratamente. A universidade tem qualidade para alguma classe, e não se trata da classe trabalhadora dos países latino-americanos. A universidade brasileira tem qualidade para a burguesia internacional.

Este ranking nada mais é que um tapinha nas costas agradecendo pelo trabalho de país dependente feito de maneira exemplar. E este tapinha nas costas tem sido recebido com enorme alegria por boa parte das comunidades que compõem as universidades citadas neste ranking. Ano após ano isso ocorre.

Dr. Kwame Nkrumah, revolucionário marxista ganês, escreveu algo quase meio século atrás que define bem a situação: “A essência do neo-colonialismo é que o Estado que está sujeito a ele é, em teoria, independente e possui toda aparência da soberania internacional. Em verdade, seu sistema econômico e, em consequência, a política, é dirigida de fora.”[7] Comemora-se que as universidades brasileiras são as melhores da América Latina, mas se ignora que os critérios para definir as melhores sequer foram definidos por alguma nação latino-americana.

Não devemos comemorar este ranking. Devemos lutar por outra universidade. Por uma universidade feita por trabalhadores e para os trabalhadores. E devemos ter em mente que essa luta só será vitoriosa junto à luta por outra sociedade. O atual projeto de universidade brasileiro é assim devido à sua dependência econômica e política às nações centrais do capitalismo. Só teremos uma universidade verdadeiramente popular se rompermos com essa dependência. E só romperemos essa dependência com a luta pela construção do Poder Popular, com a construção da Revolução Brasileira.

E o exemplo de outra universidade em uma outra sociedade já foi dado. Nas palavras de Che Guevara:

Tenho que dizer que se pinte [a universidade] de negro, que se pinte de mulato, não  só entre alunos, mas também entre os professores; que se pinte de operário e camponês, que se pinte de povo, porque a Universidade não é patrimônio de ninguém e pertence ao povo de Cuba, e se este povo que hoje está aqui e cujos representantes estão em todos os postos do Governo, se levantou em armas e rompeu o dique da reação, não foi porque esses diques não foram elásticos, não tiveram a inteligência primordial de ser elástico para poder brecar com esta elasticidade o impulso do povo, e o povo que triunfou, que está até mal acostumado com o triunfo, que conhece sua força e sabe-se que é avassaladora, está hoje às portas da Universidade e a Universidade deve ser flexível, pintar-se de negro, de mulato, de operário, de camponês ou ficar sem portas, e o povo a arrebentará e pintará a Universidade com  as cores que melhor lhe pareça.”[8]

 

[1]https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/latin-america-university-rankings-2017-results-out-now#survey-answer

[2]http://g1.globo.com/educacao/noticia/unicamp-ultrapassa-usp-e-fica-em-1-lugar-em-ranking-de-universidades-da-america-latina.ghtml

[3]https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/latin-america-university-rankings-2017-methodology

[4]https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/academic-reputation-survey-explained

[5]https://www.facebook.com/ujcsaopaulo/photos/a.490199031107304.1073741828.487179644742576/1198361710291029/?type=3&theater

[6]https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/methodology-world-university-rankings-2016-2017

[7]Kwame Nkrumah. Neo-Colonialism: the late stage of imperialism. Nova Iorque: International Publishers, 1966. p. IX.

[8]Che Guevara. Que a Universidade se pinte de negro, de mulato, de operário, de camponês. In: Obras Completas Volume 6. São Paulo: Edições populares, 1981. p.88.